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sexta-feira, 16 de junho de 2017

Portugal se reencontra com seu passado judaico

Artigos recentes  na imprensa portuguesa atestam a substancial mudança de parâmetros históricos em relação ao passado de Portugal. Estudiosos, professores universitários e intelectuais em geral, com o apoio dos órgãos governamentais, estão pondo à luz uma história subterrânea, oculta e mal contada que afetou milhões de pessoas ao longo dos séculos.

Presidente de Portugal 
Por Sheila Sacks

Mais de quinhentos anos após os judeus serem expulsos de Portugal, o presidente Rebelo de Sousa admite que tal fato foi um “erro histórico” que, ao longo dos séculos, se mostrou desfavorável ao país. “Com a saída dos judeus, Portugal perdeu em termos culturais, científicos, econômicos e financeiros”, observou o primeiro mandatário português aos jornalistas presentes em uma exposição sobre a presença judaica em território lusitano, ocorrida entre 20 de março e 29 de abril deste ano.

Instalada no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, a exposição “Heranças e Vivências Judaicas em Portugal” foi organizada pela “Rede de Judiarias de Portugal – Rotas de Sefarad” (nome hebraico para a Península Ibérica), uma associação público-privada fundada em 2011, com sede em Belmonte, e que atualmente congrega 37 municípios portugueses. Cidades populosas como Lisboa e Porto também fazem parte da Rede que iniciou, em maio, um périplo pelo país levando a exposição para todas as localidades incluídas no projeto, a começar por Bragança, na região de Trás-os-Montes, no norte de Portugal.

Em paralelo, uma réplica da exposição também foi mostrada em Oslo, no Centro de Estudos do Holocausto e minorias religiosas (HL- Senreret), com o apoio da organização Eea Grants, que reúne a Noruega, Islândia e Liechtenstein em um comitê econômico para subvencionar programas sociais, culturais e esportivos em 16 países da Europa. A apresentação teve a finalidade de divulgar a vivência e o legado dos judeus sefarditas em diversas áreas na história de Portugal. Atualmente residem em Portugal três mil judeus, majoritariamente em Lisboa, Porto e Belmonte.

 Herança judaica

Eleito em março de 2016, Marcelo Rebelo de Souza, 68 anos, foi deputado pelo Partido Social Democrata (PSD) e ministro de Assuntos Parlamentares. Jurista e catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa, ele também foi comentarista político de TV. Na conversa com jornalistas, Rebelo de Souza enfatizou o mérito de resgatar a herança judaica portuguesa. “Há muitos portugueses que não têm a noção de que antes de haver Portugal já havia comunidades judaicas fortes no território que viria a ser o nosso país. E não têm a noção da importância dessas comunidades”, afirmou.

Segundo o presidente, os judeus perseguidos que saíram de Portugal foram para outros pontos da Europa e principalmente para os Estados Unidos e demais países do continente americano. A exposição, a seu ver, permite perceber o tamanho dessa perda em termos de capital humano e também compreender o impacto desse dano. ”Nós perdemos aquilo que outras sociedades ganharam, ainda que a presença judaica em Portugal, em parte, continuou, de forma escondida, dissimulada, por detrás da aparente conversão ao cristianismo”, avaliou.

Sinagoga em Belmonte
Nos últimos anos o governo português tem apoiado o empenho de alguns setores da sociedade para resgatar a herança judaica sefardita (judeus originários da Península Ibérica, basicamente de Portugal e Espanha). Criada com essa finalidade, a “Rede de Judiarias de Portugal” vem trabalhando, há seis anos, com o objetivo de valorizar o patrimônio cultural e histórico judaico, entendido como um forte componente formador da identidade portuguesa e peninsular. De acordo com o site da organização, a contribuição dos judeus portugueses para a história do mundo foi enorme: “Desde a ciência náutica, que há mais de 500 anos deu ao país um avanço decisivo para o início da globalização, à evolução da economia mundial e da medicina, setores em que o papel dos sefarditas nacionais se tornou preponderante.”

Sobre esse incremento à ciência náutica, estudiosos sustentam que Pedro Álvares Cabral (1467-1520), nascido em Belmonte, e Cristóvão Colombo (1451-1506), que para alguns historiadores é português da região do Alentejo, seriam descendentes de judeus sefarditas e suas tripulações que aportaram no novo mundo seriam formadas por cripto-judeus.

Os judeus sefarditas têm costumes e ritos próprios – inclusive um idioma, o ladino, mistura de palavras hebraicas com o português, espanhol, árabe e catalão - diferentes dos judeus asquenazim, mais numerosos, oriundos de países da Europa Central e Oriental, como a Alemanha, Áustria, Rússia, Polônia e outros.

Turismo cultural

Museu Judaico em Belmonte
Além da busca pelo passado histórico, a Rede vem se dedicando ao incremento do turismo judaico em Portugal. O presidente da organização, António Dias Rocha, que também preside a Câmara Municipal de Belmonte, esteve em fevereiro em Tel Aviv, ao lado de empresários portugueses, participando da Feira Internacional de Turismo do Mediterrâneo. Na ocasião, ele reforçou o papel da Rede no nicho de oferta de turismo cultural que no caso específico de Portugal tem a herança judaica como um dos seus mais significativos e interessantes atrativos.

A localidade de Belmonte, sede nacional da Rede e berço do navegante Pedro Álvares Cabral, é considerada a única vila da Península Ibérica onde a organização comunitária judaica se manteve de forma secreta ou discreta, desde o decreto de expulsão de 1496, atravessando todo o período da inquisição (de 1536 a 1821) e chegando até os nossos dias. Situada a 300 quilômetros de Lisboa, na região central de Portugal, Belmonte tem cerca de 3.500 habitantes, cem deles judeus. Reconhecida oficialmente em 1989, a comunidade tem uma sinagoga, a “Beit Eliahu”, inaugurada em 1996; um cemitério judaico, aberto em 2001; e o Museu Judaico, o primeiro a ser inaugurado no país, em 2005. O prédio, que recentemente foi reformado, abriga mais de uma centena de peças religiosas e retrata a história da presença sefardita em Portugal, usos e costumes, e um memorial sobre a Inquisição.

 Produtos casher

Representante da organização “Shavei Israel” (Retorno a Israel), o rabino Elisha Salas, 59 anos, da comunidade judaica de Belmonte, elogia o trabalho da Rede que considera fundamental para difundir os 500 anos de história da presença judaica em Portugal. “É necessário desenterrar a história judaica, levá-la às pessoas e expor a riqueza que se encontra escondida no território português”, enfatiza. Com sede em Jerusalém, a “Shavei Israel” se dedica a resgatar os chamados “judeus perdidos”,  em referência aos judeus convertidos à força ao cristianismo à época da Inquisição.

