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terça-feira, 30 de janeiro de 2018

O quadro do preconceito e outras notícias

Por Sheila Sacks

Quarenta e oito horas antes da celebração do Dia Internacional do Holocausto (27 de janeiro), o ministro israelense da Educação e Assuntos da Diáspora, Naftali Bennett, chamou a imprensa em Tel Aviv para apresentar uma ferramenta tecnológica capaz de detectar mensagens antissemitas postadas na internet em qualquer lugar do planeta. Desenvolvido em conjunto com o Ministério da Defesa, o Antisemitism Cyber Monitoring System (ACMS) faz o rastreamento e análise dessas manifestações difundidas principalmente nas redes sociais. Para o ministro, o antissemitismo continua vivo, apenas mudou de forma. “Saiu da rua para a web”, atesta.

Durante a exposição, Naftali mostrou um painel com as cidades que mais espalham antissemitismo na web. O monitoramento foi feito no período de teste, que durou 30 dias, sendo percebidas e analisadas 409 mil postagens e tweets digitados por 30 mil internautas. Diariamente eram escaneadas cerca de 200 mil mensagens suspeitas, sendo que desse total  pelo menos 10 mil eram de cunho antissemita.

As cidades de onde mais partiram conteúdo antissemita foram Puebla (México),  Santiago (Chile), Dnipro (Ucrânia)e Bucareste (Romênia). A lista ainda inclui Fortaleza (Brasil) e Buenos Aires (Argentina). Na Europa Ocidental, Paris e Londres foram identificadas como as cidades mais antissemitas da região. A definição de mensagem antissemita tem por base o entendimento adotado pela organização “International Holocaust Remembrance Alliance” (IHRA) que já monitora postagens de intolerância e ódio no Twitter e no Facebook.
(Foto de Alex Traiman, do Jewish News Service - JNS)

Por trás de “O Código da Vinci”

Um dos maiores best-sellers de todos os tempos (80 milhões de exemplares vendidos), “O Código da Vinci” (2003), do americano Dan Brown, tornou-se em 2017 o livro mais indesejado da Inglaterra. Milhares de pessoas estão doando o livro para ONGs, bibliotecas, centros culturais, escolas etc. De tal maneira, que o gerente de uma das instituições agraciadas postou na internet a foto de uma pilha de livros do autor solicitando aos doadores que enviassem outro objeto como forma de ajuda.

A notícia divulgada pelo jornal britânico “The Guardian” mostra o caráter descartável de determinadas obras literárias. Com o agravante de que Brown foi acusado de plágio, mas conseguiu se livrar da Justiça inglesa, em 2006. Mas, é fato que seu livro é uma cópia do tema central da obra “O Santo Graal e a Linhagem Sagrada”, de 1982 (2 milhões de cópias vendidas), dos pesquisadores Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln. Esta, sim, uma leitura fascinante e explosiva, resultado de muitos anos de pesquisa, que revela a “linhagem sagrada” da dinastia merovíngia, a existência de uma sociedade secreta de notáveis e os esforços para resguardar um dos mais sensíveis mitos da humanidade.

Anos antes, os estudiosos já tinham produzido três documentários sobre o tema para a rede de TV BBC. E, em 1991, dois deles, Baigent e Leigh, publicaram outro trabalho investigativo que mereceu a atenção dos leitores: “As intrigas em torno dos Manuscritos do Mar Morto”. Um estudo que narra as dificuldades de pesquisadores e arqueólogos israelenses para tornar públicos os pergaminhos milenares encontrados nas cavernas de Qumran, a 30 quilômetros a leste de Jerusalém, entre 1947 e 1956.

 História incompleta

 Com as fakes news e as meias verdades embaralhando as informações, vale lembrar que há mais de 2 mil anos um escriba desconhecido escreveu: “Não existe nenhum homem capaz de contar a história inteira.” A frase está em um dos Manuscritos do Mar Morto descobertos na década de 1940 no deserto da Galileia.

O antropólogo americano Loren Eiseley (1907 – 1977), autor de  “A Imensa Jornada”, foi mais adiante e viu nessa assertiva a advertência de que o homem é um órfão cósmico de origens incertas e final indefinido, vivendo em eterna busca e ignorante de seu próprio destino. Seu tempo terreno é apenas um pequeno parêntese na eternidade.

