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quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A notícia online ao alcance de todos

Por Sheila Sacks

Com o gradual cerceamento na web de conteúdo gratuito e irrestrito de textos produzidos pela grande imprensa brasileira, que tem investido no nicho de assinaturas digitais, está cada vez mais difícil o internauta ter acesso às determinadas notícias, artigos ou colunas de seu interesse, caso não seja assinante do jornal impresso ou pague pelo serviço. Uma tendência que segue em sentido oposto ao que se vislumbra nos Estados Unidos, segundo o registro do jornalista Carlos Castilho, no Observatório da Imprensa (“Seis Razões para abandonar o acesso pago”, em 26.07.2016). Lá, 70% dos jornais com tiragens maiores de cinco mil exemplares já abandonaram a cobrança de acesso às notícias online.   

Por isso foi uma surpresa positiva descobrir um espaço onde os melhores conteúdos de uma grande gama de jornais de todo o país estão à disposição do internauta de uma forma simples e muito bem cuidada, proporcionando ao cidadão visitante, além de uma ampla e diversificada visão sobre a atualidade política e social do Brasil, um enfoque dirigido aos atuais dilemas econômicos que impactam a nossa sociedade.

Clipping diário e em tempo real da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (ANFIP) -   http://www.anfip.org.br/clipping  - é um serviço público dos mais relevantes à medida que disponibiliza um conjunto de notícias e de opiniões publicadas em veículos de comunicação situados em pontos diferentes do país, de tendências díspares e visões múltiplas. Informações que de outra forma dificilmente chegariam graciosamente aos dispositivos móveis dos cidadãos urbanos do eixo Rio-São Paulo, às telas eletrônicas dos conectados das capitais afastadas dos centros políticos decisórios ou dos leitores antenados das cidades interioranas brasileiras de pequeno e médio porte. Mesmo que os leitores se dispusessem a empreender uma garimpagem mais demorada no Google, não seriam brindados com essa pauta brilhante de abordagens.

De maneira rápida e eficiente é possível se surpreender com o conteúdo dessa seleção nota 10, que oferece inclusive um calendário digital que permite ao internauta a consulta ou releitura de textos de datas anteriores. 

Sem retoques

Assim, na primeira semana de agosto, fica-se sabendo que a economia brasileira segue encolhendo e que a redução de nosso BIP per capita poderá chegar a 10% em dois anos. Lembrando que na chamada década perdida, de 1981 a 1992, a renda encolheu 7,6%, ou seja, toda a política de distribuição de renda e inclusão social está sendo anulada pela recessão (“O fundo do poço”, por Luiz Carlos Azedo, no Correio Braziliense).

E mais: Entre dezembro de 2014 e maio de 2016, o número de assinantes da TV paga caiu de 19,5 milhões para 18,9 milhões, segundo dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Foram 669 mil cancelamentos, sendo que nos primeiros cinco meses deste ano já somam 208 mil rescisões, uma média de 40 mil por mês, reflexo da crise econômica (“Tem menos gente ligada na TV por assinatura”, por Thatiana Pimentel, no Diário de Pernambuco). Outro dado revelador: Enquanto os trabalhadores da iniciativa privada com medo do desemprego recorrem menos aos consignados (empréstimos descontados diretamente no contracheque), os funcionários públicos se endividam mais. De acordo com dados do Banco Central, em junho a categoria devia 171,3 bilhões em empréstimos consignados, cifra 4,9% superior ao mesmo período de 2015.

Paralelamente a essa contração de renda da população, a Receita Federal estima que em torno de R$ 520 bilhões são sonegados anualmente no Brasil, principalmente pelos mais ricos. Esse valor cobriria três vezes o rombo aprovado nas contas do Governo Federal em 2016. Outras fontes de recursos, como o aumento de alíquota de IOF para altos volumes de transações financeiras e o tributo sobre grandes fortunas, continuam sendo adiadas pelas autoridades da gestão econômica. Assim abandonam-se os princípios da razão do estado e mantém-se a narrativa da crise (“Razão de estado e desigualdade social no Brasil”, por Cláudio Guedes Fernandes, no Correio Braziliense).

Globalização desigual

 Em nível mundial, a situação econômica também não é das melhores e para o americano Joseph E. Stiglitz, prêmio Nobel de Economia em 2001, a era da globalização gerou uma desigualdade global em termos de renda. Entre 1998 e 2008, por exemplo, os grandes ganhadores foram os que representam o 1% da plutocracia mundial e a classe média nas novas economias emergentes. Em artigo publicado no jornal O Globo (“O novo mal-estar da globalização”), o economista observa que nos dias atuais, grandes segmentos da população nos países avançados não estão em melhores condições, ou seja, não prosperaram. Nos EUA, os 90% mais pobres enfrentam uma estagnação de renda há 25 anos. A renda média dos trabalhadores homens em horário integral é atualmente menor em termos reais (considerada a inflação) do que era há 42 anos. Na base da pirâmide, os salários reais são comparáveis aos níveis de 60 anos atrás.

A Unctad – órgão das Nações Unidas dedicado ao comércio e desenvolvimento – chama a atenção para o fato de que entre 1990 e 2015, a quantidade de pessoas vivendo na extrema pobreza no mundo foi ampliada em mais de 50%. No artigo “Chegou a conta da globalização” (Valor Econômico), a jornalista Maria Clara R.M. do Prado destaca que nem todos se beneficiaram da globalização e que o progresso tem sido desigual, contribuindo para o desencantamento. E chama a atenção para o fato de os governos estarem sendo atropelados pelos grupos descontentes que têm fazendo valer a sua voz contra a globalização e as desigualdades que persistem. No plebiscito do Brexit, na Inglaterra, e na candidatura de Donald Trump.
 
No Brasil, o espetáculo globalizado das Olimpíadas mereceu um comentário do jornalista Elio Gaspari, colunista de O Globo e da Folha de São Paulo, que jogou um balde água fria na empolgação da galera nacional que vibra e torce nas arenas olímpicas, estimulada pelo maciço marketing da mídia e de seus patrocinadores. Segundo ele, nada reduzirá a beleza dos sorrisos dos atletas nas cenas da festa da abertura e os momentos de sonho e felicidade de centenas de jovens que subirão ao pódio para receberem suas medalhas de ouro. Mas, para os brasileiros, além do sonho virá a conta. Algo em torno de R$ 500 milhões, alerta (“A conta dos sonhos ficará no Brasil”).


quarta-feira, 13 de julho de 2016

A Maçonaria em Israel e suas raízes judaicas


MASONERIA EN TIERRA SANTA
Donde judios, árabes y cristianos son hermanos

Un Reportaje al M:.R:.H:. León Zeldis por la periodista Sheila Sacks, Brasil
Traducción del portugués: José Schlosser
( 2010) 

Monumento em Eilat
Viviendo en Israel desde hace cincuenta años, León Zeldis, Cónsul Honorario de Chile en Tel Aviv, ha ocupado los más altos cargos en la Masonería israelí. Señala que no existe ningún impedimento entre el judaísmo y la masonería. Además, rabinos y jazanim (oficiantes en las sinagogas) pertenecen a la Orden, y en la ciudad de Eilat, al sur de país, en la frontera con Egipto, una logia llegó a trabajar en un salón de una Yeshivá (escuela religiosa para la formación de los rabinos). "La Masonería israelí es un ejemplo de convivencia y tolerancia", dijo Zeldis. "Lo que demuestra que pueden convivir, judios, árabes y cristianos, como hermanos."

