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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Israel: quando o terrorismo se reinventa

Por Sheila Sacks
publicado na versão online do "Correio do Brasil"

A série de incêndios florestais que durante seis dias atingiu centros urbanos importantes como Haifa e arredores de Jerusalém reacende a hipótese do envolvimento de ações criminosas nesse episódio que tomou ares de um dos maiores desastres do país, deixando um rastro perverso de danos ambientais, sociais e materiais de enorme envergadura.

Sofrendo com a falta de chuvas e ventos fortes, os incêndios provocaram a retirada de mais de 80 mil pessoas que vivem na cidade litorânea de Haifa, no norte de Israel, que tem 280 mil habitantes, entre judeus e árabes. Em 2010, a cidade já havia enfrentado um incêndio que resultou em 44 mortes. Cidades perto de Jerusalém e comunidades na Cisjordânia também tiveram de ser evacuadas afetadas por focos de incêndios e muita fumaça.

Ao anunciar no domingo, 27 de novembro, que os incêndios estavam sob controle, o porta-voz da polícia Micky Rosenfeld destacou que os aviões continuavam jogando água em áreas como a de Haifa, a terceira maior cidade do país, em um trabalho de prevenção. Cerca de 1,6 mil apartamentos e casas ficaram totalmente danificados sendo que 500 deles inabilitados para moradia. Os estragos na cidade estão estimados em 120 milhões de dólares. Segundo informações da agência France-Presse (AFP), foram destruídas mais de 13 mil hectares de florestas no país e detidas 23 pessoas suspeitas de terem provocado os incêndios.

Nova ameaça

Em reportagem, a agência de notícias espanhola EFE divulgou que autoridades israelenses consideram que muitos dos fogos foram provocados e que o primeiro-ministro israelense, Benjamim Netanyahu, falou sobre uma onda de terrorismo incendiário. Seria um novo tipo de terrorismo que Israel enfrenta, declarou o ministro de segurança pública, Gilad Erdan. Uma situação preocupante não só para Israel, caso as suspeitas se confirmem, mas em relação a qualquer outro país do planeta.

No Brasil - onde as facções criminosas e as milícias interagem com ilícitos pesados, desde a comercialização de drogas, armas e serviços até roubos de cargas e assassinatos, comandando as operações de dentro das cadeias em um arrogante desafio às forças policiais - alguém já parou para pensar se, por exemplo, nossa floresta da Tijuca, no miolo do Rio de Janeiro, uma das maiores florestas urbanas do país, com 4.200 hectares, vir a ser incendiada pela bandidagem? Ou virar alvo de atos de sabotagem de cidadãos indignados ou revoltados pelas centenas de mazelas públicas que são condenados a suportar no seu humilhante dia a dia?

Preconceito na rede

Em um mundo globalizado de ditadura digital, com a mídia informativa jorrando notícias continuadamente e as redes sociais temperando as informações, sempre com muito sal, os fatos acabam sendo engolidos pelas versões. Sejam em relação ao estado de Israel, a outros países, povos, religiões etc. As redes opinam, sugerem, reciclam, distorcem, amplificam e redesenham os ângulos das questões de acordo com o perfil ideológico dos indivíduos e os preconceitos inerentes à formação de cada um. Uma miscelânea que muda o conceito original de massa, que de acordo com o dicionário Aurélio consiste em um “número considerável de pessoas que mantêm entre si uma certa coesão de caráter social, cultural, econômico”.

Mas, no mundo virtual, independente de aspectos sociais, culturais e econômicos que podem ser díspares, o preconceito e a intolerância têm o poder nefasto de juntar as pessoas. Muito mais do que separá-las. Percebe-se que inúmeras vezes o fato real que ensejou a notícia perde-se em labirintos de interpretações ou fica em segundo plano, emergindo em contraponto, de forma intencional, um dado correlato posto a serviço da neutralização ou negação do fato real veiculado.


Nos incêndios ocorridos em Israel a maior vítima foi a sua população em todos os seus segmentos. Sabe-se que motivações de qualquer espécie não justificam atos de violência e vandalismo, e que nas proporções que afetaram o país configuram-se reais ações de terrorismo. Logo, existindo culpados, a eles a lei deve ser aplicada.   

domingo, 27 de novembro de 2016

Criminosos comuns aderem à jihad, informa instituto britânico

Por Sheila Sacks
“Quando as portas da prisão se abrem, o verdadeiro dragão sai voando” (Ho Chi Min, líder comunista vietnamita, falecido em 1969)

Prisões europeias estão transformando jovens que assaltam e roubam em futuros terroristas. A doutrina da guerra santa se infiltrou entre as grades e deu sentido aos seus históricos de violência.

Em mais uma de suas pesquisas focadas no extremismo político, o Centro Internacional de Estudo da Radicalização e Violência Política (ICSR, na sigla em inglês), do King’s College London, divulgou relatório em que aponta a crescente adesão de criminosos comuns e ex-presidiários a grupos religiosos fanáticos como o Estado Islâmico (EI), a rede al-Qaida e a milícia síria Jabhat al-Nusra que pregam a Jihad - guerra santa -  contra aqueles que não estejam alinhados com o ideário de um Islã fundamentalista. Segundo o estudo, a conexão entre o terrorismo e a deliquência tem aumentado na Europa e para isso concorre o próprio sistema prisional que abriga centenas de “jovens revoltados” que acabam se radicalizando de forma mais rápida nas prisões do que quando doutrinados nos centros religiosos ou guetos.

Na apresentação do trabalho, em outubro deste ano, o diretor do ICSR e co-autor da pesquisa, Peter Neumann, observou que jovens detidos por crimes violentos são mais propensos ao extremismo bárbaro. “O Estado Islâmico representa a brutalidade, a força e o poder que esses jovens, frequentemente ex-integrantes de gangues, buscam.” Neumann, nascido na Alemanha, é mestre em Ciência Política, especialista em segurança e terrorismo, professor do King’s College London e autor de vários livros sobre o tema, sendo o mais recente “Radicalized: New Jihadists and the Threat against the West” (“Radicalizados: Novos Jihadistas e a ameaça contra o Ocidente”, em tradução livre).

Recrutamento nas prisões 

Com 52 páginas, o documento “Criminal Pasts, Terrorist Futures: European Jihadists and the New Crime-Terror Nexus” analisa os perfis de 79 extremistas que a partir de 2011 se deslocaram para o exterior para combater no Iraque e na Síria ou participaram de atentados na Europa. Eram originários da Bélgica, Dinamarca, França, Alemanha, Holanda e Reino Unido, alguns com descendência árabe.

O documento elaborado pelo ICSR  descobriu que mais da metade deles, cerca de 57%, tinham antecedentes criminais, tendo passado um período presos antes de aderir ao jihadismo. Desse grupo, 27% dos detidos se radicalizaram na prisão contrariando o senso comum de que são as mesquitas e os centros religiosos os locais dessa prática de aglutinação, conforme o foco e as ações dos serviços de segurança.