Para Eiseley, as novidades científicas reveladas nos estratos da Terra mostram que o homem como o conhecemos não esteve sempre aqui. Foi precedido, nos 4 bilhões de anos da história do planeta, por moluscos flutuantes, estranhas florestas de samambaias, imensos dinossauros, lagartos voadores e mamíferos gigantes cujas histórias fósseis jazem sob placas de gelo continentais.

Da época de nossos ancestrais semi-humanos, mal capazes de falar, à atual era tecnológica das redes virtuais onde as informações se processam incessantemente, a história continua incompleta, sem que o homem saiba a resposta acerca do mais primitivo dos mistérios: Por que estamos aqui?

Conflito na telinha da TV

Acaba de ser lançada em Israel, neste início de 2018, a segunda temporada do seriado “Fauda” (Caos, em árabe), cuja primeira temporada alcançou altos índices de audiência. Uma campanha publicitária agressiva, com painéis escritos em árabe ( do tipo ‘Prepara-se, o caos está prestes a começar e a caminho de você’), assustou os moradores de várias cidades israelenses que pensaram estar sendo ameaçados, segundo o jornal "Haaretz".

No Brasil, os 12 episódios da primeira temporada estão acessíveis aos assinantes do Netflix e da NET Now (Mais Globosat), sob o título “Os Dois lados do Conflito”. A história mostra um grupo de agentes de segurança envolvidos na captura de um terrorista que forjou a própria morte.

Com muita ação, excelente produção, artistas carismáticos e diálogos em hebraico e árabe, a série apresenta os conflitos pessoais e profissionais dos personagens israelenses e palestinos. Uma visão que se pretende menos sectária e mais abrangente sobre o tema. Aliás, um dos criadores da série e ator principal é o ex-militar das forças especiais, Lior Raz. Para quem ainda não assistiu, vale a recomendação.

Século 21

Dubrovnik (Croácia)
Neste início de ano, a rede americana CNN, através de seu site CNN Travel, listou 12 lugares maravilhosos para você NÃO visitar em 2018. Isso mesmo! Destinos badalados a serem evitados pelos viajantes “conscientes”. O motivo  é preservar os patrimônios históricos e os ecossistemas ameaçados pelo excesso de turistas, desleixo e balbúrdia nas ruas. Medidas para restringir o acesso a esses pontos turísticos já estão sendo organizadas pelas administrações públicas locais.

Cinque Terre (Itália)
Ainda que o objetivo seja pertinente, espera-se que o planeta não caminhe para uma nova Idade Média, com as cidades e suas obras arquitetônicas resguardadas por muralhas. Desta vez para se protegerem das supostas hordas de turistas “sem consciência”.

Aí vai o roteiro do que você deve evitar em 2018, de acordo com a CNN:
Ilha de Skye, (Escócia), Barcelona (​​Espanha), Dubrovnik (Croácia), Veneza (Itália), Santorini (Grécia), Himalaias (Butão), Taj Mahal (Índia), Monte Everest (lado do Nepal), Machu Picchu (Peru), Ilhas Galápagos (Equador), Cinque Terre ( Riviera Italiana) e Antártica.

Machu Picchu (Peru)
Boa Viagem !




sábado, 13 de janeiro de 2018

Luther King e Heschel - Uma amizade que mudou o mundo

por Sheila Sacks

Mais uma vez milhões de americanos vão celebrar, nesta segunda-feira, 15 de janeiro de 2018, o Dia de Martin Luther King Jr.  Feriado nacional desde 1986, a data honra o combativo ativista de direitos civis, prêmio Nobel da Paz (1964), que lutou durante toda a sua vida (1929-1968) contra o racismo e o preconceito. Porém, ao seu lado, em vários momentos, se destacou a figura do rabino Abraham Joshua Heschel (1907 - 1972), também filósofo, professor e escritor. Um homem cuja história é uma lição de amor, tolerância e solidariedade.
O texto abaixo foi escrito originalmente em 2009.