Reportagem completa nos links:






A face judaica-templária da maçonaria

Por Sheila Sacks
(2011)

Provavelmente, quando os primeiros templários chegaram a Terra Santa comandados por Hugues de Payen, em 1118, quase duas décadas após a conquista de Jerusalém pelos Cruzados (1099), o objetivo real de sua presença não ficaria apenas circunscrito a dar proteção aos peregrinos que se deslocassem a Jerusalém. O grupo de nove nobres franceses oriundos da região de Provença que se estabeleceu na ala leste do palácio do rei Balduíno II, patriarca de Jerusalém, sob o nome de Ordem dos Pobres Cavaleiros do Templo de Salomão, passou quase dez anos promovendo escavações na área da Mesquista de Al-Aqsa, erguida sobre o local onde existiram dois grandes templos judaicos: o primeiro Templo, construído em 960 antes da Era Comum pelo rei Salomão e destruído por Nabucodonosor, da Babilônia, em 586 a.E.C., e o segundo Templo, reconstruído cinquenta anos depois no mesmo local e que resistiu até 70 da E.C. quando foi arrasado pelas legiões romanas.

Texto completo no link:










quarta-feira, 29 de junho de 2016

Brasil tem recorde de assassinatos de ambientalistas

Um informe da organização não governamental Global Witness divulgado em 20 de junho aponta o Brasil como o pais mais perigoso para os ativistas ambientais com um saldo de 50 mortes ocorridas em 2015. A América Latina continua sendo a região onde mais se assassina ecologistas, com 122 mortes. O estudo avalia que 2015 foi o ano mais sangrento deste século, com um total de 185 mortes, 69 a mais que em 2014.

O jornal EL Pais repercutiu o tema analisando o relatório da ONG que concluiu que as principais causas dos conflitos que contribuíram para a morte dos ambientalistas foram a mineração (42), a agroindústria (20), o desmatamento (15), as hidrelétricas (15) e a caça ilegal (13). Cerca de 40% dos mortos são indígenas.

Na lista dos 16 países investigados, as Filipinas contabilizam 33 mortes, vindo em seguida a Colômbia (26), Peru (12) e Nicarágua (12). Segundo Felipe Sánchez, que assina a reportagem do El Pais, “a madeira ilegal do Brasil representa 25% dos mercados mundiais.” O jornalista cita o assassinato de Raimundo dos Santos Rodrigues, marido da ativista Maria da Conceição Chaves Lima, do Instituto Chico Mendes, que levou 12 tiros em uma emboscada no ano passado. O casal combatia o desmatamento na Amazônia e hoje ela vive longe da família e da comunidade em um programa de proteção a vítimas e testemunhas ameaçadas.

Monitorando desde 2010 os casos de violência contra ambientalistas, a Global Witness registrou nesses cinco anos 735 assassinatos, sendo 77% deles na América Latina. O Brasil é o recordista com 207 mortes, seguido por Honduras (109) e Colômbia (105). Os três países somam 56% de todos os crimes no período. A ONG, com sedes em Londres, Washington e Califórnia, atua em prol dos direitos humanos e ambientais, denunciando abusos e violações, apesar das dificuldades na obtenção de informações oficiais.

Crimes ambientais movimentam até 258 bilhões de dólares

Em outro relatório, esse publicado em 4 de junho pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) em parceria com a Interpol, apurou-se que os crimes ambientais em 2015 movimentaram de 98 a 258 bilhões de dólares, 26 % a mais do que 2014. Um crescimento alarmante para o secretário-geral da Interpol Jürgen Stock. Na última década, o crime ambiental tem subido de 5% a 7% ao ano, o que corresponde a duas a três vezes mais que a economia global.

O documento afirma que devido a legislações fracas e órgãos de segurança subfinanciados as redes criminosas internacionais e rebeldes armados estão lucrando com um comércio que provoca conflitos, devasta ecossistemas e ameaça espécies em extinção. O crime ambiental é o quarto maior negócio criminoso do mundo, depois do tráfico de drogas, falsificação e tráfico de seres humanos. Supera o comércio ilegal de armas de pequeno porte avaliado em cerca de 3 bilhões de dólares. O relatório especifica também os vários ilícitos ambientais praticados pelas organizações criminosas, entre eles o comércio ilegal de espécies, os crimes corporativos no setor florestal, a exploração e venda ilegal de ouro e outros minérios, a pesca ilegal, o tráfico de lixo tóxico e a fraude no crédito de carbono.


Em tempo: Enquanto a grande mídia e as redes sociais passaram ao largo do tema, a Agência Brasil, da Empresa Brasileira de Comunicação, reportou de forma exemplar o informe da Global Witness, em matéria assinada pela repórter Maiana Diniz.

Reportagens consultadas:

Brasil lidera ranking de mortes de ambientalistas em 2015, diz ONG (Agência Brasil, em 20.06.2016)

Assassinato de ecologistas bate recorde e Brasil é o país mais perigoso da região (El Pais, em 20.08.2016)

Valor movimentado por crimes ambientais sobe 26% em 2015, para até US$258 bi, diz PNUMA (ONU Brasil, em 07.06.2016),

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Terroristas usam caça-talentos para recrutar militantes

Por Sheila Sacks

publicado no "Observatório da Imprensa"

Em maio, uma reportagem da agência espanhola EFE, em sua edição portuguesa, revelou que um marroquino residente na Espanha e que trabalha normalmente há onze anos em uma empresa como caça- talentos, também se empenhava em recrutar possíveis terroristas jihadistas. Para o ministro de Interior, Jorge Fernando Díaz, a descoberta mostra uma mudança de perfil dos supostos aliciadores que necessariamente não precisam estar engajados à ideologia do islamismo radical (‘Espanha adverte de uma mudança no perfil no recrutador jihadista’, em 16.05.2016).

A possibilidade dos recrutadores serem cidadãos comuns, profissionais integrados na sociedade, um vizinho ou colega de trabalho, é mais um dado que assusta as autoridades e os serviços de Inteligência, principalmente os da Espanha. O país já convive com o nível 4 de alerta (alto risco de atentado terrorista, um grau abaixo do nível máximo), desde junho do ano passado, a partir dos atentados em Paris, Tunísia e Kuwait, ocorridos simultaneamente naquele mês, com mais de 60 mortos e 200 feridos (‘Ataques espalham medo e mortes em três continentes’, na BBC Brasil, em 26.06.2015).

O surgimento de novos perfis de recrutadores que não correspondem aos padrões convencionais de militantes da causa jihadista e a crescente rapidez no processo de aliciamento de jovens – inclusive de mulheres não muçulmanas para se juntar ao Estado Islâmico (Daesh) como escravas sexuais – já demandam a adoção de diferentes instrumentos para enfrentar tal realidade, como o registro aéreo de passageiros (Passanger Name Record – PNR). A medida foi aprovada pelo Parlamento Europeu em abril deste ano e obriga as empresas aéreas a repassar os dados dos passageiros que chegam e partem da Europa aos governos dos 27 países-membros da União Europeia. Essa regra também vale para os voos internos e deverá estar operacionalizada em dois anos.

Desde o ano passado, os órgãos de segurança da Espanha cumprindo o protocolo do nível 4 de alerta mantêm proteção especial nos aeroportos, nas principais estações de trens e metrô, nas centrais energéticas e em locais de maior concentração de pessoas. Desde então, foram realizadas 46 operações antiterroristas com mais de 130 detidos.

França vai investigar seus cidadãos

Em outra reportagem, a agência EFE informa que a França vai realizar investigações administrativas, provavelmente sigilosas, sobre cidadãos que ocupam cargos “sensíveis” em profissões regulamentadas para detectar a possível presença de sinais de radicalização ou de fundamentalismo islâmico. A iniciativa faz parte de um pacote de medidas para o combate ao terrorismo anunciado em maio pelo primeiro-ministro francês Manuel Valls. O governo também pretende criar uma rede de centros de reinserção para realizar o tratamento psicológico de jovens identificados com o radicalismo e suscetíveis ao jihadismo (‘França vai duplicar centros para tratar pessoas que se radicalizaram’, em 09.05.2016).