Para Newmann a familiaridade de ex-presidiários com armas, drogas e ilícitos em geral – como o acesso a documentos falsos e a circuitos ocultos de financiamento - promove uma funesta interação entre o crime e o terror, agora pretensamente justificados sob  o manto da religião. Se antes eram considerados criminosos comuns, a partir de seu recrutamento pela jihad ganham uma espécie de aval para cometer crimes ainda maiores com a salvaguarda de uma suposta redenção e ascensão ao paraíso.

O relatório reproduz um pôster de um grupo jihadista que estampa o slogan: “Sometimes people with the worst pasts create the best futures” (“Às vezes pessoas com os piores passados criam os melhores futuros”, em tradução livre). A propaganda apresenta um jovem de costas, de botinas e roupa preta, empunhando um fuzil kalashnikov, de fabricação russa, tendo ao fundo uma luz fulgurante. O cartaz foi compartilhado no facebook pelo grupo britânico jihadista Rayat al-Tawheed que alicia para o EI jovens envolvidos com gangues criminosas, prometendo a salvação de suas almas pela jihad. Algo bem diferente de tempos atrás quando os movimentos islâmicos enfatizavam o valor da crença e o fervor religioso absoluto à causa.

Pouco conhecimento teológico

Em entrevista ao “The Independent”, jornal britânico on-line, o professor Newman explica que com o surgimento do EI o perfil dos extremistas islâmicos tem mudado. ”Muitos analistas continuam dizendo que os terroristas são oriundos das classes média e alta, recordando, por exemplo, que Osama Bin Laden era filho de um milionário e o ataque de 11 de setembro foi praticado por estudantes. Mas essas afirmações não refletem a realidade que temos hoje com o Estado Islâmico”.

Na reportagem “Isis recruiting violent criminals and gang members across Europe in dangerous new crime-terror nexus”, veiculada em 10.10.2016, Newman revela que a pesquisa constatou que os atuais extremistas recrutados pelo EI não apresentam um conhecimento teológico profundo da Shaaria (conjunto de leis baseado no Alcorão, o livro sagrado do Islamismo, e na vida do profeta Maomé) e continuam a fumar, beber e a usar drogas até a partida para o local do combate. Diferentes dos terroristas da al-Qaida - indivíduos radicalizados para a violência em função de uma interpretação extremista do Islã - , os novos militantes do terror são pessoas de comportamento violento que encontraram no radicalismo islâmico uma maneira de prosseguir no submundo do crime sob uma pretensa justificativa religiosa. 

A propaganda de recrutamento é bem explícita, analisa Newman. “Basicamente diz que você pode se inscrever para a missão mesmo sem conhecer o verdadeiro Islã. A ideologia do EI enfatiza menos o conhecimento teológico e mais a absoluta obediência a sua própria interpretação da luta jihadista. O estudioso acredita que  em muitos casos é bem mais difícil convencer algum ativista estudantil que passa a apoiar a ideologia jihadista a praticar um ataque com mortes do que um outro com um passado de atos de violência.

O relatório do ICSR cita alguns exemplos de criminosos que aderiram à  jihad. Um deles é Abderrozak Benarabe, nascido na Dinamarca, perigoso traficante de drogas, conhecido como “Big A”, dono de um extenso prontuário criminal em Copenhague e que decidiu se voltar para o jihadismo e lutar na Síria depois que seu irmão foi diagnosticado com câncer. “Não basta apenas rezar, com tanta coisa errada que eu fiz”, justificou. O britânico de descendência síria, Ali Almanasfi, também viajou à Síria e se juntou à milícia Jabhat al-Nusra, em 2013. Envolvido com drogas e roubos, ele passou um longo período na prisão após participar de um violento assalto a um idoso. Ao explicar a um amigo a razão de seu engajamento à  jihad, Almanasfi, que morreu cinco meses depois, aos 22 anos, na cidade síria de Idlib, confessou: “Pelo menos uma vez eu quero fazer alguma coisa boa. Alguma coisa pura.”  

 Sem futuro

Fortalecendo a tese, o antropólogo francês Alain Bertho, professor da Universidade Paris 8, atribui o sucesso do Estado Islâmico entre os jovens desestabilizados ao fato de o grupo terrorista oferecer um sentido ao mundo e às suas vidas. “O Estado Islâmico lhes dá até uma missão”, acentua. Respondendo às perguntas do jornalista Ivan Du Roy, do site alternativo “Basta!”, focado em problemas sociais, econômicos e ambientais, o antropólogo culpa as sociedades em geral de não investirem no futuro dos jovens, na sua educação e nas universidades. “Será que refletimos bem sobre como seria a revolta sem esperança?”, provoca. 

Segundo Bertho, para combater de forma eficaz o Estado Islâmico e sua oferta política de morte e desespero “é preciso refletir sobre a revolta que está na raiz desses crimes”. Ele observa que “uma sociedade que já não consegue se reinventar leva as pessoas a manifestações de desespero e de raiva’, e que “o século 21 abandonou o futuro em nome da gestão do risco e da probabilidade, indiferente à ira das gerações mais jovens”.

Autor do livro “Les enfants du chaos” ( “Os filhos do Caos” ), Bertho acusa a globalização e a crise generalizada da representação política de aumentarem a violência e os motins, provocando uma onda de desilusão, desesperança e “fúria radical” nas novas gerações. “Gerencia-se o cotidiano através de políticos que manipulam o risco e o medo como meios de governo, seja o risco à segurança ou o risco cambial, que falam muito de aquecimento global, mas são incapazes de antecipar a catástrofe anunciada.” De acordo com o antropólogo, essas revoltas radicais encontram-se hoje diante de tamanhos impasses que o Estado Islâmico surge como uma opção de ira, martírio e libertação. 

Fracasso na educação

O estudioso em Ciência das Religiões, professor Paulo Mendes Pinto, da Universidade Lusófona de Lisboa, também credita ao sistema educacional uma forte dose de responsabilidade no crescimento do extremismo na Europa. Ele denuncia o fracasso do modelo educacional europeu como causa da adesão de jovens ocidentais ao radicalismo do Estado Islâmico. "Os jovens, perante os desalentos que a Europa lhes dá - desemprego, falta de valores, corrupção, luta cega por riqueza -, optam por um modelo diferente”, critica o acadêmico, em depoimento à agência de informação Lusa (“O que atrai os jovens ocidentais ao Estado Islâmico?”, em 26.09.2014).

 À frente do Instituto Al-Muhaidib de Estudos Islâmicos, Mendes Pinto é editor da revista “Cadernos de Estudos Sefarditas”, da Universidade de Lisboa e mantém uma coluna sobre religião no jornal “Público”. Em sua opinião, o sistema de ensino que deveria alimentar as ideias de liberdade, fraternidade e igualdade da Revolução Francesa, que ainda continuam válidas, objetivamente não consegue passar esses princípios. “Devemos pensar sobre o que é que a nossa sociedade tem que faz com que, quando pensávamos que vivíamos em regimes onde a liberdade nos tinha vacinado de radicalismos, acontece exatamente o contrário”, alerta o especialista.

Um exemplo dessa falha social pôde ser constatado com a prisão de Khalid Zerkani, em julho de 2015. A justiça belga o condenou a 12 anos de prisão por difundir ideias extremistas entre “jovens ingênuos, frágeis e agitados”. Com 42 anos, ele foi acusado de participação em atividades de organização terrorista e considerado “o arquétipo de um mentor subversivo”.  