 De origem chilena e descendente de judeus sefarditas, o rabino Salas está em Belmonte desde 2009 e tem incentivado a elaboração de produtos casher (do hebraico ‘correto’),  alimentos que são produzidos de acordo com as leis judaicas em relação ao abate de animais, à proibição de ingestão de carne suína e à mistura de laticínios com carne. Ele afirma que já existem restaurantes que servem comida conforme os rígidos preceitos judaicos de alimentação. “Desloquei-me aos locais para ensinar e ter a certeza de que a comida é confeccionada mediante as nossas regras e certifiquei esses restaurantes. Atualmente existem produtos como queijos, compotas, carnes, bebidas e vinhos que podem ser adquiridos com o selo casher”, reforça.

Antes de se fixar em Belmonte, o líder judaico ficou à frente da Sinagoga do Porto, de 2004 a 2007. Membro do Conselho Consultivo da Rede – ao lado de nomes importantes no cenário cultural português, como o escritor americano Richard Zymler, residente no Porto, autor do best-seller “O Último Cabalista de Lisboa”, e Jorge Martins, historiador, escritor e diretor da coleção de livros “Sefarad”  -  o rabino Salas, em 2015, solicitou a naturalidade portuguesa em função da regulamentação da lei  que possibilita essa concessão a descendentes de judeus sefarditas expulsos de Portugal.

Memorial em Lisboa
Desculpas oficiais

No início de 2015, o governo português aprovou as novas regras para a atribuição da nacionalidade portuguesa por naturalização aos descendentes de judeus sefarditas expulsos do país há mais de 500 anos.  Na ocasião, a então ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, afirmou que a nova lei era a “atribuição de um direito”, reconhecendo que judeus viveram na região muito antes de o reino português ter sido fundado no século 12.

 Promulgado pelo presidente à época, Aníbal Cavaco Silva, o Decreto-Lei nº 30-A/2015 foi publicado no Diário da República em de 27 de fevereiro de 2015, e entrou em vigor em 1º de março. Antes, pedidos públicos de desculpas aos judeus pela Inquisição, perseguições e mortes foram oficializados em 1988 e 2000 pelo ex-presidente Mário Soares (falecido em janeiro deste ano) e pelo patriarca de Lisboa, D.José Policarpo (1936-2014),respectivamente.

Em 2008, um memorial em forma de uma estrela de David foi inaugurado em frente à tradicional igreja de São Domingos, uma construção do século 13 localizada na praça do Rossio, no centro de Lisboa, para lembrar uma das mais trágicas páginas da história dos judeus em Portugal: o genocídio de mais de 2 mil  “cristãos-novos” (judeus convertidos à força, a partir de 1496, por édito do rei D.Manuel I),  iniciado no domingo de Páscoa e que ficou conhecido como o  massacre (pogrom) de Lisboa. Durante três dias, frades dominicanos incitaram os moradores da cidade a matar e queimar os conversos (alguns historiadores afirmam que foram mortas 4 mil pessoas) considerados “eternamente judeus” pela maioria da população. A inscrição na escultura lembra a chacina: “Em memória dos milhares de judeus, vítimas da intolerância e do fanatismo religioso, assassinados no massacre iniciado a 19 de abril de 1506, neste largo.”

 Conversão forçada

Sinagoga de Lisboa
Remanescentes de uma próspera comunidade que por volta de 1490 chegaria a 30 mil pessoas e que após a chegada dos judeus expulsos da Espanha, em 1492, somou perto de 120 mil, essa considerável população judaica, quatro anos depois, foi obrigada a se sujeitar à conversão forçada ao cristianismo ou sair definitivamente de Portugal, por imposição real. A matança da Páscoa, em 1506, acelerou essa fuga e aqueles que permaneceram tiveram que encarar, trinta anos depois, a intolerância e a violência da Inquisição, que levou às fogueiras pelo menos duas mil pessoas, a maioria de judeus convertidos.

Atualmente, muitos portugueses estão redescobrindo as suas raízes judaicas, salienta Gabriel Steinhardt, presidente da Comunidade Israelita de Lisboa que hoje congrega 300 famílias judaicas. Para ele, à época dos descobrimentos, 10% da população portuguesa, calculada em 1 milhão de pessoas, eram de cripto-judeus, ou seja, judeus que seguiam a sua fé em segredo por medo das perseguições religiosas e ao mesmo tempo publicamente se apresentavam como cristãos, os denominados cristãos-novos. “Este é um fenômeno que influencia a sociedade civil portuguesa até hoje, não havendo na realidade nenhum português que, independentemente da religião que pratique, possa ter a certeza de que não possui uma costela ancestral judaica.”

Assim, muitos portugueses estão descobrindo tradições misteriosas conservadas por avós e bisavós, como, por exemplo, acender velas nas noites de sexta-feira, o ritual da limpeza da casa também nas sextas, e a elaboração do pão achatado cozido todos os anos, por ocasião da primavera na Europa, quando se comemora a Páscoa judaica. Essas e outras lembranças que sobreviveram de um rico passado judaico são o testemunho do grande risco que ao longo dos séculos os cripto-judeus ou anussim (do hebraico ‘forçado’), ou ainda marranos (termo inicialmente pejorativo, talvez advindo de vocábulo peninsular da Idade Média que designava suíno) enfrentaram praticando secretamente o judaísmo.

Sinagoga do Porto
Histórias se contam que os judeus que foram obrigados a deixar Portugal, assim como os judeus da Espanha, levavam consigo a chave da casa na esperança de um dia retornarem ao lar. De geração em geração, essas chaves foram mantidas guardadas em segredo, no exílio, mas a grande maioria se perdeu nas fendas dos séculos.

Atualmente, pouco mais de 3 mil judeus vivem em Portugal. Com a implementação da lei que oferece a cidadania portuguesa aos que demonstrarem por documentos (registros em sinagogas e cemitérios judaicos, títulos de residência, propriedades, testamentos e outros comprovantes de ligação familiar com a comunidade serfadita de origem portuguesa) serem descendentes dos judeus sefarditas que foram expulsos da Península Ibérica no século 15, espera-se que uma nova leva de judeus de várias partes do mundo volte seus olhos para as terras lusas. Pelos cálculos de diversas organizações judaicas existem 3,5 milhões de judeus sefarditas espalhados em dezenas de países.