Segundo Valls, que acredita que haverá novos ataques na França, o mundo vive a “era do hiperterrorismo” e nos últimos três anos a segurança francesa conseguiu impedir a consecução de pelo menos 15 atentados no país. Em fevereiro, na 52ª edição da Conferência de Segurança de Munique, ele foi categórico: ”Vai haver ataques terroristas. Ataques em larga escala. É uma certeza.” O premiê francês também denunciou o que chamou de “pseudomessianismo religioso e o uso do terror em massa” como componentes explosivos do “hiperterrorismo que aí está” (Jornal de Notícias, em 13.02.2016).


quinta-feira, 12 de maio de 2016

Munique 1972, a Olimpíada que não terminou

Por Sheila Sacks
  “Eu fui enviado pela revista ‘Placar’ para contar histórias e o número de medalhas conquistadas pelos brasileiros. E, de repente, me vi contando o número de mortos.” (Michel Laurence, jornalista esportivo falecido em 2014)
Publicado no Observatório da Imprensa

Em outubro de 2016, encerrados os Jogos Olímpicos do Rio (de 5 a 21 de agosto), uma solenidade marcará o engajamento da Alemanha e do Comitê Olímpico Internacional (COI) ao projeto memorial que insere os 11 desportistas israelenses (cinco atletas e seis treinadores) assassinados durante a Olimpíada de Munique, em 1972, no panteão histórico dos mártires olímpicos. A construção de 2,3 milhões de dólares está sendo erguida entre a Vila Olímpica, local do atentado, e o estádio olímpico de Munique, e sua instalação contou com o apoio financeiro do governo alemão, do COI, da Confederação alemã de Esportes Olímpicos (DOSB, na sigla em alemão), da Fundação para o Desenvolvimento Global de Esportes (GSD, na sigla em inglês) e de outras organizações internacionais.
Passaram-se mais de quatro décadas para que o COI e seus dirigentes reconhecessem efetivamente o tamanho da tragédia que se abateu em Munique e o peso de seu legado em termos de responsabilidade moral e pública. Desde então, a mensagem é clara: aos governos de países que sediam os Jogos não é dada a possibilidade de falhar ou se omitir, sobretudo no quesito da segurança, sob pena de comprometer, de forma indelével, o ideal olímpico que anima milhares de atletas e visitantes nesse que é o maior espetáculo contemporâneo de confraternização entre povos e nações.
Por isso, entende-se a manifesta preocupação do diretor do Departamento de Contraterrorismo da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), Luiz Alberto Sallaberry, diante do aumento de brasileiros seguidores do Estado Islâmico (EI). Ele atribui o fato ao “mecanismo da internet” e “às facilidades migratórias do Brasil”. Em meados de abril, em uma Feira Internacional de Segurança Pública ocorrida no Rio de Janeiro, Sallaberry confirmou que a probabilidade do Brasil ser alvo de ataques terroristas foi elevada nos últimos meses e que medidas de segurança estão sendo tomadas visando às Olimpíadas. Sessenta e sete mil homens das Forças Armadas e da Polícia Federal estão destacados para o evento na cidade do Rio.

Terrorista é entrevistado em documentário
Muito antes do curta (29 minutos) “Munique 72 e Além” (Munich’72 and beyond), de 2015 – que irá integrar o acervo do Memorial de Munique -, dirigido pelo diretor de programas da TV americana, Stephen Crisman, e apresentado em abril deste ano no festival “É Tudo Verdade”, no Rio e São Paulo, outro documentário já abordava o sequestro e massacre dos atletas israelenses sob uma ótica jornalística mais investigativa. Produzido em 1999, “Um dia em setembro” (On Day in September), do escocês Kevin Macdonald, traz uma entrevista inédita com Jamal Al-Gashey, o único dos oito terroristas que provavelmente ainda continua vivo, escondido em algum lugar da Jordânia. Com o rosto encoberto, Al-Gashey diz: “Estou orgulhoso do que fiz em Munique porque ajudou bastante a causa palestina. Antes de Munique o mundo não tinha ideia de nossa luta. Mas naquele dia a palavra Palestina foi repetida em todo o mundo.” Os terroristas exigiam a libertação de 234 presos em Israel.
Premiado com o Oscar de melhor documentário de 2000, o filme reúne entrevistas com membros do Mossad, o serviço secreto de Israel, e com os parentes dos atletas mortos. Também apresenta depoimentos de funcionários do Comitê Olímpico e de policiais alemães diretamente envolvidos nas negociações com os terroristas. Na ocasião da premiação, Macdonald justificou de maneira contundente o motivo que o levou a realizar o filme: “De alguma forma o massacre de Munique foi uma transgressão inominável, a destruição de um ideal de paz e fraternidade”. Seu produtor, John Battsek, foi mais adiante: “A investigação para o documentário revelou uma história de mistério, conspiração, tragédia, inépcia e terror”.