Doutrina de ódio

Morador do bairro de Molenbeek, em Bruxelas, Zerkani manteve conexões diretas ou indiretas com os jovens que participaram da série de ataques em Paris (o maior deles à casa de show Bataclan), em 13 de novembro de 2015 - que matou 130 pessoas e feriu 352 -, e nos atentados no metrô e no aeroporto de Bruxelas, em 22 de março de 2016, com 32 mortes e 300 feridos. "Zerkani perverteu toda uma geração de jovens, especialmente no bairro de Molenbeek" (de maioria islâmica), afirmou o promotor belga Bernard Michel que acompanhou o caso. É o que mostra a reportagem “Em Bruxelas, mentor jihadista ensinava ‘islamismo bandido’ a jovens revoltados” (“The New York Times” e “UOL internacional”, em 12.04.2016).

 Segundo as autoridades de segurança da Bélgica, por mais de uma década Zerkani foi um elemento central da rede terrorista que abasteceu com conselhos, dinheiro, armas e explosivos jovens muçulmanos de origem europeia ansiosos para combater na Síria e na Somália ou para causar destruição na Europa. Investigadores citam Abdelhamid Abaaoud, 28 anos, apontado como comandante operacional dos ataques em Paris (morto cinco dias depois pelo polícia francesa) e Najim Laachraoui, 25, um dos homens-bomba suicida nos atentados em Bruxelas e que igualmente esteve envolvido com o massacre na capital francesa.  Abaaoud já tinha sido preso três vezes por assalto e outros delitos e Laachraoui - que chegou a estudar engenharia na Universidade Livre de Bruxelas, mas não concluiu o curso – esteve na Síria, em 2013, nas fileiras do Estado Islâmico lutando contra o regime de Bashar al-Assad.

Outros envolvidos com Zerkani seriam Mohamed Abrini, 31 anos, preso acusado de ter participado dos ataques em Bruxelas e morador do distrito de Molenbeek, e Reda Kriket, um francês de 34 anos, preso em março deste ano pela polícia francesa, suspeito de estar planejando um ataque iminente e “sem precedentes”. Em seu apartamento foi apreendido documentos falsos, produtos químicos e um arsenal de armas e explosivos semelhantes aos usados nos ataques em Paris e Bruxelas.

Com 1,6 bilhão de praticantes (23% da população mundial), o islamismo tem maioria religiosa em 49 nações. A previsão para os próximos 35 anos é que haja um crescimento considerável desse grupo religioso, em virtude de sua maior taxa de fertilidade e de população jovem. Um estudo demográfico realizado pelo “Pew Reseach Center”, de Washington, em 2015, sobre o futuro das religiões (Global Religious Futures) calcula que em 2050 o Islã terá 2,76 bilhões de seguidores (29,7%), aproximando-se dos 2,91 bilhões de cristãos que irão compor os 31,4% da população global.



sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O deserto e o novo mundo - O sonho de liberdade na descoberta da América

por Sheila Sacks

A melhor testemunha é o documento escrito 
(Carl Sandburg, historiador e poeta americano)

Em 2016, o feriado de Columbus Day foi comemorado nos Estados Unidos em 10 de outubro, a segunda segunda-feira do mês. No Brasil e em outros países do continente, a descoberta da América tem data certa, festejada em 12 de outubro, dia em que Cristóvão Colombo, no longínquo ano de 1492, se deparou com o horizonte de uma terra desconhecida.

Luis Torres, membro da expedição de Colombo, assim escreveu no diário de bordo acerca do histórico dia: “Sexta-feira, duas horas depois do meio-dia, Hoshana Rabá ( sétimo dia de Sucot), no calendário judaico, vigésimo primeiro dia do mês de Tishrei, no ano de 5235 depois da Criação.”

Torres era um judeu recém converso ( provavelmente de nome Yosef ben Halevi Halvri) e profundo conhecedor do hebraico, aramaico e árabe. Ele assim relata a madrugada da descoberta: “ Eu escutava toda a noite Rodrigo de Triana recitar os Tehilim (Salmos de David)... Nós ficamos acordados toda a noite e com  a primeira luz trêmula da manhã, um de nós avistou a terra. Rodrigo correu para avisar Colombo.”   Para a maioria dos pesquisadores foi Rodrigo de Triana quem gritou “Tierra!Tierra!” ao perceber uma silhueta diferente no horizonte. No calendário cristão era sexta-feira, 12 de outubro.

Coube a Luis Torres ser o primeiro europeu a pisar o novo mundo. Ele foi um dos 39 tripulantes que não voltaram à Espanha com Colombo, permanecendo no assentamento de Natividade, na Ilha de Santo Domingo (São Domingos) onde hoje estão a República Dominicana e o Haiti. Torres deixou as Antilhas em fevereiro de 1494, retornando à Espanha com doze navios de uma frota de dezessete que Colombo trouxera em sua segunda viagem ao novo continente, em dezembro de 1493. Meses depois, em abril de 1494, Colombo teria deixado São Domingos com três caravelas, uma delas a Niña, em direção a Cuba e Jamaica.

Ainda acerca de Luis Torres, um documento escrito por ele, datado de 1523, afirma que sete judeus participaram da expedição de Colombo, e cita Rodrigo de Triana, quem primeiro avistou a terra, Rodrigo Sanchez, imediato da frota e dois médicos de nomes Birena e Marco.  

Judeus financiaram Colombo

Essas informações estão no livro “Columbus then and Now – A Life Reexamined” ( ‘Colombo então e agora – Uma vida revista’, em tradução livre, publicado em 1997 ), de Miles H. Davidson, pesquisador independente que viveu na República Dominicana e estabeleceu um vasto acervo sobre o descobrimento. Ele contesta várias versões disseminadas sobre a viagem de Colombo, inclusive sobre a morte de Luis Torres que teria ocorrida em 1493, em Natividade. Davidson se utiliza de manuscritos dos séculos 16 e 17, de diários, cartas e registros navais da época para analisar cronologicamente os fatos que marcaram a vida do navegador e o papel desempenhado pelos judeus na primeira viagem de Colombo à América.

A obra e o autor são citados no artigo “Sukkot guide for the Perplexed 2016” (‘Guia de Sucot 2016 para os perplexos’, em tradução livre), assinado por Yoram Ettinger, ex-consul de Israel em Houston, no Texas, e chefe do escritório de Imprensa do governo israelense em 1988 e 1989. Publicado na edição online do semanário americano “The Jewish Press” (em 14.10.2016), o texto foi  extraído do livro de Ettinger, “Jewish Holidays Guide for the Perplexed” (‘ Feriados Judaicos - Guia para os perplexos’, em tradução livre), editado em 2014.