Nacionalidade para 431 sefarditas

Com base na nova lei de cidadania, o governo português já concedeu a nacionalidade portuguesa a 431 sefarditas (de um total de mais de 3.800 pedidos), sendo que cerca de 63% são provenientes da Turquia (271 cidadãos). O país tem uma comunidade de 16.500 judeus sefarditas e é de lá que surgem 40% da totalidade dos pedidos de cidadania. Em seguida vem Israel e Brasil. Estima-se que no Brasil existam 40 mil judeus sefarditas de uma comunidade que soma 110 mil judeus.

Apesar do interesse das autoridades portuguesas em incrementar esse tipo de imigração, apenas 39 brasileiros preencheram os requisitos necessários para a sua naturalização, entre 2015 e dezembro de 2016, de acordo com ministério da Justiça de Portugal. Em contrapartida, de 2010 a 2016, mais de 87 mil brasileiros conseguiram a cidadania portuguesa, a grande maioria por serem filhos e netos de portugueses.

Por outro lado, existem no Brasil várias comunidades de bnei anussim ( do hebraico ‘filhos de forçados’ ou cristãos descendentes de judeus convertidos à força) espalhadas pelo país, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, que estão tentando se reencontrar com suas raízes judaicas. Segundo estudiosos, até 1660 os anussim eram a totalidade dos portugueses que se estabeleceram na colônia, fugindo da Inquisição. E a sinagoga mais antiga das Américas foi construída em Recife, a “Kahal Zur Israel” (Rocha de Israel), em 1636, no período das invasões holandeses(1624-1654).

Atualmente calcula-se que pelo menos 5 milhões de brasileiros cristãos podem ser descendentes de cripto-judeus e muitos deles têm dificuldade de ingressarem nas comunidades judaicas que se tornaram mais fechadas por conta do antissemitismo que nunca deixou de existir.

Também os sefarditas ingleses já demonstram vontade de obter a cidadania portuguesa depois da decisão do Reino Unido de sair da União Europeia, o chamado “Brexit” (abreviatura de Britain Exit), em 23 de junho de 2016. Segundo o jornal britânico “The Guardian”, o porta-voz da comunidade judaica do Porto, Michael Rothwell, afirmou que nos dois meses subsequentes à votação 400 pessoas consultaram a instituição sobre a possibilidade de obtenção da cidadania para terem um passaporte europeu. O jornal destaca que o interesse dos judeus ingleses por Portugal tem se mostrado maior do que pela Espanha, cuja lei de cidadania de retorno é considerada mais complexa. Para a Federação das Comunidades Judaica da Espanha, um dos motivos seria o fato de Madri exigir testes de conhecimento da língua espanhola dos candidatos, o que não acontece em Portugal.

Algarve
Pacificação com o passado

Em artigo publicado na revista semanal “Visão”, em março deste ano (‘Porque estudar os sefarditas?’), o coordenador da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, em Lisboa, professor Paulo Mendes Pinto, faz uma reflexão sobre a herança sefardita em Portugal e a necessidade de resgatá-la como forma de pacificação com um passado que foi imposto e que se tornou parte da natureza dos portugueses. “A busca pelo conhecimento da história sefardita, o valorizar desse patrimônio e a recuperação e construção de espaços a ela dedicados, é um equacionar da própria identidade nacional”, escreve. “Hoje, sem os constrangimentos do pensamento inquisitorial, libertos para um reencontro que, afinal, é conosco e não com nenhuns ‘outros’”.

Investigador da Cátedra de Estudos Sefarditas “Alberto Benveniste” da Universidade de Lisboa, Mendes Pinto afirma que é preciso “equacionar o que, como coletivo, perdeu-se com a Inquisição e com o desenvolvimento de um catolicismo inquisitorial”. Ele lembra que com a fuga das mais brilhantes mentes e dos possuidores das melhores competências, Portugal perdeu em conhecimento e progresso. Deixou escapar “um passado que também tem, na herança sefardita, o gosto pelo risco, pela descoberta, pelo empreendedorismo, pelo cosmopolitismo e pela cultura.”

Guarda
Mendes Pinto destaca ainda em seu texto que a história dos sefarditas portugueses foi uma “história de medo construída nas cidades, nas vilas e nas aldeias onde o cripto-judaísmo se foi implantando como forma de vida dupla, com o ‘credo na boca’ para provar a qualquer momento que se era bom católico”. Assinala que com as perseguições ao longo do século 15 e com a instalação da Inquisição a sociedade portuguesa “se transformou numa sociedade da denúncia, da mediocridade, do desrespeito pela consciência e da menorização do pensamento e recusa à crítica”.

Mas, hoje, Portugal se apresenta mais aberto para um reencontro com o seu passado e Mendes Pinto acredita que a forma como a sociedade portuguesa vai tratar essa memória e passado é que irá definir o seu presente e o futuro como nação. Nesse ambiente propício a uma aproximação e apaziguamento de questões históricas e religiosas, um projeto de museu judaico toma forma no tradicional bairro de Alfama, em Lisboa.

Contando com doações internacionais e o apoio da municipalidade, o Museu Judaico de Lisboa será instalado no Largo de São Miguel, coração de Alfama, um local considerado de forte simbologia pela comunidade judaica portuguesa porque lá existiu uma “judiaria” e uma sinagoga. O fato provocou questionamentos por parte de associações de proteção ao Patrimônio que temiam a descaracterização do lugar onde está situada a Igreja de São Miguel, classificada como patrimônio cultural de Portugal, e de prédios antigos construídos antes do terremoto de 1755 que destruiu grande parte da cidade. Mas a Câmara de Lisboa julgou, por unanimidade, que o projeto arquitetônico do museu não coloca em risco o caráter e a autenticidade do histórico largo de São Miguel e que a construção dos dois edifícios que vão compor o museu cumpre toda a legislação em vigor.

O Museu Judaico de Lisboa terá um custo de 2,9 milhões de euros e será gerido pela Associação de Turismo de Lisboa. O objetivo central é contar a história dos 800 anos de presença judaica em Portugal. A idealizadora do programa pedagógico do museu, Esther Mucznik, diz que o local funcionará como um centro de recolhimento, preservação e divulgação do patrimônio material e imaterial judaico-português. Fundadora da Associação Portuguesa de Estudos Judaicos e membro da Comissão Nacional de Liberdade Religiosa, Mucznik foi vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa (CIL), de 2002 a 2016, e é autora de vários livros sobre a temática judaica, como “Grácia Nasi, a judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino” (2010) e  “Portugueses no Holocausto (2012).