Estima-se que 900 milhões de pessoas em mais de 100 países assistiram pela TV o ataque ao alojamento dos atletas, na Vila Olímpica, na madrugada de 5 de setembro de 1972, e o seu desenrolar trágico que durou 18 horas. Cinco dos oito integrantes do grupo terrorista Setembro Negro invadiram o quarto onde dormia a equipe israelense e assassinaram dois atletas no confronto inicial, sendo que o halterofilista Yossef Romano foi torturado e castrado. Os outros nove desportistas foram levados pelos terroristas como reféns para um aeroporto militar nos arredores de Munique e perderam a vida em uma tentativa fracassada de resgate conduzida pela polícia alemã. Um policial e cinco terroristas também morreram. Três terroristas foram detidos e em pouco menos de dois meses foram libertados em uma troca que envolveu o sequestro de um avião da Lufthansa.  
Para Steven Ungerleider, membro do Comitê Olímpico dos EUA e um dos produtores de “Munique 72 e Além”, o atentado de Munique “foi o primeiro ato de terror moderno e não se justifica que esse trauma horrendo seja relegado a uma simples notinha histórica de rodapé”.
Amigo de Hitler era presidente do Comitê Olímpico Internacional
Frente a tal enunciado, comecemos com a performace do Comitê Olímpico Internacional. A entidade era presidida, em 1972, pelo norte-americano Avery Brundage (1887-1975), o mesmo que na Olimpíada Nazista de Berlim, em 1936, havia rejeitado a proposta dos Estados Unidos de boicotarem a competição, em razão dos atletas judeus alemães estarem proibidos de participar. Brundage tinha sido presidente do Comitê Olímpico dos Estados Unidos, era um entusiasta do regime nazista e amigo de Hitler.
Nascido em Detroit, esse engenheiro e desportista que foi o único norte-americano a presidir o Comitê Olímpico Internacional, convenceu os seus compatriotas a participarem da competição em Berlim, e em troca, a sua empresa de engenharia recebeu um cheque em branco para construir a embaixada da Alemanha em Washington. Mais de três décadas depois, em uma dessas coincidências lamentáveis, esse mesmo Brundage, agora como presidente do COI, preferiu se calar sobre o assassinato dos atletas israelenses na cerimônia realizada no dia seguinte à tragédia. Em seu discurso apenas exaltou o espírito olímpico e anunciou que “os Jogos devem continuar”.
A Olimpíada de Munique teve a participação de mais de 7 mil atletas de 121 países e ocorreu entre os dias 26 de agosto e 11 de setembro de 1972.
Abu Mazen, da Autoridade Palestina, recolheu recursos para o massacre
Em 1999, uma autobiografia intitulada “Palestine: From Jerusalém to Munich” revelou novos detalhes do ataque à Vila Olímpica. Publicada na França, seu autor é Mohammed Oudeh, codinome Abu Daoud (falecido na Síria em 2010), ex-comandante militar do Fatah (grupo paramilitar criada por Yasser Arafat em 1959 e que atua como partido político, desde 1994, na Cisjordânia) e mentor intelectual confesso da ação terrorista. No livro ele admite que o Setembro Negro era o nome-fantasia adotado pelos membros do Fatah que atuou como o braço armado da OLP (Organização para a Libertação da Palestina, criada em 1964) quando dos ataques terroristas. Daound também descreve como Arafat e o atual presidente da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas (Abu Mazen) - o homem encarregado de levantar os recursos para viabilizar a operação – desejaram-lhe boa sorte e o beijaram no momento em que ele finalizou os preparativos para o ataque, que vitimou um total de 17 pessoas.
Sobre Mahmoud Abbas, vale reproduzir um item de seu histórico escolar: em 1982, dez anos depois do atentado de Munique, ele concluiu seus estudos na Universidade de Moscou, obtendo o título de PhD em História Oriental. A tese de seu doutorado questiona e nega os números do Holocausto e inclui uma suposta aliança entre nazistas e líderes sionistas durante a 2ª Grande Guerra para exterminar todos os judeus da Europa. A fantasia mal intencionada travestida de investigação histórica intitula-se “O Outro Lado: As secretas relações entre o Nazismo e o Movimento Sionista”.
Ainda acerca do líder palestino, em 2003, a organização israelense de direitos humanos “Shurat Hadin Israel Law Center” - que dá assistência jurídica aos judeus vítimas de atos terroristas e os representa nos fóruns internacionais - enviou cartas ao então presidente George Bush e ao Chanceler Gerhard Schroeder, conclamando as autoridades americanas e alemãs a abrirem uma investigação em seus territórios contra Mahmoud Abbas por suas comprovadas ligações com o Setembro Negro, principalmente na função de recolhedor de fundos para prover atos terroristas, como o de Munique. A ação teria consistência jurídica já que um dos atletas assassinados também tinha cidadania americana e um dos mortos era um policial alemão.
Mais recente, em 2014, o movimento estudantil “Students for Israel Movement” encaminhou uma carta ao ministro da Defesa israelense para que o governo reconheça a participação do presidente da Autoridade Palestina no massacre de Munique. O representante dos estudantes, Elyahu Nissim, considera que o estado de Israel tem o dever moral de declarar oficialmente que Abbas exerceu um papel fundamental na ação terrorista e responsabilizá-lo pelas mortes.
Terroristas se abrigavam no centro islâmico de Munique 
Em um longo artigo no “Wall Street Jornal”, em 2005, o jornalista e escritor americano Ian Jonhson, após consultas em arquivos oficias nos Estados Unidos, Inglaterra, Suíça e Alemanha, revelou que a cidade de Munique, há várias décadas, era o centro irradiador de uma organização radical denominada Irmandade Muçulmana (Muslim Brotherhood), fundada no Egito em 1928 e banida de seu território em 1954 por Gamal Abdel Nasser (que presidiu o país de 1956 a 1970), pivô de uma tentativa de assassinato mal sucedida. O grupo retornou à legalidade em 2011, após a queda do presidente Hosni Mubarak.
Repórter premiado com o Pulitzer e autor da obra “A Mosque in Munich” (2010), Jonhson usou as pesquisas realizadas para a reportagem “How a Mosque for Ex-Nazis became Center of Radical Islam” (De que maneira uma mesquita para ex-nazistas tornou-se centro do islamismo radical, em tradução livre) como ponto de partida para o desenvolvimento de seu livro. O interesse pelo tema surgiu acidentalmente quando ao entrar em uma livraria em Londres, em 2003, folheou um livro sobre as mais importantes mesquitas do mundo. Ao lado dos templos islâmicos de Meca, Jerusalém e Istambul, aparecia curiosamente o de Munique (na tradução alemã, o livro ganhou o título de ‘A quarta mesquita’).
Jonhson observa que muitos dos acusados de atos terroristas na Europa e nos ataques de 11 de setembro nos Estados Unidos, em algum período de suas vidas transitaram por Munique e pelo seu centro islâmico. Essa intimidade entre a cidade alemã e os muçulmanos, segundo Jonhson, começou à época de Hitler, depois da invasão à União Soviética, quando o regime nazista deu uma guinada das mais espertas transformando um milhão de soldados muçulmanos dos países da Cortina de Ferro, aprisionados em combate, em aliados e amigos do Reich. Inclusive uma dessas brigadas formada por muçulmanos foi destacada para a Polônia, onde teve participação ativa na aniquilação do Gueto de Varsóvia, em 1943.
Depois da guerra, esses combatentes nazistas se instalaram em Munique e acolheram a organização Irmandade Muçulmana de braços abertos, sendo responsáveis pela fundação, em 1958, do Centro Islâmico de Munique. Um ano depois, participantes do Congresso Muçulmano Europeu selaram o pacto de tornar a capital da Baviera um polo de convergência para todos os muçulmanos residentes na Europa. Um dos cléricos mais atuantes do Centro Islâmico de Munique foi Nurredin N. Nammangani, nascido no Uzbakistão e que serviu nas fileiras de Hitler, mais especificamente na temida tropa nazista SS (Schutzstaffel). Durante décadas (faleceu na Turquia em 2002) ele mesclou a religião com antissemitismo em suas prédicas aos milhares de colegiais e universitários muçulmanos de várias partes da Europa. 
Islamismo antissemita tem origens nazistas
Nessa mesma linha de pensamento, o historiador alemão Stefan Meining afirma que o Centro Islâmico de Munique está na base de uma ampla rede que se ramificou silenciosamente pelo resto do mundo, a partir do fim da 2ª Grande Guerra, difundindo um radicalismo a favor da “guerra santa”, que simplesmente não existia antes disso. O encontro da teoria nazista com o fundamentalismo religioso da Irmandade Muçulmana foi o responsável pelo nascimento da figura híbrida e aterradora do terrorismo moderno, uma das grandes tormentas que o mundo ocidental tem enfrentado. “Se você quer entender a estrutura política do Islã, você tem que se debruçar sobre o que aconteceu em Munique”, alerta o historiador. Meining é autor do livro “Eine Moschee in Deutschland” (Uma mesquita na Alemanha), que faz uma ponte entre os nazistas e a ascensão do islamismo político no Ocidente.
Outro estudioso alemão, o cientista político e professor universitário Matthias Kuntzel, também relaciona a Irmandade Muçulmana com as ideologias extremistas da jihad (guerra santa) dos grupos Fatah, Hamas, Hezbollah, al-Qaeda e do atual Estado Islâmico (EI). No ensaio “Islamic Antisemitism and its Nazi Roots” (O Islamismo antissemita e as suas origens nazistas), Kuntzel destaca que até 1930 a ideologia islâmica tradicional não pregava o ódio aos judeus e nem falava em guerra santa. Posteriormente, a doutrina absorveu o marketing da propaganda nazista e antissemita europeia e recebeu o apoio financeiro e estratégico de Hitler, que financiou as lideranças islâmicas ligadas à Irmandade Muçulmana a promoverem atos de perseguição e violência contra os judeus no Egito e na Palestina sob o Mandato Britânico. Kuntzel reuniu suas pesquisas no livro “Jihad and Jew-Hatred: Islamism, Nazism and the Roots of 9/11” (Jihad e o ódio aos judeus: o islamismo, o nazismo e as raízes do 9/11), publicado originalmente em alemão, em 2002, e traduzido para o inglês em 2007.
Vivendo na cidade portuária de Hamburgo, Kuntzel tinha 17 anos quando aconteceu o ataque terrorista em Munique. Ele conta que este foi um fato que o marcou de tal forma que o obrigou a procurar uma explicação. “Eu era um jovem idealista e queria acreditar no lado bom das pessoas e não entendia como poderia acontecer um massacre daquele em uma Olimpíada.”
Minuto de silêncio negado por quatro décadas
De Munique à Rio-2016, lá se vão mais de 40 anos e dez Jogos nas cidades-sede de Montreal (1976), Moscou (1980), Los Angeles (1984), Seul (1988), Barcelona (1992), Atlanta (1996), Sydney (2000), Atenas (2004), Pequim (2008) e Londres (2012). Durante esse tempo, pedidos foram feitos por familiares dos atletas israelenses para que o COI promovesse um minuto de silêncio na abertura ou no encerramento de uma das Olimpíadas para lembrar as vítimas. Porém, a alegação de que esse tipo de homenagem poderia abalar os atletas ou provocar constrangimento às delegações dos países árabes pontuou as negativas sucessivas emitidas pelo COI.