Para Ettinger, a Festa dos Tabernáculos ou das Cabanas  “comemora a transição do povo judeu de escravo, no Egito, para a soberania na terra de Israel, da vida nômade no deserto onde viveu em cabanas por 40 anos,  à permanência na terra prometida”. Engloba igualmente o sentido universal da libertação, uma aspiração comum a toda humanidade. Assim, ele enxerga uma “aliança” espiritual entre a descoberta da América e Sucot, pela convergência das datas. A visão de um novo mundo justamente no sétimo dia de Sucot, em Hoshana Rabá -  considerado por nossos sábios como o último dia de “julgamento” divino no qual o destino do ano novo é determinado – se afigura como o prenúncio de um novo tempo de libertação e milagres.

Sobre a chegada ao novo mundo, Davidson conta que Luis Torres escreveu no fim de seu diário de bordo: “Nós desembarcamos na praia de  San Salvador ( Guanahani, para os nativos) e tomamos posse do novo mundo para a Espanha. Cristóvão Colombo sempre acreditou que essa ilha e outras que ele posteriormente avistou  na viagem do descobrimento eram as Índias, perto do Japão ou China.” O pesquisador contesta versões de autores norte-americanos sobre a possível intenção de Colombo de chegar a novos continentes e também o real horário do avistamento, que para alguns biógrafos aconteceu duas horas depois da meia-noite de 12 de outubro.

Quanto aos recursos para a expedição de Colombo, Davidson cita os judeus Abraham Senior, rabino-mor e chefe da coleta de impostos dos reis espanhóis Fernando de Aragão e Isabel de Castela, e Isaac Abravanel, que administrava as receitas da casa real, ambos sob o foco do édito real de expulsão dos judeus da Espanha, expedido em 31 de março de 1492. Segundo o autor, Fernando e Isabel trabalharam para persuadi-los a se converterem e permanecerem na Espanha, como o fizeram Alonso de Cabrera, Luis de Santagel ( escriba da casa real) e Gabriel Sanchez, judeus conversos envolvidos com o financiamento da expedição. Porém, apenas Senior, natural de Segóvia, aceitou a conversão, falecendo no ano seguinte. Abravanel, nascido em Lisboa, partiu para o exílio e ainda viveu mais dezesseis anos em cidades como Nápoles, Messina e Veneza, prestando serviços nas áreas financeira e diplomática à nobreza.

Após a viagem, as duas primeiras cartas enviadas por Colombo narrando o feito do descobrimento e agradecendo o apoio à sua expedição foram dirigidas justamente a Santagel e Sanchez que adiantaram recursos pessoais de alto valor para financiar aquela que foi uma das maiores aventuras do homem em todos os tempos: a descoberta de um novo mundo. Coincidentemente ocorrida no sétimo dia de Sucot, no mês de Tishrei, o sétimo dos doze meses do calendário judaico ( chamado yerach ha’etanim, "o mês dos fortes" ou "o mês dos antigos"), sete meses após o decreto de Alhambra que legalizou o confisco de bens e a expulsão de todos os judeus das terras espanholas que lá viviam há mais de quatrocentos anos.






quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A notícia online ao alcance de todos

Por Sheila Sacks

Com o gradual cerceamento na web de conteúdo gratuito e irrestrito de textos produzidos pela grande imprensa brasileira, que tem investido no nicho de assinaturas digitais, está cada vez mais difícil o internauta ter acesso às determinadas notícias, artigos ou colunas de seu interesse, caso não seja assinante do jornal impresso ou pague pelo serviço. Uma tendência que segue em sentido oposto ao que se vislumbra nos Estados Unidos, segundo o registro do jornalista Carlos Castilho, no Observatório da Imprensa (“Seis Razões para abandonar o acesso pago”, em 26.07.2016). Lá, 70% dos jornais com tiragens maiores de cinco mil exemplares já abandonaram a cobrança de acesso às notícias online.   

Por isso foi uma surpresa positiva descobrir um espaço onde os melhores conteúdos de uma grande gama de jornais de todo o país estão à disposição do internauta de uma forma simples e muito bem cuidada, proporcionando ao cidadão visitante, além de uma ampla e diversificada visão sobre a atualidade política e social do Brasil, um enfoque dirigido aos atuais dilemas econômicos que impactam a nossa sociedade.

Clipping diário e em tempo real da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (ANFIP) -   http://www.anfip.org.br/clipping  - é um serviço público dos mais relevantes à medida que disponibiliza um conjunto de notícias e de opiniões publicadas em veículos de comunicação situados em pontos diferentes do país, de tendências díspares e visões múltiplas. Informações que de outra forma dificilmente chegariam graciosamente aos dispositivos móveis dos cidadãos urbanos do eixo Rio-São Paulo, às telas eletrônicas dos conectados das capitais afastadas dos centros políticos decisórios ou dos leitores antenados das cidades interioranas brasileiras de pequeno e médio porte. Mesmo que os leitores se dispusessem a empreender uma garimpagem mais demorada no Google, não seriam brindados com essa pauta brilhante de abordagens.

De maneira rápida e eficiente é possível se surpreender com o conteúdo dessa seleção nota 10, que oferece inclusive um calendário digital que permite ao internauta a consulta ou releitura de textos de datas anteriores. 

Sem retoques

Assim, na primeira semana de agosto, fica-se sabendo que a economia brasileira segue encolhendo e que a redução de nosso BIP per capita poderá chegar a 10% em dois anos. Lembrando que na chamada década perdida, de 1981 a 1992, a renda encolheu 7,6%, ou seja, toda a política de distribuição de renda e inclusão social está sendo anulada pela recessão (“O fundo do poço”, por Luiz Carlos Azedo, no Correio Braziliense).

E mais: Entre dezembro de 2014 e maio de 2016, o número de assinantes da TV paga caiu de 19,5 milhões para 18,9 milhões, segundo dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Foram 669 mil cancelamentos, sendo que nos primeiros cinco meses deste ano já somam 208 mil rescisões, uma média de 40 mil por mês, reflexo da crise econômica (“Tem menos gente ligada na TV por assinatura”, por Thatiana Pimentel, no Diário de Pernambuco). Outro dado revelador: Enquanto os trabalhadores da iniciativa privada com medo do desemprego recorrem menos aos consignados (empréstimos descontados diretamente no contracheque), os funcionários públicos se endividam mais. De acordo com dados do Banco Central, em junho a categoria devia 171,3 bilhões em empréstimos consignados, cifra 4,9% superior ao mesmo período de 2015.

Paralelamente a essa contração de renda da população, a Receita Federal estima que em torno de R$ 520 bilhões são sonegados anualmente no Brasil, principalmente pelos mais ricos. Esse valor cobriria três vezes o rombo aprovado nas contas do Governo Federal em 2016. Outras fontes de recursos, como o aumento de alíquota de IOF para altos volumes de transações financeiras e o tributo sobre grandes fortunas, continuam sendo adiadas pelas autoridades da gestão econômica. Assim abandonam-se os princípios da razão do estado e mantém-se a narrativa da crise (“Razão de estado e desigualdade social no Brasil”, por Cláudio Guedes Fernandes, no Correio Braziliense).