Sobrenomes sefarditas

No texto do decreto de nacionalidade emitido pelo ministério da Justiça estão listados uma centena de sobrenomes (apelidos) portugueses sefarditas, com a ressalva que muitos já se encontram misturados com sobrenomes “castelhanos”.  Sabendo-se também que a simples comprovação do sobrenome não é suficiente para a entrada com o pedido de cidadania. É preciso incluir dados complementares, cabendo às Comunidades Israelitas de Lisboa e do Porto a emissão do documento de confirmação da ascendência sefardita no processo de naturalização.

Eis a lista dos sobrenomes sefarditas citados no decreto: Abrantes, Aguilar, Almeida, Álvares, Amorim, Andrade, Avelar, Azevedo, Barros, Basto, Belmonte, Brandão, Bravo, Brito, Bueno, Cáceres, Caetano, Campos, Cardoso, Carneiro, Carvajal, Carvalho, Castro, Crespo, Coutinho, Cruz, Dias, Dourado, Duarte, Elias, Estrela, Ferreira, Fonseca, Franco, Furtado, Gaiola, Gato, Gomes, Gonçalves, Gouveia, Granjo, Guerreiro, Henriques, Josué, Lara, Leão, Leiria, Lemos, Lobo, Lombroso, Lousada, Lopes, Macias, Machado, Machorro, Martins, Marques, Mascarenhas, Mattos, Meira, Melo e Prado, Mello e Canto, Mendes, Mendes da Costa, Mesquita, Miranda, Montesino, Morão, Moreno, Morões, Mota, Moucada, Negro, Neto, Nunes, Oliveira, Osório (ou Ozório), Paiva, Pardo, Pereira, Pessoa, Pilão, Pina, Pinheiro, Pinto, Pimentel, Pizarro, Preto, Querido, Rei, Ribeiro, Rodrigues, Rosa, Sarmento, Salvador, Silva, Soares, Souza, Teixeira, Teles, Torres, Vaz, Vargas e Viana.

Por último, mais um dado histórico para reforçar o apreço e a solidariedade aos bnei anussim brasileiros. Por força da Inquisição que chegou ao Brasil a partir de 1579, foram levados presos aos Autos da Fé em Lisboa 400 cristãos-novos acusados de judaizantes. Destes, 20 foram executados, 18 degolados e queimados e dois colocados vivos nas fogueiras. Um passado que feriu a ferro e fogo centenas de famílias brasileiras perseguidas pela intolerância religiosa, cujos descendentes, aos milhares, nem imaginam o terror e o sofrimento que permearam a vida de seus antepassados, desconhecendo, ainda, a rica herança cultural que eles trouxeram e que acabou se perdendo, lamentavelmente, pelos caminhos do tempo.
  

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Desmatamento avança sobre as florestas brasileiras


Pesquisas de órgãos ambientais divulgadas pela imprensa nos dias 29 e 30 de maio dão conta de que a Mata Atlântica sofreu um brutal desmatamento entre 2015 e 2016, atingindo a marca de 291 quilômetros quadrados, o equivalente a mais de 29 mil campos de futebol. A perda é 57% maior do que a registrada no biênio 2014-2015. Os números foram apresentados pela Fundação SOS Mata Atlântica em parceria com o Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Presente no Rio de Janeiro e em mais 16 estados brasileiros, a Mata Atlântica já ocupou mais de 1 milhão de quilômetros quadrados ao longo da costa nacional. Hoje restam pouco menos de 12% da cobertura original. Ainda assim, um tesouro de biodiversidade em matéria de vegetação e de espécies animais. Bahia, Minas Gerais, Paraná e Piauí lideram a lista onde o desmatamento foi mais intenso, com florestas nativas queimadas, retirada ilegal de madeira e limpeza das áreas para a implantação de atividades de pecuária, cultivo de grãos, plantio de eucaliptos e até produção de carvão. Acrescentam-se a essas intervenções predatórias, a expansão urbana desordenada e a industrialização.

É preciso lembrar que a Mata Atlântica tem mais de 20 mil espécies vegetais, um patrimônio biológico e genético maior do que o da Europa (12.500 espécies) e da América do Norte (17 mil).  Em relação à fauna, este bioma abriga 992 espécies de aves, 370 espécies de anfíbios, 200 espécies de répteis, 298 de mamíferos e cerca de 350 espécies de peixes. Um privilegiado repositório biológico e genético que merece a atenção e a mobilização de todos na salvaguarda de nossa legislação de proteção ambiental, que vem sendo atropelada por mudanças no Código Florestal, pela reversão e afrouxamento na emissão de licenças ambientais e pela redução de unidades de conservação.

Vale o alerta e a pressão da sociedade em relação ao tema, visto que a bancada ruralista, nas eleições de 2014, aumentou seu poder de fogo e hoje conta com 263 dos 531 dos deputados federais, 51% dos parlamentares da Câmara. No Senado, dos 81 senadores, 32 são ligados ao setor da agropecuária.

Berçário ecológico

O Brasil é um país de proporções continentais: seus 8,5 milhões de quilômetros quadrados ocupam quase a metade da América do Sul e abarcam várias zonas climáticas, como o trópico úmido no Norte, o semiárido no Nordeste e áreas temperadas no Sul. 

Além da Mata Atlântica, o país possui o maior ecossistema tropical do planeta: a floresta amazônica. Ao lado de outros biomas nacionais como o Cerrado, Caatinga, Pantanal mato-grossense, Pampa e Zona costeiro-marinha, o Brasil concentra, dentro de seu território, a maior biodiversidade de flora e fauna da terra. Somente na floresta amazônica são mais de 103.870 espécies animais, 43.020 espécies vegetais, 1.300 pássaros e milhões de insetos cadastrados pela ciência.  A metade das espécies terrestres está na Amazônia.

Ocupando 49% do território brasileiro, com 4,2 milhões de quilômetros quadrados - de um total de mais de 5,5 milhões que se estendem pela Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Suriname (antiga Guiana holandesa), Guiana (antiga Guiana Inglesa) e Guiana Francesa – a floresta amazônica tem quase o tamanho da Austrália, é maior do que a Europa Ocidental e quase tão grande quanto os EUA. No Brasil, esse bioma cobre nove estados brasileiros, a saber: Amazonas, Pará, Mato Grosso, Acre, Rondônia, Roraima, Amapá, parte do Tocantins e parte do Maranhão.