Mas, para a Olimpíada do Rio – que vai receber 10.500 atletas de 206 países e será vista por mais de 3 bilhões de espectadores ao redor do mundo -  o atual presidente do COI, o alemão e ex-esgrimista olímpico Thomas Bach, parece ter encontrado uma solução diplomática. Ele anunciou que haverá um minuto de silêncio na solenidade de encerramento dos Jogos, “para permitir que todos no estádio, bem como aqueles que estão assistindo em casa, lembrem dos entes queridos que já faleceram.” Antes, no dia 14, em parceria com o Comitê Rio-2016, o COI finalmente irá homenagear os 11 atletas mortos em uma cerimônia na Vila Olímpica da Barra da Tijuca, sinalizando um considerável diferencial de humanismo, generosidade, tolerância e boa vontade que já distingue a Rio-2016 antes mesmo de seu início, das demais Olimpíadas, e em especial da de Munique com a sua terrível história de fanatismo e barbárie.

terça-feira, 5 de abril de 2016

A matemática da esperança



Professor usa tempo livre para ensinar matemática ao pessoal da limpeza da universidade

Por Sheila Sacks

O jornal espanhol La Vanguardia, de Barcelona, abriu espaço para contar uma história pouco comum nos dias atuais e que acontece na Universidade Bar Ilan, em Ramat Gan, perto de Tel Aviv: um catedrático de matemática pura, Shai Gol, de 38 anos, ministra aulas gratuitas para um grupo de faxineiras, a maioria de jovens mulheres árabes, que trabalha na limpeza do complexo universitário. As aulas acontecem duas vezes por semana, no horário do lanche matinal.

A iniciativa pessoal do professor transpôs os limites do campus da universidade, uma das mais prestigiadas de Israel, e chegou aos ouvidos do jornalista Henrique Cymerman Benarroch, correspondente do La Vanguardia na terra santa.  Na reportagem publicada no início de 2016 – “Robin Hood en la universidad” -, o professor Gol explica que sempre observava as mulheres, de origem muito humilde, com o tradicional hijab (véu) cobrindo a cabeça, muitas delas oriundas de Jishr az-Zarga ( um povoado árabe no norte do país), no seu afã diário rodeadas de produtos de limpeza.  Ele explica que o alojamento delas fica em frente à biblioteca onde costuma despender horas pesquisando e estudando. “Um dia decidi que não podia mais ignorá-las”, conta o professor.

Duas alunas de Gol, uma árabe israelense, Arifa Amassh, e outra judia israelense, Jemda Jubran, revelaram que inicialmente não levaram a sério a proposta do professor. Tanto assim que recusaram a oferta, na primeira tentativa de aproximação. Depois, com a insistência de Gol e o interesse manifesto de outras colegas, o curso de matemática foi instalado com a participação de alguns homens que também executam serviços de limpeza.

Universitários apoiam
  
Apesar da imensa vontade de ajudar essas mulheres pouco capacitadas, devido basicamente a sua precária condição social, o professor Gol teve receio de que seu gesto não fosse bem aceito pela direção da universidade. Isso porque elas residem em locais distantes, acordam muito cedo, iniciam o serviço às 4 da manhã, e muitas fazem jornadas diárias de até 12 horas (recebem 7 euros por hora, cerca de 28 reais). Com as aulas ocorrendo no período do lanche, às 9 horas da manhã, quando as empregadas têm a oportunidade de comer e descansar, a ideia do curso poderia sofrer restrições.

Entretanto, o professor virou herói para os universitários e para a própria turma da limpeza que jamais havia sonhado em receber aulas de um catedrático. Muitas alunas somente agora começam a aprender a fazer contas e ter noções de economia básica. “Elas estão sedentas por aprender, diz o professor. Mais até que os meus alunos universitários. Às vezes, antes da aula começar, elas abrem os cadernos e repassam a matéria ensinada na aula anterior”, elogia.

Atentados não interrompem aulas

Para Arifa, que levou o marido para conhecer o professor, as aulas são como “um presente bonito que recebeu”, pois atualmente quando vai ao supermercado já sabe calcular o que vai gastar. Com 28 anos e mãe de cinco filhos, ela somente nesse estágio da vida está tendo a oportunidade de estudar. Mesmo com o clima de desconfiança que atinge os judeus israelenses diante da onda de ataques à faca praticados por extremistas árabes, desde outubro de 2015, Gol não desiste de sua tarefa. Quando percebeu que parte das empregadas árabes se ausentou das aulas em razão dessa situação de violência nas ruas, ele as procurou por todo o campus e as convenceu de continuarem participando das aulas normalmente, sem constrangimento.

Outras empregadas, temerosas pelo clima de beligerância, simplesmente deixaram de ir ao trabalho. O professor israelense não se amedrontou e foi até a aldeia de Jishr az-Zarga para dar aulas as suas alunas. Ele afirma que o seu objetivo ao ensinar voluntariamente ao grupo é mostrar que o trabalho de limpeza não precisa ser o destino final de suas vidas.


A história de Shai Gol foi mostrada na TV israelense, em dezembro do ano passado, e atualmente ele estendeu as aulas ao pessoal da limpeza do Hospital Tel Hashomer, que fica perto da universidade. Para isso, ele recebe a ajuda valiosa de estudantes universitários da carreira de matemática que aderiram à iniciativa. É o que revela a jornalista Deborah Danan para o site americano de notícias “Breitbart”, na reportagem “Jewish Educator Volunteers to Teach Math to Arab Cleaners at Israeli University” (Voluntários do professor judeu ensinam matemática para as faxineiras árabes em universidade israelense, em tradução livre) que acrescenta novos detalhes sobre a evolução do trabalho solidário do professor Gol.

Publicado no Observatório da Imprensa, sob o título "Robin Hood acadêmico" 


sábado, 12 de março de 2016

Um repórter no gueto de Varsóvia

Por Sheila Sacks

“Não há melhores testemunhas da História do que o jornalista” (José Rodrigues dos Santos, jornalista e escritor português, autor de ‘Crônicas de Guerra: da Crimeia a Dachau’)

publicado pelo Observatório da Imprensa

Quando o jornalista e escritor italiano Curzio Malaparte deu a partida para pôr no papel as suas crônicas pessoais sobre a guerra no velho continente, a Alemanha nazista lançava-se com um apetite voraz à ofensiva sanguinária sobre o território soviético, o mais cobiçado e suculento filé do front oriental. Naquele terrível verão europeu, em junho de 1941, Kurt Erich Suckert – nome de batismo de Malaparte – era correspondente na Ucrânia do jornal italiano Corriere della Sera, e ostentava o salvo-conduto da temida cruz gamada que o autorizava a transitar entre as barbaridades levadas a efeito pelas tropas germânicas em sua perversa escalada de conquista e extermínio.