Globalização desigual

 Em nível mundial, a situação econômica também não é das melhores e para o americano Joseph E. Stiglitz, prêmio Nobel de Economia em 2001, a era da globalização gerou uma desigualdade global em termos de renda. Entre 1998 e 2008, por exemplo, os grandes ganhadores foram os que representam o 1% da plutocracia mundial e a classe média nas novas economias emergentes. Em artigo publicado no jornal O Globo (“O novo mal-estar da globalização”), o economista observa que nos dias atuais, grandes segmentos da população nos países avançados não estão em melhores condições, ou seja, não prosperaram. Nos EUA, os 90% mais pobres enfrentam uma estagnação de renda há 25 anos. A renda média dos trabalhadores homens em horário integral é atualmente menor em termos reais (considerada a inflação) do que era há 42 anos. Na base da pirâmide, os salários reais são comparáveis aos níveis de 60 anos atrás.

A Unctad – órgão das Nações Unidas dedicado ao comércio e desenvolvimento – chama a atenção para o fato de que entre 1990 e 2015, a quantidade de pessoas vivendo na extrema pobreza no mundo foi ampliada em mais de 50%. No artigo “Chegou a conta da globalização” (Valor Econômico), a jornalista Maria Clara R.M. do Prado destaca que nem todos se beneficiaram da globalização e que o progresso tem sido desigual, contribuindo para o desencantamento. E chama a atenção para o fato de os governos estarem sendo atropelados pelos grupos descontentes que têm fazendo valer a sua voz contra a globalização e as desigualdades que persistem. No plebiscito do Brexit, na Inglaterra, e na candidatura de Donald Trump.
 
No Brasil, o espetáculo globalizado das Olimpíadas mereceu um comentário do jornalista Elio Gaspari, colunista de O Globo e da Folha de São Paulo, que jogou um balde água fria na empolgação da galera nacional que vibra e torce nas arenas olímpicas, estimulada pelo maciço marketing da mídia e de seus patrocinadores. Segundo ele, nada reduzirá a beleza dos sorrisos dos atletas nas cenas da festa da abertura e os momentos de sonho e felicidade de centenas de jovens que subirão ao pódio para receberem suas medalhas de ouro. Mas, para os brasileiros, além do sonho virá a conta. Algo em torno de R$ 500 milhões, alerta (“A conta dos sonhos ficará no Brasil”).


quarta-feira, 13 de julho de 2016

A Maçonaria em Israel e suas raízes judaicas


MASONERIA EN TIERRA SANTA
Donde judios, árabes y cristianos son hermanos

Un Reportaje al M:.R:.H:. León Zeldis por la periodista Sheila Sacks, Brasil
Traducción del portugués: José Schlosser
( 2010) 

Monumento em Eilat
Viviendo en Israel desde hace cincuenta años, León Zeldis, Cónsul Honorario de Chile en Tel Aviv, ha ocupado los más altos cargos en la Masonería israelí. Señala que no existe ningún impedimento entre el judaísmo y la masonería. Además, rabinos y jazanim (oficiantes en las sinagogas) pertenecen a la Orden, y en la ciudad de Eilat, al sur de país, en la frontera con Egipto, una logia llegó a trabajar en un salón de una Yeshivá (escuela religiosa para la formación de los rabinos). "La Masonería israelí es un ejemplo de convivencia y tolerancia", dijo Zeldis. "Lo que demuestra que pueden convivir, judios, árabes y cristianos, como hermanos."

Reportagem completa nos links:






A face judaica-templária da maçonaria

Por Sheila Sacks
(2011)

Provavelmente, quando os primeiros templários chegaram a Terra Santa comandados por Hugues de Payen, em 1118, quase duas décadas após a conquista de Jerusalém pelos Cruzados (1099), o objetivo real de sua presença não ficaria apenas circunscrito a dar proteção aos peregrinos que se deslocassem a Jerusalém. O grupo de nove nobres franceses oriundos da região de Provença que se estabeleceu na ala leste do palácio do rei Balduíno II, patriarca de Jerusalém, sob o nome de Ordem dos Pobres Cavaleiros do Templo de Salomão, passou quase dez anos promovendo escavações na área da Mesquista de Al-Aqsa, erguida sobre o local onde existiram dois grandes templos judaicos: o primeiro Templo, construído em 960 antes da Era Comum pelo rei Salomão e destruído por Nabucodonosor, da Babilônia, em 586 a.E.C., e o segundo Templo, reconstruído cinquenta anos depois no mesmo local e que resistiu até 70 da E.C. quando foi arrasado pelas legiões romanas.

Texto completo no link:










quarta-feira, 29 de junho de 2016

Brasil tem recorde de assassinatos de ambientalistas

Um informe da organização não governamental Global Witness divulgado em 20 de junho aponta o Brasil como o pais mais perigoso para os ativistas ambientais com um saldo de 50 mortes ocorridas em 2015. A América Latina continua sendo a região onde mais se assassina ecologistas, com 122 mortes. O estudo avalia que 2015 foi o ano mais sangrento deste século, com um total de 185 mortes, 69 a mais que em 2014.

O jornal EL Pais repercutiu o tema analisando o relatório da ONG que concluiu que as principais causas dos conflitos que contribuíram para a morte dos ambientalistas foram a mineração (42), a agroindústria (20), o desmatamento (15), as hidrelétricas (15) e a caça ilegal (13). Cerca de 40% dos mortos são indígenas.

Na lista dos 16 países investigados, as Filipinas contabilizam 33 mortes, vindo em seguida a Colômbia (26), Peru (12) e Nicarágua (12). Segundo Felipe Sánchez, que assina a reportagem do El Pais, “a madeira ilegal do Brasil representa 25% dos mercados mundiais.” O jornalista cita o assassinato de Raimundo dos Santos Rodrigues, marido da ativista Maria da Conceição Chaves Lima, do Instituto Chico Mendes, que levou 12 tiros em uma emboscada no ano passado. O casal combatia o desmatamento na Amazônia e hoje ela vive longe da família e da comunidade em um programa de proteção a vítimas e testemunhas ameaçadas.

Monitorando desde 2010 os casos de violência contra ambientalistas, a Global Witness registrou nesses cinco anos 735 assassinatos, sendo 77% deles na América Latina. O Brasil é o recordista com 207 mortes, seguido por Honduras (109) e Colômbia (105). Os três países somam 56% de todos os crimes no período. A ONG, com sedes em Londres, Washington e Califórnia, atua em prol dos direitos humanos e ambientais, denunciando abusos e violações, apesar das dificuldades na obtenção de informações oficiais.

Crimes ambientais movimentam até 258 bilhões de dólares

Em outro relatório, esse publicado em 4 de junho pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) em parceria com a Interpol, apurou-se que os crimes ambientais em 2015 movimentaram de 98 a 258 bilhões de dólares, 26 % a mais do que 2014. Um crescimento alarmante para o secretário-geral da Interpol Jürgen Stock. Na última década, o crime ambiental tem subido de 5% a 7% ao ano, o que corresponde a duas a três vezes mais que a economia global.