Sua bacia hidrográfica é a maior do mundo. O rio Amazonas, com mais de 1.100 afluentes, se estende por 6,8 mil quilômetros de extensão, a mesma distância que separa a cidade de Nova Iorque da capital alemã Berlim. É o maior rio em volume de água e o segundo mais longo do mundo, depois do Nilo, no Egito. Tem 25 mil quilômetros de águas navegáveis e às suas margens vivem 24 milhões de pessoas, incluindo 342 mil indígenas de 180 etnias distintas.

Nunca é demais lembrar que as florestas naturais são fundamentais para a produção e o abastecimento de água e a proteção do solo, contribuindo também para a proteção das encostas e para a regulação climática.

 Danos ambientais

De posse desse tesouro planetário, cabe ao Brasil a nem sempre fácil tarefa de cuidar de sua preservação ambiental. Infelizmente, também a floresta amazônica sofreu sensível dano entre 2015 e 2016, com o desmatamento de 7,9 mil quilômetros quadrados de sua vegetação, um aumento de 29% em relação a 2014. A perda equivale a uma área 135 vezes maior do que Manhattan, no condado de Nova Iorque. Em termos de emissão de gases de efeito estufa na atmosfera, a estimativa é de que esse desmatamento tenha liberado 586 milhões de toneladas de dióxido de carbono, a mesma quantidade que a frota de automóveis do país, calculada em 50 milhões, emite em 8 anos.

Segundo a ONG Greenpeace, o aumento da devastação das florestas brasileiras tem ocorrido, entre outras causas, pelas continuadas anistias que o governo sinaliza para aqueles que desmatam ilegalmente; a falta de incentivo à criação de novas unidades de conservação ambiental e de proteção aos povos indígenas; e a força da bancada ruralista no Congresso. As queimadas e a limpeza dos terrenos para a expansão da pecuária estão convertendo as florestas em pastos. O Pará já detém o terceiro maior rebanho do país, e Mato Grosso, com 29 milhões de cabeças de gado, é líder na pecuária e na produção de soja. O Greenpeace também alerta para a expansão da pecuária no sul do estado do Amazonas.

Em entrevista ao jornal “Folha de São Paulo”, no início do ano, o presidente de uma multinacional de máquinas agrícolas, Carlo Lambro, de origem italiana, analisando o setor de agronegócio brasileiro, manifestou sua surpresa com o tamanho das propriedades rurais. “Há fazendas no Brasil que são grandes como uma região da Itália. Milhares de hectares, imagine.” A observação vai ao encontro de um dado, no mínimo indecoroso em relação à desigualdade fundiária, já apontado pela ONG Oxfam Brasil, ligada à Universidade britânica de Oxford, em 2016. De acordo com a organização, menos de 1% dos grandes proprietários concentram 45% de toda a área rural brasileira.

Listado em 2015 como o sétimo país mais poluidor do planeta pelo “World Resources Institute” (WRI Brasil), as emissões no Brasil - ao contrário da China, EUA e União Europeia, que lideram o ranking e têm na matriz energética sua principal fonte de gases poluentes - estão divididas igualitariamente entre os setores de energia, agricultura, indústria e resíduos.

Um quadro deveras desolador que pouco combina com a retórica diplomática da chancelaria brasileira expressa em um comunicado emitido após a decisão do presidente americano Donald Trump de retirar os EUA do Acordo de Paris, em 1º de junho. O documento enfatiza o compromisso do Brasil na implementação de programas de redução de gases de efeito estufa e manifesta “profunda preocupação e decepção” pela atitude de Trump. Afirma, também, que “o combate à mudança do clima é um processo irreversível, inadiável e compatível com o crescimento econômico”, e que o governo brasileiro está “comprometido” com as diretrizes de Pacto de Paris, firmado por 195 países, em dezembro de 2015.

domingo, 7 de maio de 2017

Anos de chumbo inspiram obras literárias, filmes e séries de TV.

Do livro “Escritos revelados”, de 2009, uma pequena história de encontros e desencontros ocorridos ao longo de mais de três décadas. Semelhanças com fatos e personagens descritos são meras coincidências.

Araguaia, meu amor
Por Sheila Sacks
(conto vencedor do Concurso literário Moacyr Scliar 2009, do Centro Cultural Mordechai Anilevitch do Rio de Janeiro )

O e-mail dizia pouco: “Cara Aniela. Foi bom revê-la. Me perdoe os dez anos de silêncio. Lino.” O homem de tez morena, cabelo grisalho e porte atlético fechou o notebook. A mensagem o remetia a um tempo que teimava em voltar nos momentos mais inoportunos. Em poucas horas estaria com a família no casamento da sobrinha, na aprazível costa espanhola. Tão diferente e tão longe daquelas matas molhadas e do chão de barro de Xambioá. Uma vila sertaneja, nos idos de 1974, que na semana do carnaval mudava de humor e de roupa, em animados bailes e blocos de rua.

E foi naqueles dias perdidos no tempo que o tenente Lino conheceu Aniela, menina de 17 anos, franzina, cabelo escorrido, rosto de anjo, gestos delicados e voz baixa. Ela chegara à localidade para passar o carnaval com os avós, o seu Zé e dona Maria, donos do armazém-bar que vendia fiado para o povo da região. Tenente Lino tinha 30 anos e estava noivo de uma professora no Rio de Janeiro. Mas ficou fascinado por Aniela logo que a viu. Os avós tentaram escondê-la, mas o tenente ia ao armazém várias vezes ao dia e se convidou para jantar na casa do seu Zé na terça-feira de carnaval.

Por sua vez Aniela também não conseguia esconder a atração que sentia pelo tenente. Conversavam no balcão do armazém e na varanda da casa sob os olhares preocupados de seu Zé e dona Maria. Finda a semana, Aniela partiu e o tenente deixou com ela um número de telefone. Esperou semanas, meses, pela ligação. Entretanto, isso jamais ocorreu.

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Em Jerusalém a noite quente e abafada levou Aniela a abrir a janela. Em pé olhava o céu escuro, sem estrelas, que ameaçava desabar em sua cabeça. Há pouco havia recebido a mensagem do general em meio a um repentino mal-estar. A ansiedade que vez ou outra comprimia seu peito como uma dura couraça mostrou as garras e a fez ofegar. Lembrou do evento, há quase dez anos, no limiar do século 21, e do homem empertigado a sua frente, meia-idade, rosto magro, com sulcos profundos na testa e na face. A intensidade daquele olhar não deixava dúvidas quanto a descoberta. Por um momento Aniela sentiu vergonha dos cabelos tingidos e da maquiagem esmerada. Em um gesto mecânico de cumprimento suas mãos se tocaram e antes que alguma conversa pudesse ser iniciada ela pediu licença e se afastou.