A história de uma amizade que mudou o mundo

"Quando eu era jovem costumava admirar as pessoas inteligentes, com a idade passei a admirar as pessoas de bom coração" (Heschel) 

Bradando por justiça e liberdade, os anos 1960 adentraram pela história de uma maneira atrevida e rebelde que sacudiu as estruturas do establishment social e cultural do planeta. Arrebanhando intelectuais, universitários, artistas, profissionais liberais, religiosos, políticos e ativistas em geral, a luta pelos direitos civis da população negra dos Estados Unidos incendiou mentes e corações, mobilizou jovens e sacudiu todo o continente americano.

Somando-se a tal desafio, outras batalhas titânicas foram travadas naquela década conturbada, com coragem e lucidez, por uma geração iluminada. Como a façanha de dizer “não”, em determinado momento, à guerra do Vietnã, e participar dos esforços para erradicar, por completo, no seio da Igreja Católica, um conceito milenar e preconceituoso contra os judeus. O que foi feito no Concílio Vaticano II, através da Encíclica "Nostra Aetate".

Em todos esses combates onde o entusiasmo, a tenacidade e a perseverança se apresentavam como condições básicas para qualquer militância atingir o seu objetivo, um homem do livro e da fé destacou-se com a sua presença indelével, despertando encantamento e admiração naqueles que dele se acercavam.

De família ortodoxa e natural da Polônia, Abraham Joshua Heschel (1907-1972) era filósofo, professor, escritor e rabino. Em 1963, quando se encontrou pela primeira vez com o reverendo Martin Luther King (1929 - 1968), Heschel já tinha escrito a maioria de seus livros, dentre eles os quatro mais conhecidos: “Os Profetas”, “O Shabat” (sábado), “O Homem não está Só” e “Deus em Busca do Homem”.

Black Zion

No ensaio escrito por Susannah Heschel sobre o seu pai e incluído no livro “Black Zion: African-American Religious Encounters with Judaism” (2000) - que trata das relações culturais e religiosas dos negros norte-americanos com o Judaísmo - são realçadas a afeição, a amizade e a convergência de ideias que uniam esses dois gigantes de seu tempo. “Ambos, Heschel e King, buscavam as imagens do Êxodus para despertar suas audiências para o grave problema do racismo”, conta Susannah.

Foi o que aconteceu na conferência Nacional de Religião e Raça realizada em Chicago, em janeiro de 1963, que reuniu judeus e cristãos em torno de temas como a discriminação e o preconceito. Na ocasião, Heschel inicia o seu discurso comparando o dia presente à história bíblica de Moisés e o Faraó: “O resultado daquela primeira assembleia não se completou”, alerta Heschel, “porque o Faraó ainda não capitulou". E afirma: "Na realidade foi mais fácil para as crianças de Israel atravessar o Mar Vermelho do que está sendo para os nossos irmãos afro-americanos cruzarem certos campus universitários.”


Convidado por John F. Kennedy para um encontro na Casa Branca, Heschel faz um apelo para que o presidente convoque as lideranças espirituais do país para um maior engajamento pessoal nas questões dos Direitos Civis: “Eu proponho que o presidente dos Estados Unidos declare estado de emergência moral”, enfatizou o rabino, “já que nós permaneceremos em falta com Deus enquanto a humilhação aos negros persistir”.


Em março de 1965, Heschel e King caminham juntos na emblemática marcha realizada no estado de Alabama (depois de duas tentativas abortadas pelas forças policiais), um dos mais segregacionistas do país. Durante cinco dias eles percorrem os 71 quilômetros que separam a cidade de Selma à capital Montgomery, à frente de uma multidão que chega a 25 mil pessoas, para defender o sagrado direito do voto da população negra. “O contrário do bem não é o mal, e sim a indiferença”, argumenta Heschel. “Em uma sociedade livre, alguns são culpados, mas todos são responsáveis.”

Vietnã

Naquele mesmo ano Heschel funda o movimento antibelicista “Clergy and Laymen Concerned About Vietnam (CALCAV)”, que congrega religiosos e leigos que se opõem à guerra no Sudeste Asiático. Com a parceria do teólogo cristão John C. Bennett e do pastor luterano Richard Neuhaus, o grupo discursa em universidades, sinagogas e igrejas, clamando pelo fim do conflito no Vietnã. “Se hoje é difícil parar com a guerra, amanhã será muito mais difícil ”, protesta Heshel.