O documento afirma que devido a legislações fracas e órgãos de segurança subfinanciados as redes criminosas internacionais e rebeldes armados estão lucrando com um comércio que provoca conflitos, devasta ecossistemas e ameaça espécies em extinção. O crime ambiental é o quarto maior negócio criminoso do mundo, depois do tráfico de drogas, falsificação e tráfico de seres humanos. Supera o comércio ilegal de armas de pequeno porte avaliado em cerca de 3 bilhões de dólares. O relatório especifica também os vários ilícitos ambientais praticados pelas organizações criminosas, entre eles o comércio ilegal de espécies, os crimes corporativos no setor florestal, a exploração e venda ilegal de ouro e outros minérios, a pesca ilegal, o tráfico de lixo tóxico e a fraude no crédito de carbono.


Em tempo: Enquanto a grande mídia e as redes sociais passaram ao largo do tema, a Agência Brasil, da Empresa Brasileira de Comunicação, reportou de forma exemplar o informe da Global Witness, em matéria assinada pela repórter Maiana Diniz.

Reportagens consultadas:

Brasil lidera ranking de mortes de ambientalistas em 2015, diz ONG (Agência Brasil, em 20.06.2016)

Assassinato de ecologistas bate recorde e Brasil é o país mais perigoso da região (El Pais, em 20.08.2016)

Valor movimentado por crimes ambientais sobe 26% em 2015, para até US$258 bi, diz PNUMA (ONU Brasil, em 07.06.2016),

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Terroristas usam caça-talentos para recrutar militantes

Por Sheila Sacks

publicado no "Observatório da Imprensa"

Em maio, uma reportagem da agência espanhola EFE, em sua edição portuguesa, revelou que um marroquino residente na Espanha e que trabalha normalmente há onze anos em uma empresa como caça- talentos, também se empenhava em recrutar possíveis terroristas jihadistas. Para o ministro de Interior, Jorge Fernando Díaz, a descoberta mostra uma mudança de perfil dos supostos aliciadores que necessariamente não precisam estar engajados à ideologia do islamismo radical (‘Espanha adverte de uma mudança no perfil no recrutador jihadista’, em 16.05.2016).

A possibilidade dos recrutadores serem cidadãos comuns, profissionais integrados na sociedade, um vizinho ou colega de trabalho, é mais um dado que assusta as autoridades e os serviços de Inteligência, principalmente os da Espanha. O país já convive com o nível 4 de alerta (alto risco de atentado terrorista, um grau abaixo do nível máximo), desde junho do ano passado, a partir dos atentados em Paris, Tunísia e Kuwait, ocorridos simultaneamente naquele mês, com mais de 60 mortos e 200 feridos (‘Ataques espalham medo e mortes em três continentes’, na BBC Brasil, em 26.06.2015).

O surgimento de novos perfis de recrutadores que não correspondem aos padrões convencionais de militantes da causa jihadista e a crescente rapidez no processo de aliciamento de jovens – inclusive de mulheres não muçulmanas para se juntar ao Estado Islâmico (Daesh) como escravas sexuais – já demandam a adoção de diferentes instrumentos para enfrentar tal realidade, como o registro aéreo de passageiros (Passanger Name Record – PNR). A medida foi aprovada pelo Parlamento Europeu em abril deste ano e obriga as empresas aéreas a repassar os dados dos passageiros que chegam e partem da Europa aos governos dos 27 países-membros da União Europeia. Essa regra também vale para os voos internos e deverá estar operacionalizada em dois anos.

Desde o ano passado, os órgãos de segurança da Espanha cumprindo o protocolo do nível 4 de alerta mantêm proteção especial nos aeroportos, nas principais estações de trens e metrô, nas centrais energéticas e em locais de maior concentração de pessoas. Desde então, foram realizadas 46 operações antiterroristas com mais de 130 detidos.

França vai investigar seus cidadãos

Em outra reportagem, a agência EFE informa que a França vai realizar investigações administrativas, provavelmente sigilosas, sobre cidadãos que ocupam cargos “sensíveis” em profissões regulamentadas para detectar a possível presença de sinais de radicalização ou de fundamentalismo islâmico. A iniciativa faz parte de um pacote de medidas para o combate ao terrorismo anunciado em maio pelo primeiro-ministro francês Manuel Valls. O governo também pretende criar uma rede de centros de reinserção para realizar o tratamento psicológico de jovens identificados com o radicalismo e suscetíveis ao jihadismo (‘França vai duplicar centros para tratar pessoas que se radicalizaram’, em 09.05.2016).

Segundo Valls, que acredita que haverá novos ataques na França, o mundo vive a “era do hiperterrorismo” e nos últimos três anos a segurança francesa conseguiu impedir a consecução de pelo menos 15 atentados no país. Em fevereiro, na 52ª edição da Conferência de Segurança de Munique, ele foi categórico: ”Vai haver ataques terroristas. Ataques em larga escala. É uma certeza.” O premiê francês também denunciou o que chamou de “pseudomessianismo religioso e o uso do terror em massa” como componentes explosivos do “hiperterrorismo que aí está” (Jornal de Notícias, em 13.02.2016).


quinta-feira, 12 de maio de 2016

Munique 1972, a Olimpíada que não terminou

Por Sheila Sacks
  “Eu fui enviado pela revista ‘Placar’ para contar histórias e o número de medalhas conquistadas pelos brasileiros. E, de repente, me vi contando o número de mortos.” (Michel Laurence, jornalista esportivo falecido em 2014)
Publicado no Observatório da Imprensa

Em outubro de 2016, encerrados os Jogos Olímpicos do Rio (de 5 a 21 de agosto), uma solenidade marcará o engajamento da Alemanha e do Comitê Olímpico Internacional (COI) ao projeto memorial que insere os 11 desportistas israelenses (cinco atletas e seis treinadores) assassinados durante a Olimpíada de Munique, em 1972, no panteão histórico dos mártires olímpicos. A construção de 2,3 milhões de dólares está sendo erguida entre a Vila Olímpica, local do atentado, e o estádio olímpico de Munique, e sua instalação contou com o apoio financeiro do governo alemão, do COI, da Confederação alemã de Esportes Olímpicos (DOSB, na sigla em alemão), da Fundação para o Desenvolvimento Global de Esportes (GSD, na sigla em inglês) e de outras organizações internacionais.
Passaram-se mais de quatro décadas para que o COI e seus dirigentes reconhecessem efetivamente o tamanho da tragédia que se abateu em Munique e o peso de seu legado em termos de responsabilidade moral e pública. Desde então, a mensagem é clara: aos governos de países que sediam os Jogos não é dada a possibilidade de falhar ou se omitir, sobretudo no quesito da segurança, sob pena de comprometer, de forma indelével, o ideal olímpico que anima milhares de atletas e visitantes nesse que é o maior espetáculo contemporâneo de confraternização entre povos e nações.
Por isso, entende-se a manifesta preocupação do diretor do Departamento de Contraterrorismo da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), Luiz Alberto Sallaberry, diante do aumento de brasileiros seguidores do Estado Islâmico (EI). Ele atribui o fato ao “mecanismo da internet” e “às facilidades migratórias do Brasil”. Em meados de abril, em uma Feira Internacional de Segurança Pública ocorrida no Rio de Janeiro, Sallaberry confirmou que a probabilidade do Brasil ser alvo de ataques terroristas foi elevada nos últimos meses e que medidas de segurança estão sendo tomadas visando às Olimpíadas. Sessenta e sete mil homens das Forças Armadas e da Polícia Federal estão destacados para o evento na cidade do Rio.