Envergando a farda de oficial italiano, Malaparte cobriu os combates das forças do Eixo (formadas pela Alemanha, Japão e Itália) nas frentes da Rússia, Polônia e Finlândia, misturando-se a soldados, prisioneiros e guerrilheiros em cidades e aldeias arrasadas pelos canhões e bombardeios. Transitou pelas ruas do gueto de Varsóvia, apinhadas de gente faminta e amedrontada e presenciou o massacre na cidade de Iasi (Jassy), na Romênia, onde em dois dias foram mortos mais de 8 mil judeus.

As anotações secretas sobre o pesadelo nazista que o autor ocultou, por várias vezes e em diferentes locais - no forro de seu casaco, na fenda de um rochedo perto de sua casa na Ilha de Capri, com amigos diplomatas, e até em um chiqueiro de uma aldeia ucraniana - transformaram-se na obra intitulada “Kaputt” (quebrado, em alemão), o seu livro mais festejado, publicado em 1944 e traduzido em mais de dez idiomas. Nas suas 500 páginas ficou retratado, de forma admirável e espantosa, o poder de alcance da maldade, da impiedade e da infâmia, a abominável trindade que contaminou a Europa como um vírus devastador, metamorfoseando a condição humana em um festival de horrores e de degradação que nenhuma fantasia futurista imaginaria criar.

Longe de ser tragado pelo ralo do tempo, o livro tem inspirado intelectuais e artistas pelo impacto de suas imagens e diálogos impensáveis. Em 2008, um episódio de “Kaputt” que narra a busca do autor pelo médico judeu Josef Gruber serviu de tema para o filme “Gruber’s Journey”, do cineasta romeno Radu Gabrea. Em 2013, o pintor e escultor italiano Maurizio Cattelan montou uma instalação que deu o nome de “Kaputt”, a partir de sua visão do capítulo “Os cavalos de gelo”. A mostra foi apresentada na “Fondation Beyeler”, na Suiça. Mais recente, em 2014, o ilustrador e quadrinista gaúcho, Eloar Guazzelli Filho, mestre em Comunicação pela USP, adaptou a obra para a arte sequencial da HQ (História em quadrinhos), conservando o seu título original.

Cidade proibida

Italiano da Toscana, Malaparte (1898-1957) lutou na 1ª Grande Guerra (chegou ao posto de capitão e recebeu condecorações de bravura) e na década de 1920 filiou-se ao Partido Nacional Fascista, de Benetido Mussolini. Foi diplomata e fundou o jornal La Conquista dello Stato. Em 1931, com a publicação de seu livro “Tecnica del colpo di Stato”, que ataca Adolf Hitler e o próprio Mussolini, é expulso do partido e condenado ao exílio na ilha de Lipari, de 1933 a 1938. Com a eclosão da 2ª Grande Guerra, ele se engaja no conflito como correspondente do Corriere della Sera e devido as suas reportagens é afastado da frente ucraniana pela Gestapo (polícia secreta nazista), sofrendo sucessivas prisões na Itália. Mas, a amizade que mantém com diplomatas, a aristocracia europeia e principalmente com o Conde Ciano, genro de Mussolini, o favorece em várias situações.

Malaparte esteve no gueto de Varsóvia em janeiro de 1942, depois de conhecer os guetos de Cracóvia, Lublin e Czenstochowa. Na época, o gueto abrigava em torno de 380 mil pessoas amontoadas em um espaço de pouco mais de 3 quilômetros quadrados, equivalentes a 2,4% da área da cidade (seis meses depois iniciou-se a deportação da maior parte da população – mais de 300 mil -  para o campo de extermínio de Treblinka).

Ele conta que a “cidade proibida” (assim chamada pelos nazistas) era circundada por um muro alto de tijolos vermelhos, “construído pelos alemães para fechar o gueto como uma gaiola”. Na porta, vigiada por uma escolta de soldados armados da SS (Schutzstaffel - organização paramilitar nazista), estava afixado um edital instituindo a pena de morte para qualquer judeu que tentasse fugir. Apesar da vontade do jornalista de percorrer o gueto sozinho, o governador alemão de Varsóvia, Ludwing Fisher (executado em uma prisão da Polônia, em 1947) deu ordem expressa para que um militar o seguisse “como uma sombra”. “Também daquela vez”, escreve Malaparte, “eu tivera de resignar-me à companhia do Guarda Negro, um jovem alto, de rosto descarnado, de olhar claro e frio”.

Miséria e medo

O silêncio com que se depara nas ruas do gueto o surpreende. Ele se fixa nos olhos das pessoas onde vê fome, desespero, medo e “a sombra azul da morte.” Quanto às crianças, confessa: “Os olhos das crianças eram terríveis, eu não podia encará-los.” Observando o dia a dia do gueto ele reporta: “Nos cruzamentos das ruas viam-se pares de policiais judeus, com a estrela de David estampada em letra vermelha na braçadeira amarela, imóveis e impassíveis no meio do incessante tráfego de trenós arrastados por grupos de rapazes, de carrinhos de crianças, de carrocinhas de mão, atulhadas de móveis, de montes de andrajos, de ferro-velho e toda a sorte de miseráveis objetos.”

O tempo gélido fazia com que grupos de pessoas se reunissem nas esquinas, batendo os pés na neve, abraçadas, “aos dez, aos vinte, aos trinta, para darem uns aos outros um pouco de calor”. O frio era tanto que “esquálidos e pequenos cafés da rua Nalevski, da rua Przyrynek, da rua Zskroczymska, abundavam de velhos barbados, comprimidos uns contra os outros, em pé, em silêncio, talvez para se aquecerem ou se animarem mutuamente, a exemplo dos animais”.

Seguindo em seu passeio lúgubre, Malaparte topa em uma esquina com duas mulheres jovens se engalfinhando por uma batata. “Elas brigavam entre si, arrancando os cabelos e dilacerando o rosto uma à outra, em silêncio e em meio a uma pequena multidão taciturna.” O jornalista conta que “uma delas pega a batata crua do chão e vai embora, enquanto a outra enxuga com as costas da mão o sangue que lhe manchava o rosto”. Malaparte percebe a roupa em farrapos da jovem e nota o seu olhar “de fome, de pudor, de vergonha”. E se espanta: “De repente, sorriu-me. E eu corei”, confessa.

O jornalista relata que a sua presença ao lado de um guarda da Gestapo desperta a curiosidade e o medo na multidão de “rostos barbudos, afogueados pelo frio, pela febre e pela fome”. Nas ruas do gueto ele se viu forçado a saltar, de espaço em espaço, por cima de cadáveres, já que “os mortos jaziam abandonados na neve, entre candelabros hebraicos apagados, à espera das carroças dos coveiros”. Os mortos “estavam com a barba suja de neve e lama. Alguns tinham os olhos abertos, estavam hirtos e duros, semelhavam os judeus mortos de Chagall. A mortandade era grande, afirma Malaparte, e “os mortos permaneciam dias a fio estendidos nas entradas das casas, nos corredores, nos patamares das escadas ou sobre as camas nos quartos apinhados de gente pálida e silenciosa”.

Malaparte relata que os mortos eram recolhidos nas ruas e nas casas por grupos de jovens estudantes deportados da Alemanha, Áustria, Bélgica, França, Holanda e Romênia. “Eram jovens intelectuais educados nas melhores universidades da Europa. Falavam francês, romeno e alemão. Entretanto, agora se apresentavam andrajosos, famintos, devorados pelos insetos e ainda doloridos das pancadas recebidas, dos insultos, dos sofrimentos padecidos nos campos de concentração e na terrível odisseia que os trouxera de Viena, Berlim, Munique, Paris, Praga e Bucareste até o gueto de Varsóvia.”