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No amplo salão da representação diplomática o grupo de militares se despedia de seus anfitriões após alguns dias de visita à feira de armamentos em Tel Aviv. O chefe da delegação, um austero coronel do exército, mostrava-se impaciente desde que a assessora de um dos adidos sul-americanos presentes à recepção passou por ele apressada. A mulher esplêndida, de pernas bem torneadas e vestido justo orientava os garçons, do outro lado da sala. Pouco antes, ao ser apresentada ao coronel, ela pareceu constrangida e não conversou. Apartou-se do grupo e desapareceu por um das portas do salão. Agora o militar percebia que ela vinha em sua direção e estranhamente a vista começou a embaçar. Embaralhando sentidos e sentimentos se deu conta que Aniela sorria, rosto de menina, pés soltos nas gastas sandálias japonesas, cabelos escorridos em um mal-amarrado rabo-de-cavalo. Respirou fundo e sentiu um fio de suor resvalar pela nuca. Bem perto, seus corpos quase se tocando, ela estendeu um papelzinho dobrado. Surpreso, magoado, desamparado, não se conteve e sussurrou: Aniela do Araguaia.

4

Estudar no colégio Pedro II deu a Aniela Rubinstein uma outra visão do mundo. Filha de uma chapeleira da comunidade judaica do Rio, ela e o irmão viviam meio que apartados de sua origem. Dona Eva, mãe de Aniela, evitava falar do passado. Dos pais, avós, irmãos e tios reduzidos a cinzas nos crematórios da Polônia. Escondida no porão da casa da professora de ginásio, Eva sobreviveu por milagre e pode dar à filha o nome de quem a acolheu. Anos depois, no navio norueguês que a transportou para a América do Sul, ela conheceu um violinista do campo de Dachau. Desembarcaram no Rio, casaram e foram morar no Estácio. Mas a tuberculose a deixou viúva e com duas crianças para alimentar.

Assim, quando Wilsão pediu a Aniela para que o ajudasse naquela missão, a resposta veio imediata. Sua idolatria juvenil por Che e Fidel e o gosto pela aventura levaram Aniela a mentir. Contou para a mãe que iria trabalhar como monitora em uma colônia de férias em Sacra Família e partiu para a região do Araguaia.

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Sob o codinome Selma foi apresentada ao seu Zé e dona Maria, donos de uma vendinha naquele fim de mundo. Trazia um documento em linguagem cifrada para ser entregue ao grupo que lutava na selva. O trato era ficar alguns dias na casa do comerciante, aguardando a resposta, e depois sumir. Porém o tenente bonitão do destacamento da região não arredava o pé das redondezas do balcão. Puxava conversa com Selma a troco de nada. Ao seu Zé elogiou a beleza e a doçura de Selma, sendo informado que a jovem era a tal neta do Espírito Santo que chegou de surpresa para visitá-lo. Uma noite, o tenente apareceu na hora do jantar. A casa ficava nos fundos do armazém e quando a figura alta, fardada, assomou na varanda, todos engoliram em seco. Mas, sorridente, o tenente pediu licença para participar da janta, pegou o banquinho na cozinha e se sentou ao lado de Selma. Nestas alturas, os dois já estavam apaixonados.


Em cinco dias veio a resposta e Selma foi embora. Horas antes, o tenente deu um número de telefone e pediu para que Selma ligasse. Estaria no Rio em seis meses para uma licença. Selma prometeu telefonar. Na despedida chorou ao abraçar seu Zé e dona Maria. Semanas depois, em conversa com Wilsão em uma rua da Tijuca vem a saber da morte do casal de Xambioá, encontrado amordaçado e com tiros na cabeça. Preocupado, Wilsão diz que vai fugir do país e aconselha Aniela a fazer o mesmo.

6

A ordem superior era poupar os adolescentes. O tenente Lino pediu a seu informante para que seguisse os passos de Aniela no Rio. Após trinta dias, chegou o primeiro relatório: “A pessoa em questão pertence a um grupo de judeus que usam camisas de brim azul e se reúnem em uma casa de Botafogo. Fiz amizade com o vigia e soube que são comunas, mas não atuam no Brasil. Todo ano um punhado deles vai embora para a Palestina, para viver e trabalhar em fazendas coletivas, iguais às da Cortina de Ferro. A pessoa investigada também vai deixar o país. Em anexo estão as fotocópias dos passaportes dos comunas que vão viajar no meio do ano.”

O tenente leu duas vezes o documento com selo de confidencial antes de guardá-lo no cofre. Sentia-se traído pelos sentimentos. No fundo da alma tinha a convicção de que Aniela o amava e que iria telefonar. Esperava vê-la no Rio e talvez, com o tempo, abrir o jogo. Contar que sabia de sua missão e de sua falsa identidade. Explicar a bobagem em que se meteu por pura infantilidade.

Os dois meses seguintes foram difíceis para o tenente. Infectado pela malária teve que ser hospitalizado em Belém. De volta ao destacamento, um novo relatório com carimbo de urgente já o esperava. Leu avidamente o seu conteúdo, da primeira à última palavra: “Pegamos o Wilsão... e finalizando, os comunas judeus estão de partida. Preciso de uma diretriz. Quais são as ordens, tenente?”.
No dia seguinte, após uma noite mal-dormida, o tenente despachava a resposta: “Trabalho encerrado.”

7

O casamento da sobrinha na igrejinha medieval fez a esposa do general chorar. Padrinhos dos noivos, o enlace pegou a família de surpresa. Estudante de artes em Paris, a jovem namorava um colega espanhol. A gravidez inesperada acelerou a decisão de ambos de casar e conhecer a Malásia.

Depois da cerimônia, o general seguiu para a boate onde os recém-casados foram saudados por amigos alegres e poliglotas. O som vibrante da música empurrou os convidados para o centro da pista. O general, no canto do bar, imaginou Aniela lendo o e-mail. Talvez em Tel Aviv, Jerusalém ou qualquer outra cidade daquela terra estrangeira. Sentiu uma vontade incontrolável de fumar. Na parafernália eletrônica de cores e ruídos ao seu redor, o general só ouvia mesmo o grito da angústia e da solidão que o mantinham cativo em suas teias satânicas. Pôs uma pastilha de hortelã na boca e saiu da boate. Lá dentro, a música do final da década de 1970 explodia estridente, repetindo-se em um coro de vozes cambaleantes: Please don’t go, don’t go, don’t go away, please don’t go, don’t go...