Terrorista é entrevistado em documentário
Muito antes do curta (29 minutos) “Munique 72 e Além” (Munich’72 and beyond), de 2015 – que irá integrar o acervo do Memorial de Munique -, dirigido pelo diretor de programas da TV americana, Stephen Crisman, e apresentado em abril deste ano no festival “É Tudo Verdade”, no Rio e São Paulo, outro documentário já abordava o sequestro e massacre dos atletas israelenses sob uma ótica jornalística mais investigativa. Produzido em 1999, “Um dia em setembro” (On Day in September), do escocês Kevin Macdonald, traz uma entrevista inédita com Jamal Al-Gashey, o único dos oito terroristas que provavelmente ainda continua vivo, escondido em algum lugar da Jordânia. Com o rosto encoberto, Al-Gashey diz: “Estou orgulhoso do que fiz em Munique porque ajudou bastante a causa palestina. Antes de Munique o mundo não tinha ideia de nossa luta. Mas naquele dia a palavra Palestina foi repetida em todo o mundo.” Os terroristas exigiam a libertação de 234 presos em Israel.
Premiado com o Oscar de melhor documentário de 2000, o filme reúne entrevistas com membros do Mossad, o serviço secreto de Israel, e com os parentes dos atletas mortos. Também apresenta depoimentos de funcionários do Comitê Olímpico e de policiais alemães diretamente envolvidos nas negociações com os terroristas. Na ocasião da premiação, Macdonald justificou de maneira contundente o motivo que o levou a realizar o filme: “De alguma forma o massacre de Munique foi uma transgressão inominável, a destruição de um ideal de paz e fraternidade”. Seu produtor, John Battsek, foi mais adiante: “A investigação para o documentário revelou uma história de mistério, conspiração, tragédia, inépcia e terror”.