Enterrando os mortos

Impressionado com os jovens coveiros, Malaparte escreve: “Eu me detinha a observá-los no seu piedoso trabalho. Tinham no rosto uma luz belíssima, nos olhos, uma juvenil vontade de se ajudarem mutuamente, de socorrer a imensa miséria do seu povo. Eles levantavam os mortos com delicadeza e os colocavam nas carroças puxadas por outros jovens andrajosos e macilentos.”

Dias antes, nos guetos de Cracóvia e Czenstochowa, ele tivera uma estranha experiência com outros jovens judeus que, ao vê-lo uniformizado e ao lado de um guarda nazista, foram ao seu encontro demonstrando um misterioso ar de felicidade. “Parecia que a angústia da espera tinha chegado ao fim e que acolhiam aquele instante, até então temido, como uma libertação.”

O jornalista conta que ao explicar que não era agente da Gestapo e nem sequer alemão, notou que a desilusão e a angústia tomaram conta de seus rostos. “Um deles”, lembra, “já tinha tirado o xale imundo e colocado nos ombros de uma senhora”, um gesto de adeus que se repetia entre os judeus quando a polícia ia buscá-los. “Ele estava lendo, em um canto da sala, quando eu apareci à porta da casa”, relata o autor. “Levantou-se de chofre, abotoou os sapatos, endireitou os trapos sujos que lhe serviam de meias, procurou o colarinho da camisa esfarrapada debaixo da gola do paletó. Tossia, cobrindo a boca com a mísera mão.”

Sem Utilidade

Desfazer-se das roupas e distribuí-las a parentes e amigos quando a Gestapo batia à porta era quase uma rotina entre os moradores dos guetos. Malaparte recorda que viu dois judeus completamente nus, um deles um rapazote de 16 anos, caminhando sobre a neve em uma manhã glacial de inverno. Ladeados por milicianos armados da SS, eles enfrentavam um frio cortante de 35 graus abaixo de zero. Sobre essa cena incrível, narrada pelo escritor ao governador da Cracóvia, Otto Wächter (morto de causa ignorada em 1949, em Roma, de onde tentava fugir para a América do Sul), este justificou “amavelmente” a situação, explicando que os judeus se despiam porque, para eles, as roupas já não tinham utilidade.

Em outra oportunidade, convidado para um jantar de gala em homenagem ao general-governador da Polônia, Hans Frank (condenado pelo Tribunal de Nuremberg e enforcado em 16 de outubro de 1946), o jornalista se viu envolvido em um animado bate-papo sobre o gueto de Varsóvia. Era um banquete dedicado à figura mitológica de Diana caçadora, e a cúpula nazista compareceu em peso. O local era o palácio Bruhl, antiga sede do Ministério das Relações Exteriores da Polônia transformado no QG do governo alemão de Varsóvia.  No cardápio iguarias como faisões, lebres e um gamo das florestas de Radziwilow, trazido por dois criados de libré azul. “Em seu dorso estava cravada uma rubra bandeirinha hitleriana com a negra cruz gamada.”

Para a sua surpresa, Malaparte foi o primeiro a ser servido pela “virtude” de ter nascido italiano. Presente à mesa, o governador de Varsóvia, Ludwig Fischer, escorria com a colher um molho dourado sobre as fatias de carne e detalhava como eram sepultados os judeus no gueto: ”Uma camada de cadáveres e uma camada de cal”, explicava, como se dissesse “uma fatia de carne e uma camada de molho”.

 Modelo de eficiência

Saboreando um charuto após o jantar, o autor lembra que um dos convidados ofereceu-lhe, em um cálice de cristal, “a tradicional bebida dos caçadores alemães, o turkischblutou, ‘sangue de turco’, uma mistura do rubro vinho de Borgonha - um Volnay denso e tépido - com o pálido champagne de Mumm”. Ao seu lado, o “general-gouverneur Frank” elogiava a organização imposta ao gueto de Varsóvia, considerando-a um “verdadeiro modelo para toda a Polônia”.


Por sua vez o governador de Varsóvia, Fischer, discursava sobre a eficiência de seu trabalho, assinalando, “com ar de modéstia” que o espaço exíguo do gueto havia atrapalhado o planejamento. “Não é minha culpa se (os judeus) ficam muito apertados”, justificava. “Um pouco mais de espaço e eu teria talvez podido tornar as coisas bem melhor.” Observação refutada por outro participante da festa, Emil Gassner, político alemão e um dos fundadores do partido nazista (NSDAO, na sigla em alemão), que ironiza a situação: “Os judeus gostam de viver assim, diz rindo.”

Por horas a conversa prossegue, segundo Malaparte, no “calor aconchegante” de uma sala contígua ao salão de banquetes, até que a certa altura o homenageado se volta para o jornalista e exclama: “Se déssemos crédito aos jornais ingleses e americanos, diríamos que os alemães não fazem outra coisa se não matar judeus, de manhã à noite.” Logo em seguida, “erguendo o cálice da Boêmia cheio de turkischblut”, o senhor da Polônia diz com firmeza: ”Você esta na Polônia há mais de um mês e não pode dizer que viu um só alemão tocar a ponta do cabelo de um judeu. “Os progroms são uma lenda”, afirma Frank. “Beba, sem medo, mein liber (meu caro) Malaparte. Este não é sangue de judeus. Prosit (Saúde)!”

Pogrom em Jassy

Os diálogos surrealistas daquela elite cruel e cínica eram anotados mentalmente por Malaparte em sua trajetória de repórter de uma civilização decadente e amoral. Enquanto os homens de Hitler discorriam sobre judeus e guetos na saleta atapetada cheirando a conhaque e tabaco, e suas mulheres – as fraus– “tricotavam ao pé do fogo de lenha de carvalho que crepitava na lareira”, a realidade nas gélidas ruas do gueto de Varsóvia não comportava eufemismos. Lá, escreve o autor, “bandos de cães ossudos farejavam o ar atrás dos fúnebres comboios, e tropeis de meninos maltrapilhos, trazendo no semblante os sinais da fome, da insônia e do medo, recolhiam na neve os trapos, os pedaços de papel, as latas vazias, as cascas de batatas e todos aqueles preciosos rebotalhos que a miséria, a fome e a morte sempre deixam atrás de si”.

Com o copo de vinho na mão, Malaparte sente-se desafiado a contar o que viu na cidade de Jassy, capital do antigo principado da Moldávia, em fins de junho de 1941, nos primeiros dias da guerra da Alemanha nazista contra a Rússia soviética. A Romênia era aliada da Alemanha e o jornalista estando na cidade para acompanhar a guerra no front, foi procurado por alguns judeus que denunciaram a preparação de uma ação violenta, um “pogrom” (palavra russa que significa causar estragos, destruir) por parte das autoridades do governo romeno contra a comunidade judaica.

Dias depois, a chacina realmente acontece e após uma noite de muita confusão, sirenes, “matraquear de metralhadoras e gritos”, Malaparte recorda o que viu: “Fui à janela, olhei para a Strada Lapusneanu. A rua estava coberta de formas humanas abandonadas em gestos desordenados. Mortos empilhados uns sobre os outros juncavam as calçadas. Algumas centenas de cadáveres amontoavam-se no meio do cemitério. Caminhões alemães e romenos passavam carregados de cadáveres.”