Em janeiro de 1967, ao final do primeiro encontro nacional da organização, em Washington, e na presença dos 2.500 representantes de 47 estados, Heschel lê o documento que resume o pensamento e a disposição dos participantes: “Chega um tempo em que o silêncio soa como traição. Esse tempo está entre nós e tem relação com o Vietnã.” A filha de Heschel conta da angústia do pai acerca do problema: “Frequentemente eu o via no meio da noite, incapaz de dormir. A guerra o afligia cruelmente.”

A mensagem e a mobilização do CALCAV sensibiliza Luther King. Ele ingressa oficialmente no movimento pela paz e faz um pronunciamento emocionado, ao lado de Heschel, em Nova York. Assumindo publicamente o seu engajamento, King louva a missão dos companheiros, dizendo-se profundamente solidário com os objetivos e o trabalho realizado: “Estou aqui esta noite porque a minha consciência não me deu outra escolha. É tempo de romper o silêncio... mesmo não sendo fácil assumir a tarefa de se opor a uma política de governo, especialmente em tempo de guerra.”

Vaticano II

Heschel também tem uma atuação única em outra missão singular: preparar um texto sobre os tópicos antijudaicos na liturgia católica, a pedido da instituição judaica “American Jewish Commitee”, e ir a Roma para se encontrar com o Cardeal Augustin Bea, que supervisionava o texto da Encíclica " Nostra Aetate" acerca das relações da Igreja com as outras religiões. Entre 1962 e 1965, período em que se realiza o Conselho Vaticano II, Heschel participa de várias audiências de trabalho com o Papa Paulo VI, ajudando-o a pavimentar o caminho das novas relações entre judeus e católicos.

Em uma de suas correspondências enviadas ao Vaticano, Heschel é contundente em relação ao parágrafo sobre a conversão: “A mensagem que considera os judeus candidatos à conversão e que proclama que o destino do Judaísmo é o desaparecimento, soa abominável para os judeus de todo o mundo. E como tenho seguidamente declarado para as lideranças do Vaticano, se eu me deparar com a alternativa da conversão ou a morte, eu escolho Auschwitz, sem problema.”

Anos depois, em 1971, quando Heschel viaja à Itália para uma série de conferências, ele revê Paulo VI em uma audiência reservada. Em seu diário, Heschel deixa registrado: “Quando o Papa me viu ele sorriu alegremente, com a face radiante. Apertou a minha mão com ambas as mãos, gesto que repetiu algumas vezes durante o encontro. Disse que havia lido os meus livros e que os mesmos eram muito espirituais e belos, e que os católicos deveriam lê-los. Disse ainda para que eu continuasse a escrever mais livros, acrescentando que tinha conhecimento da importante influência que meus escritos exerciam sobre os jovens.”

Profetas como exemplo

O estudo da vida dos profetas bíblicos de Israel fez com que Heschel partilhasse o seu tempo espiritual com os necessitados e injustiçados. Um dia antes de sua morte, em meio ao frio e a neve, ele permaneceu de pé durante horas, em frente a uma prisão, aguardando a liberação de um companheiro ativista - um sacerdote católico. Era dezembro e Haschel tinha 65 anos.

Filho de rabino, Heschel nasceu em Varsóvia e estudou em uma Yeshiva (seminário rabínico). Obteve o grau de Doutor em Filosofia na Universidade de Berlim e completou sua formação religiosa em “Hochschule”, a academia alemã de altos estudos judaicos. Em 1940, junto com outros intelectuais judeus que fugiam do horror nazista, encontrou refúgio nos Estados Unidos. Seus esforços, porém, para resgatar seus familiares da Polônia foram infrutíferos. Perdeu a mãe viúva e as três irmãs no Holocausto (nos campos de morte de Treblinka e de Auschwitz). Nunca mais retornou à Polônia e à Alemanha, “pois cada pedra e cada árvore traziam lembranças”.

Professor de Ética Judaica e Misticismo, por mais de 25 anos, no “Jewish Theological Seminary of América”, em Nova York, ele visitou Israel em 1967, depois da Guerra dos Seis Dias. Ao retornar aos Estados Unidos ele publica o livro “Israel: an echo of Eternity” e emocionado confessa que não tinha ideia do quão intensamente sentia-se ligado a sua ancestralidade.