Estima-se que 900 milhões de pessoas em mais de 100 países assistiram pela TV o ataque ao alojamento dos atletas, na Vila Olímpica, na madrugada de 5 de setembro de 1972, e o seu desenrolar trágico que durou 18 horas. Cinco dos oito integrantes do grupo terrorista Setembro Negro invadiram o quarto onde dormia a equipe israelense e assassinaram dois atletas no confronto inicial, sendo que o halterofilista Yossef Romano foi torturado e castrado. Os outros nove desportistas foram levados pelos terroristas como reféns para um aeroporto militar nos arredores de Munique e perderam a vida em uma tentativa fracassada de resgate conduzida pela polícia alemã. Um policial e cinco terroristas também morreram. Três terroristas foram detidos e em pouco menos de dois meses foram libertados em uma troca que envolveu o sequestro de um avião da Lufthansa.  
Para Steven Ungerleider, membro do Comitê Olímpico dos EUA e um dos produtores de “Munique 72 e Além”, o atentado de Munique “foi o primeiro ato de terror moderno e não se justifica que esse trauma horrendo seja relegado a uma simples notinha histórica de rodapé”.
Amigo de Hitler era presidente do Comitê Olímpico Internacional
Frente a tal enunciado, comecemos com a performace do Comitê Olímpico Internacional. A entidade era presidida, em 1972, pelo norte-americano Avery Brundage (1887-1975), o mesmo que na Olimpíada Nazista de Berlim, em 1936, havia rejeitado a proposta dos Estados Unidos de boicotarem a competição, em razão dos atletas judeus alemães estarem proibidos de participar. Brundage tinha sido presidente do Comitê Olímpico dos Estados Unidos, era um entusiasta do regime nazista e amigo de Hitler.
Nascido em Detroit, esse engenheiro e desportista que foi o único norte-americano a presidir o Comitê Olímpico Internacional, convenceu os seus compatriotas a participarem da competição em Berlim, e em troca, a sua empresa de engenharia recebeu um cheque em branco para construir a embaixada da Alemanha em Washington. Mais de três décadas depois, em uma dessas coincidências lamentáveis, esse mesmo Brundage, agora como presidente do COI, preferiu se calar sobre o assassinato dos atletas israelenses na cerimônia realizada no dia seguinte à tragédia. Em seu discurso apenas exaltou o espírito olímpico e anunciou que “os Jogos devem continuar”.
A Olimpíada de Munique teve a participação de mais de 7 mil atletas de 121 países e ocorreu entre os dias 26 de agosto e 11 de setembro de 1972.
Abu Mazen, da Autoridade Palestina, recolheu recursos para o massacre
Em 1999, uma autobiografia intitulada “Palestine: From Jerusalém to Munich” revelou novos detalhes do ataque à Vila Olímpica. Publicada na França, seu autor é Mohammed Oudeh, codinome Abu Daoud (falecido na Síria em 2010), ex-comandante militar do Fatah (grupo paramilitar criada por Yasser Arafat em 1959 e que atua como partido político, desde 1994, na Cisjordânia) e mentor intelectual confesso da ação terrorista. No livro ele admite que o Setembro Negro era o nome-fantasia adotado pelos membros do Fatah que atuou como o braço armado da OLP (Organização para a Libertação da Palestina, criada em 1964) quando dos ataques terroristas. Daound também descreve como Arafat e o atual presidente da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas (Abu Mazen) - o homem encarregado de levantar os recursos para viabilizar a operação – desejaram-lhe boa sorte e o beijaram no momento em que ele finalizou os preparativos para o ataque, que vitimou um total de 17 pessoas.
Sobre Mahmoud Abbas, vale reproduzir um item de seu histórico escolar: em 1982, dez anos depois do atentado de Munique, ele concluiu seus estudos na Universidade de Moscou, obtendo o título de PhD em História Oriental. A tese de seu doutorado questiona e nega os números do Holocausto e inclui uma suposta aliança entre nazistas e líderes sionistas durante a 2ª Grande Guerra para exterminar todos os judeus da Europa. A fantasia mal intencionada travestida de investigação histórica intitula-se “O Outro Lado: As secretas relações entre o Nazismo e o Movimento Sionista”.
Ainda acerca do líder palestino, em 2003, a organização israelense de direitos humanos “Shurat Hadin Israel Law Center” - que dá assistência jurídica aos judeus vítimas de atos terroristas e os representa nos fóruns internacionais - enviou cartas ao então presidente George Bush e ao Chanceler Gerhard Schroeder, conclamando as autoridades americanas e alemãs a abrirem uma investigação em seus territórios contra Mahmoud Abbas por suas comprovadas ligações com o Setembro Negro, principalmente na função de recolhedor de fundos para prover atos terroristas, como o de Munique. A ação teria consistência jurídica já que um dos atletas assassinados também tinha cidadania americana e um dos mortos era um policial alemão.
Mais recente, em 2014, o movimento estudantil “Students for Israel Movement” encaminhou uma carta ao ministro da Defesa israelense para que o governo reconheça a participação do presidente da Autoridade Palestina no massacre de Munique. O representante dos estudantes, Elyahu Nissim, considera que o estado de Israel tem o dever moral de declarar oficialmente que Abbas exerceu um papel fundamental na ação terrorista e responsabilizá-lo pelas mortes.
Terroristas se abrigavam no centro islâmico de Munique 
Em um longo artigo no “Wall Street Jornal”, em 2005, o jornalista e escritor americano Ian Jonhson, após consultas em arquivos oficias nos Estados Unidos, Inglaterra, Suíça e Alemanha, revelou que a cidade de Munique, há várias décadas, era o centro irradiador de uma organização radical denominada Irmandade Muçulmana (Muslim Brotherhood), fundada no Egito em 1928 e banida de seu território em 1954 por Gamal Abdel Nasser (que presidiu o país de 1956 a 1970), pivô de uma tentativa de assassinato mal sucedida. O grupo retornou à legalidade em 2011, após a queda do presidente Hosni Mubarak.
Repórter premiado com o Pulitzer e autor da obra “A Mosque in Munich” (2010), Jonhson usou as pesquisas realizadas para a reportagem “How a Mosque for Ex-Nazis became Center of Radical Islam” (De que maneira uma mesquita para ex-nazistas tornou-se centro do islamismo radical, em tradução livre) como ponto de partida para o desenvolvimento de seu livro. O interesse pelo tema surgiu acidentalmente quando ao entrar em uma livraria em Londres, em 2003, folheou um livro sobre as mais importantes mesquitas do mundo. Ao lado dos templos islâmicos de Meca, Jerusalém e Istambul, aparecia curiosamente o de Munique (na tradução alemã, o livro ganhou o título de ‘A quarta mesquita’).
Jonhson observa que muitos dos acusados de atos terroristas na Europa e nos ataques de 11 de setembro nos Estados Unidos, em algum período de suas vidas transitaram por Munique e pelo seu centro islâmico. Essa intimidade entre a cidade alemã e os muçulmanos, segundo Jonhson, começou à época de Hitler, depois da invasão à União Soviética, quando o regime nazista deu uma guinada das mais espertas transformando um milhão de soldados muçulmanos dos países da Cortina de Ferro, aprisionados em combate, em aliados e amigos do Reich. Inclusive uma dessas brigadas formada por muçulmanos foi destacada para a Polônia, onde teve participação ativa na aniquilação do Gueto de Varsóvia, em 1943.
Depois da guerra, esses combatentes nazistas se instalaram em Munique e acolheram a organização Irmandade Muçulmana de braços abertos, sendo responsáveis pela fundação, em 1958, do Centro Islâmico de Munique. Um ano depois, participantes do Congresso Muçulmano Europeu selaram o pacto de tornar a capital da Baviera um polo de convergência para todos os muçulmanos residentes na Europa. Um dos cléricos mais atuantes do Centro Islâmico de Munique foi Nurredin N. Nammangani, nascido no Uzbakistão e que serviu nas fileiras de Hitler, mais especificamente na temida tropa nazista SS (Schutzstaffel). Durante décadas (faleceu na Turquia em 2002) ele mesclou a religião com antissemitismo em suas prédicas aos milhares de colegiais e universitários muçulmanos de várias partes da Europa. 
Islamismo antissemita tem origens nazistas
Nessa mesma linha de pensamento, o historiador alemão Stefan Meining afirma que o Centro Islâmico de Munique está na base de uma ampla rede que se ramificou silenciosamente pelo resto do mundo, a partir do fim da 2ª Grande Guerra, difundindo um radicalismo a favor da “guerra santa”, que simplesmente não existia antes disso. O encontro da teoria nazista com o fundamentalismo religioso da Irmandade Muçulmana foi o responsável pelo nascimento da figura híbrida e aterradora do terrorismo moderno, uma das grandes tormentas que o mundo ocidental tem enfrentado. “Se você quer entender a estrutura política do Islã, você tem que se debruçar sobre o que aconteceu em Munique”, alerta o historiador. Meining é autor do livro “Eine Moschee in Deutschland” (Uma mesquita na Alemanha), que faz uma ponte entre os nazistas e a ascensão do islamismo político no Ocidente.
Outro estudioso alemão, o cientista político e professor universitário Matthias Kuntzel, também relaciona a Irmandade Muçulmana com as ideologias extremistas da jihad (guerra santa) dos grupos Fatah, Hamas, Hezbollah, al-Qaeda e do atual Estado Islâmico (EI). No ensaio “Islamic Antisemitism and its Nazi Roots” (O Islamismo antissemita e as suas origens nazistas), Kuntzel destaca que até 1930 a ideologia islâmica tradicional não pregava o ódio aos judeus e nem falava em guerra santa. Posteriormente, a doutrina absorveu o marketing da propaganda nazista e antissemita europeia e recebeu o apoio financeiro e estratégico de Hitler, que financiou as lideranças islâmicas ligadas à Irmandade Muçulmana a promoverem atos de perseguição e violência contra os judeus no Egito e na Palestina sob o Mandato Britânico. Kuntzel reuniu suas pesquisas no livro “Jihad and Jew-Hatred: Islamism, Nazism and the Roots of 9/11” (Jihad e o ódio aos judeus: o islamismo, o nazismo e as raízes do 9/11), publicado originalmente em alemão, em 2002, e traduzido para o inglês em 2007.
Vivendo na cidade portuária de Hamburgo, Kuntzel tinha 17 anos quando aconteceu o ataque terrorista em Munique. Ele conta que este foi um fato que o marcou de tal forma que o obrigou a procurar uma explicação. “Eu era um jovem idealista e queria acreditar no lado bom das pessoas e não entendia como poderia acontecer um massacre daquele em uma Olimpíada.”
Minuto de silêncio negado por quatro décadas
De Munique à Rio-2016, lá se vão mais de 40 anos e dez Jogos nas cidades-sede de Montreal (1976), Moscou (1980), Los Angeles (1984), Seul (1988), Barcelona (1992), Atlanta (1996), Sydney (2000), Atenas (2004), Pequim (2008) e Londres (2012). Durante esse tempo, pedidos foram feitos por familiares dos atletas israelenses para que o COI promovesse um minuto de silêncio na abertura ou no encerramento de uma das Olimpíadas para lembrar as vítimas. Porém, a alegação de que esse tipo de homenagem poderia abalar os atletas ou provocar constrangimento às delegações dos países árabes pontuou as negativas sucessivas emitidas pelo COI.

Mas, para a Olimpíada do Rio – que vai receber 10.500 atletas de 206 países e será vista por mais de 3 bilhões de espectadores ao redor do mundo -  o atual presidente do COI, o alemão e ex-esgrimista olímpico Thomas Bach, parece ter encontrado uma solução diplomática. Ele anunciou que haverá um minuto de silêncio na solenidade de encerramento dos Jogos, “para permitir que todos no estádio, bem como aqueles que estão assistindo em casa, lembrem dos entes queridos que já faleceram.” Antes, no dia 14, em parceria com o Comitê Rio-2016, o COI finalmente irá homenagear os 11 atletas mortos em uma cerimônia na Vila Olímpica da Barra da Tijuca, sinalizando um considerável diferencial de humanismo, generosidade, tolerância e boa vontade que já distingue a Rio-2016 antes mesmo de seu início, das demais Olimpíadas, e em especial da de Munique com a sua terrível história de fanatismo e barbárie.