8

Amanhecia em Jerusalém e Aniela entrou na sala de trabalho entulhada de folhetos, cartazes e recortes de jornais. Na parede, a folhinha estampava o ano 2009 em relevo. Estava sozinha e resolveu responder ao general: “Certos encontros, ainda que breves, sobrevivem ao tempo e a lógica. Tive a certeza disso na festa do consulado. Compreendi que a minha vida sempre esteve em suas mãos, general Lino Sotero. No Araguaia, quando não me executou. No Rio, quando permitiu a minha partida. Em Tel Aviv, quando percebi tudo isso. De alguma forma devo a você a minha história.
Yafa Navon, da ONG World No Wars – Mundo sem Guerras.
P.S. Ainda guardo o número de telefone. Que bobagem!

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Comunidades Judaicas: Para onde vamos?

Por Sheila Sacks

Parece sina! Depois da tragédia do Holocausto promovida pelo nacionalismo alemão da extrema-direita  representado pelo partido Nazi  ( “Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei” – NSDAP), na tradução “Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães”,  agora é a vez da esquerda radical e raivosa atacar os judeus e o Estado de Israel associando-se a movimentos como o BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) e aderindo a manifestações ditas antissionistas generosamente acolhidas no largo balaio de cacarecos em que se transformou a política de defesa pelos direitos humanos.

Atordoadas, as comunidades judaicas em todo o mundo tentam se equilibrar nessa corda bamba de falsas intenções, lutando para não afundarem na areia movediça das suspeições e das dirigidas cobranças éticas lançadas pelas sociedades onde vivem, ora de forma direta ora sub-repticiamente, em suas atividades sociais e de cidadania.

Caminhando sobre ovos, os judeus têm consciência de que é preciso conciliar, de forma madura e pragmática, mas sem se abster de suas individualidades ou ceder ao patrulhamento ideológico, a defesa das ações de Israel com as opiniões e ações populistas de partidos políticos, das elites culturais, dos sindicatos e da mídia impositiva que atuam em seus países de origem, onde vivem e trabalham. Uma tarefa nada fácil visto que os partidos de esquerda, mais tagarelas e barulhentos frequentemente canalizam as aspirações da grande parcela da população através de uma mídia digital atuante e engajada, encantando principalmente os jovens, os intelectuais e os pretensamente informados em sua busca pela justiça social.

Assim, com esse cabedal de bons propósitos, cabe agora aos partidos de esquerda, principalmente na América Latina, África e países da Europa Ibérica, fomentar os estereótipos da figura histórica do judeu, sempre ligado ao capital, fazendo crer que aquele que também batalha por uma sociedade mais justa é uma exceção nem sempre bem tolerada pela sua própria comunidade.

A insensatez dessas pessoas as faz ignorar as inúmeras organizações humanitárias judaicas que atuam em dezenas de países voltadas para a educação e a salvaguarda dos direitos básicos dos cidadãos e de suas minorias. Doações individuais e de entidades judaicas sustentam  centros culturais, museus, bibliotecas, universidades, hospitais e programas sociais não judaicos nos seis continentes.

A marca do judaísmo contemporâneo tem sido a diversidade de pensamento em se tratando de política e de cultura laica e essa peculiaridade se manifesta nos países em que habitam e no cerne do Estado de Israel através do livre embate de ideias que são a base e o esteio dos sistemas democráticos. Mas essa multiplicidade não pode ser usada por agentes internos e externos para promover a barafunda e desordenar comunidades minoritárias sem peso populacional para enfrentar lobbies populistas que possam gerar um clima de animosidade, constrangimento e de comprometimento social aos seus membros.  

As comunidades judaicas precisam estar atentas a esses tipos de situações aparentemente casuais em se tratando de outros segmentos da sociedade, mas que no âmbito judaico, devido às continuadas rondas preconceituosas, tendem a introduzir a discórdia e a instabilidade em suas relações

A permanência do povo judeu através dos tempos, malgrado as perseguições, matanças e outras abominações praticadas sob a égide de estados legais e com a anuência das sociedades civis, se deve basicamente a uma sólida base moral e religiosa, na qual, nesses dias de espanto e de exposição desmedida, requer igualmente uma alta dose de reflexão e união. Porque o antissemitismo (leia-se antissionismo contemporâneo), em sua retórica de intolerância, não separa o judeu da direita daquele judeu de esquerda. Ao contrário, se apropria dessa pluralidade para direcionar o seu discurso de ódio mais à vontade, acobertado pelas circunstâncias e oportunidades que surgem.


Copa 2018: jogo entre Espanha e Israel teve blindagem diplomática

Menos de 300 pessoas participaram da passeata de protesto contra Israel convocada por organizações pró-palestinas na cidade espanhola de Gijón, nas Astúrias, local do jogo de futebol entre as seleções da Espanha e de Israel, ocorrido na noite do último 24 de março, uma sexta-feira (shabat).

A manifestação aconteceu horas antes da partida pelas eliminatórias da Copa da Rússia, que foi vencida pelo time espanhol por 4 a 1. Carregando bandeiras e cartazes, os manifestantes se deslocaram em direção ao estádio El Molinón, a maioria empunhando cartões vermelhos em alusão ao tema da passeata: “Tarjeta roja a Israel” (Cartão vermelho para Israel).

Amabilidades

Na manhã do jogo, o embaixador de Israel na Espanha, Daniel Kutner, nascido na Argentina, esteve com a prefeita de Gijón, Carmen Moriyón, e disse esperar uma recepção hospitaleira por parte de seus moradores.

Situada no norte da Espanha, Gijón tem 273 mil habitantes e em janeiro de 2016 sua Câmara Municipal aprovou um boicote institucional ao Estado de Israel, revogado quinze dias antes do jogo, com o apoio do partido de Moriyón. Ao indicar Gijón, no final do ano passado, como sede do jogo entre Espanha e Israel na série de classificação para o Mundial de 2018, a Federação espanhola de Futebol afirmou desconhecer a “peculiar” posição política da cidade em relação ao estado judeu.