Saindo à rua, Malaparte presencia um espetáculo de horror. “Turmas de soldados e de policiais, grupos de mulheres do povo, bando de ciganos, em alegre burburinho, iam despojando os cadáveres, erguendo-os, virando-os ora de bruços, ora para um lado, ora para outro, para tirar-lhe os paletós, as calças, as cuecas, firmando-lhes os pés na barriga para arrancar-lhes os sapatos. Era um vaivém jovial, um mercado e ao mesmo tempo uma festa. Os mortos nus jaziam abandonados em posições atrozes.” (O massacre de Iasi, que durou vários dias, matou mais de 13 mil judeus. O marechal Ion Antonescu e seu vice Mihai Antonescu acusados de ordenar a matança foram fuzilados em 1 de julho de 1946. O comandante da guarnição de Iasi, coronel Constantin Lupu, foi condenado à prisão perpétua.)

Um rato no muro

O relato do jornalista sobre o massacre na Romênia não parece impressionar o grupo de comandantes nazistas. Sacudindo a cabeça em desaprovação, o governador de Varsóvia intervém: “Não, não é assim que se faz”, diz Fischer. “A Alemanha é um país de civilização superior e repugnam-lhe certos métodos bárbaros”, enfatiza Frank. “Matar judeus não é do estilo alemão. É uma tarefa estúpida, um desperdício inútil de tempo e de energias. Nós os deportamos para a Polônia e os encerramos nos guetos. Lá dentro têm liberdade para fazer o que querem. Nos guetos das cidades polacas, os judeus vivem como numa livre república.”

Todos brindam e riem. Erguendo a taça de champanhe em sinal de concordância, Hans Frank se aproxima de Malaparte e demonstrando uma inusitada cordialidade, discursa: “Não somos um povo de assassinos, mein líber. Quando voltar para a Itália, espero que conte o que viu na Polônia. Seu dever de homem honesto e imparcial é dizer a verdade.”

Semanas depois, em um almoço em homenagem ao pugilista Max Schmeling (boxeador alemão, campeão mundial de pesos pesados em 1930 e paraquedista da força aérea alemã na 2ª Grande Guerra), Malaparte se encontra novamente com o homem-forte da Polônia. Hans Frank sugere um passeio pelo gueto. Após o almoço, Malaparte e os outros convidados seguem em carreata até a entrada da “cidade proibida” e descem dos carros em frente à entrada do alto muro de tijolos vermelhos.

Frank explica à plateia que apesar da punição de pena de morte para os judeus que tentam sair do gueto, muitos deles cavam buracos à noite na base do muro e escapam para comprar comida e roupas na cidade. “O tráfego do mercado negro no gueto se faz em grande parte através desses buracos”, diz em tom professoral. “Durante o dia eles tapam os buracos com um pouco de terra e folhas. Arriscam a vida com verdadeiro espírito desportivo”, ironiza.

De repente, um soldado se ajoelha, aponta o fuzil para o buraco no muro, faz pontaria e atira. “Um rato”, ele brada. Malaparte percebe que há um alvoroço nervoso entre as convidadas. “As damas riam e soltavam gritinhos, arregaçando a saia até o joelho”, diante da possibilidade da aparição do bichano. Mas, para surpresa geral, do buraco emerge a cabeça de uma criança, com os cabelos pretos despenteados e as mãozinhas pousadas na neve. Era um menino, e de acordo com o jornalista, o general Hans Frank repreende o soldado por ter errado o alvo, pega o fuzil e ele mesmo faz o disparo. “Todo jogo tem suas regras”, adverte o nazista para Malaparte.

Um ano depois, na primavera de 1943, o gueto é destruído após uma rebelião que dura quatro semanas (o Levante do gueto de Varsóvia, de 19 de abril a 16 de maio). Os 56 mil judeus remanescentes são enviados para os campos de morte de Treblinka e Majdanek e os poucos combatentes que conseguem escapar se unem aos grupos guerrilheiros que lutam contra os nazistas nas florestas ao redor de Varsóvia.

Nesse mesmo ano, em setembro, na casa de Punta Masullo, na ilha de Capri, Malaparte dá o ponto final em seu manuscrito. “E saiba-se que prefiro esta Europa Kaputt - quebrada, acabada, que se fez em pedaços, que foi à breca - à Europa de ontem e à de há vinte, de há trinta anos. Prefiro que tudo esteja por refazer a ter de aceitar tudo como herança imutável”, escreve o jornalista. “Que os tempos novos sejam, por conseguinte, tempos de liberdade e respeito, para todos, inclusive para os escritores, pois a literatura necessita de respeito tanto quanto de liberdade.”

Um nome nas estrelas

De mãe italiana e pai alemão, Malaparte adotou o pseudônimo literário em 1925. Segundo ele, uma brincadeira com o nome do conquistador Napoleão Bonaparte. Aos 16 anos alistou-se no Quinto Regimento Alpino e combateu na 1ª Guerra Mundial, ganhando várias condecorações de bravura. Fundou e dirigiu diversas publicações, o que resultou em sua aproximação com políticos e membros do governo. Atuou como coordenador de imprensa na Conferência de Versalhes, em Paris (1919), e serviu como adido diplomático na Polônia (1920). Foi correspondente de guerra na Etiópia, Grécia e Iugoslávia. Escreveu em torno de 30 livros, muitos deles relatando as suas vivências nas duas Grandes Guerras. O filme "A Pele", sobre uma Nápoles após a saída dos nazistas da Itália, foi para as telas de cinema em 1981.

Queridinho do ex-presidente francês Nicolas Sarkozy (em 2009, durante as eleições, perguntado pelas suas preferências literárias, o então candidato revelou aos jornalistas que era apaixonado pela obra Kapput), Curzio Malaparte subiu a alturas poucas vezes alcançadas por seus pares, ao batizar, com o seu nome, uma estrela no espaço sideral. Isso se deu em outubro de 1980, vinte e três anos após a sua morte. O astrônomo tcheco Z.Vávrová, do Observatório de Klet, descobriu o planeta número 03479, um corpo celestial do tamanho de um asteróide gigante e o denominou de Malaparte, uma homenagem ao seu autor favorito.

Testemunha ocular da chacina de Jassy, Malaparte também se transformou em personagem e inspirou o escritor norte-americano radicado na França, Samuel Astrachan, a escrever a obra “Malaparte in Jassy”, publicada em 1989, onde o autor rememora os passos do jornalista, antes e durante o pogrom. Ainda sobre a tragédia de Jassy, o diretor do Instituto do Congresso Judaico Mundial de Jerusalém, professor Laurence Weinbaum, transcreveu trechos de Kaputt em seu trabalho “A Banalidade da História e da Memória: A Sociedade Romena e o Holocausto” (2006). Especialista em assuntos do Leste Europeu, Weinbaum cita o testemunho de Malaparte ao cobrar do governo da Romênia o reconhecimento oficial de sua participação, ainda que tardio, na matança de milhares de judeus durante a ocupação nazista.

Figura controvertida por suas posições ideológicas – depois da guerra pendeu para o comunismo e anos depois se declarou católico – Malaparte e sua obra foram objetos de análise do historiador  Enzo Rosario Laforgia, no ensaio “Malaparte, escrittore di guerra”, publicado em 2011.

Malaparte teve seu nome incluído na lista de autores não recomendados pela Igreja Católica, assim como foram Galileu Galilei e Baruch Spinoza. Implantado pelo Papa Paulo IV, em 1559, o Index Librorum Probitorum (Índice dos Livros Proibidos) tinha a finalidade de proibir a leitura de determinados textos (inclusive o Talmud e o Corão), sob pena de excomunhão.  Nas suas várias versões, o Index acabou se tornando uma espécie de guia dos livros que deveriam ser lidos, uma espécie de fonte de orientação para quem tentava entender o mundo através dos livros. Em 1966, o Index foi abolido pelo Papa Paulo VI.