Em entrevista ao jornal local “Nueva España”, no dia anterior ao jogo, o diplomata israelense lamentou que Gijón seja conhecida como a cidade espanhola que decidiu pelo boicote a Israel. Mas, disse esperar que a partida entre as duas seleções pudesse ser motivo de celebração e não de manifestações políticas.

Por sua vez, o porta-voz da embaixada de Israel em Madri, Hamutal Rogel, minimizou a situação e afirmou que os jogadores estavam felizes em visitar a Espanha e que “a maioria dos israelenses não estava preocupada com a política espanhola e muito menos com a situação dos partidos políticos locais”.

Em relação ao jogo ser realizado no shabat, Rogel disse que prevaleceu o tom laico do evento e que o embaixador estaria presente no estádio. “O jogo foi organizado pela federação espanhola. É um convite da federação. E a Espanha, como país, seu governo e seu parlamento estão contra o BDS (“Boicote, Desinvestimento e Sanções”, movimento palestino contra Israel).

Segundo reportagem do jornalista Diego Torres, do jornal “El País”,  apenas um terço dos 31 mil lugares do estádio foi ocupado o que representou uma das mais fracas lotações dos últimos anos. Ele observou que os torcedores espanhóis presentes no Molinón estavam tranquilos e a empolgação ficou mesmo por conta da pequena torcida judaica, concentrada em um lado das arquibancadas.


Liga da amizade

Ainda sobre a Espanha, no fim de março uma delegação de parlamentares israelenses esteve no país para marcar os 30 anos do estabelecimento de laços diplomáticos entre os dois países.  No encontro com o ministro de Relações Exteriores, Alfonso Dastis, os deputados ouviram que o governo espanhol se opõe totalmente ao BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) e que tem adotado uma série de medidas legais contra o movimento. Na ocasião foi criada a “Liga Parlamentaria Hispano-Israeli de Amistad” que busca avançar nas políticas de relações comuns mais amistosas entre Espanha e Israel.

 Atualmente 40 cidades espanholas adotam resoluções a favor do boicote, mas em torno de dez já cancelaram esta decisão, seja voluntariamente ou por ordem judicial.

O BDS na Espanha conta com o apoio escancarado do partido de esquerda “Podemos”, que ocupa cinco das 54 cadeiras no Parlamento Europeu. Fundado em 2014 com a participação de intelectuais, ativistas sociais, sindicalistas e personalidades do meio acadêmico e cultural, o partido que é apontado pela organização pró-Israel ACOM (Acción y Comunicación en Oriente Medio) de ter vínculos com o Chavismo e o Irã, de onde recebe fartos recursos, se tornou um fenômeno nas redes sociais e elegeu, em 2015, 48 deputados, 16 senadores e 134 parlamentares em câmaras municipais.

De acordo com o diretor assistente para a mídia em espanhol da organização American Jewish Committee (AJC), o argentino Patricio Abramzon, na prática o boicote na Espanha se traduz na censura a professores universitários, cientistas, estudantes, atletas, artistas e profissionais israelenses não importando quais sejam as suas posições políticas. “O que começou como um movimento marginal, circunscrito ao meio acadêmico, foi se estendendo a outros setores”, ressalta. Abramzon observa também a perversa similaridade que une posições extremistas e sectárias: “O antissemitismo joga pelas pontas. A clássica judeofobia da extrema direita deixou sua marca trágica na história. Contudo, setores da esquerda radical também têm se transformado nos últimos anos em redutos onde imperam o antissemitismo e o ódio visceral aos judeus.”

Entretanto, o trabalho sistemático de organizações como a ACOM que há 15 anos atua nos meios governamentais, inclusive com ações na Justiça, esta virando o jogo na Espanha e obtendo vitórias expressivas contra o BDS. Seu presidente, Angel Mas, é um ativista empenhado na luta a favor do Estado de Israel e contra o antissemitismo moderno que se apresenta travestido de antissionismo. No artigo “La lucha contra el BDS en España” ( “El Medio”, em 22.04.2016), ele lista os objetivos da instituição, as estratégias adotadas e as ações desenvolvidas nos planos político, diplomático e judicial.


Twitter concentra 63% das postagens antissemitas
Pesquisa realizada pela empresa israelense de vigilância “Vigo Social Intelligence”, a pedido do Congresso Mundial Judaico (World Jewish Congress- WJC) – organização internacional que representa comunidades judaicas de 100 países nos seis continentes –, constatou que em 2016 a cada 83 segundos foi postada uma mensagem de cunho antissemita, uma média de 43,6 mensagens por hora, totalizando mais de 382 mil no decorrer do ano.
Desse universo de milhões de mensagens analisadas em 20 idiomas, mais da metade estavam reunidas no Twitter (63%), em blogs (16%), Facebook, Instagram (11%), YouTube (6%) e fóruns (2%). Foram contabilizadas manifestações retóricas  e de incitação de ódio aos judeus e instituições judaicas, sem incluir as postagens de críticas ao Estado de Israel e suas ações.
Comentando o levantamento, o vice-presidente executivo do WJM, Robert R. Singer, considerou o cenário preocupante. “Sabíamos que o antissemitismo nas redes sociais estava em ascensão, mas os números revelados nesse relatório nos forneceu informações de como a situação é realmente alarmante.”
Em tempo: a definição do que se constitui uma postagem antissemita se baseou nas diretrizes da “International Holocaust Remembrance Alliance” (Aliança Internacional para a Recordação do Holocausto - IHRA), instituição fundada em 1998, por iniciativa da Suécia. Atualmente congrega países da Europa e mais os Estados Unidos, Canadá, Argentina e Israel. Sua missão é difundir a lembrança e a pesquisa sobre o Holocausto em programas educacionais nacionais e internacionais. 

 Fontes:
“La Nueva Espanã”  -  "El España-Israel debería ser motivo de celebración y no de manifestaciones político-esotéricas" (Pablo Tuñón), em 23.03.2017
“La Nueva Espanã” – “Gijón lima asperezas con Israel por la visita de su embajador tras el boicot”, em 24.03.2017
 “El País” – “La política enturbia el España – Israel” (Diego Torres), em 24.03.2017
 “El País” -  “La manifestación contra Israel apenas tiene seguimiento en Gijón” (Diego Torres),  em 25.03.2017
“Aurora” – “España declara su oposición al movimiento anti Israel BDS”, em 02.04.2017
“Iton Gadol” – “AJC: Intenta boicotear al fútbol y verás lo que sucede”, em 25.06.2017
 “Unidos con Israel” - “382.000 mensajes antisemitas publicados en los medios sociales en 2016!”, em 26.03.2017