Valor do tempo

No conjunto de sua obra encontramos amplos temas recorrentes que tratam do significado da fé, da divindade das ações e da sacralidade do tempo. Ele afirmava que qualquer ação é um teste porque é nas ações que o homem toma consciência de seu poder de destruir ou de criar alegria. “O coração se revela no que o homem realiza, no que ele faz.”

Heschel também separa a piedade da fé, argumentando que existem atos de piedade sem fé, já que esta pressupõe uma ligação com Deus. Quanto ao aspecto sagrado do tempo, o sábado ou shabat seria a materialização do santificado, “pois este dia representa a eternidade dentro do tempo”. Para o filósofo, a fascinação do homem pela grandiosidade do espaço e pelos objetos que pode ver e tocar – aos quais intitula de realidade – o afasta da verdadeira conquista espiritual que só o entendimento da sublimidade do tempo é capaz de proporcionar: “O resultado desta nossa consciência dos objetos é nossa cegueira a toda a realidade que, de início, não se identifica como um objeto. Ela se mostra óbvia em nossa compreensão de tempo, que não sendo um objeto palpável, parece carecer de realidade.”

Entretanto, acentua Heschel, a própria Bíblia preocupa-se mais com o tempo do que com o espaço: "Ela vê o mundo na dimensão do tempo. Presta mais atenção às gerações, aos eventos do que aos países e às coisas; preocupa-se mais com a história do que com a geografia. O tempo é o coração da existência."

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

O Muro de Jerusalém



por Sheila Sacks





Aqui estou eu,
calado e perplexo
diante das pedras
de um muro incomum.
Como aportei,
para que ou por que,
pouco se me dá.
Perguntas não faço.
O fato é um só:
eu cheguei.

Se vim a passeio,
passaporte estrangeiro,
que importância isso faz?
A verdade está aí,
para o que der e vier:
eu estou aqui.

Olho o muro e me vejo em mil.
Sou Moché, sou Yeudá,
sou Bar Kochba, sou Anielewicz.
Sou todos que um dia,
com gana e coragem,
lutaram por mim.

Faço uma prece,
sem mesmo saber rezar.
Quero a Torá no meu coração
(antes tarde do que nunca).
Nada mais tem importância,
a não ser estar aqui, de pé,
diante desse muro incomum.

Quero tudo que tenho direito:
a kipá  na cabeça,
o talit sobre os ombros,
as lágrimas molhando o rosto.
Quero a terra, o céu e a alma infinita,
toda a história passada a limpo.
Quero mergulhar de cabeça,
quero ser meu povo!

Tanto tempo vaguei,
preso a tramas,
manhas e artimanhas
de um mundo comum.
Sou o filho que volta,
sem nunca ter passado da esquina.
Indeciso, arrogante,
produto bem acabado
da cultura pagã.
Sou aquele que chamam de jovem,
filho dileto da mixórdia ocidental.

Porém,
sabe-se lá por que cargas d’água,
aqui estou eu,
calado e perplexo,
diante desse muro de pedra.
Cheguei despreparado,
curioso turista,
sem âncora ou amarras,
cidadão do mundo!

Que tolo eu fui.
Aqui, frente a esse muro incomum,
a mentira se desfaz,
perde a pose e a graça.
Diante do muro que resta
eu choro o tempo de engano e espera.
Tudo o que eu não fui
por descaso e preguiça
na hora devida.

Mas agora,
de cara  para esse muro de pedra,
exijo a lei e o feito.
Da Torá o mais ínfimo preceito.
Quero o início, o esplendor e a febre,
também a liberdade e a voz
dos nossos rabis e profetas.

Quero cumprir a promessa,
vencer o deserto,
o vento e a fera.
Frente a frente,
posição de sentido,
a profecia vive na terra prometida!

Frente ao muro,
coração aos pulos,
digo, grito, repito e repiso:
quero mergulhar de cabeça,
quero me descobrir!




sexta-feira, 24 de novembro de 2017

A linguagem perdida

por Sheila Sacks

“Cada pensamento desloca as partículas do cérebro, pondo-as em movimento e disseminando-as pelo Universo. Cada partícula da matéria existente deve ser um registro de tudo o que aconteceu.” “Principles of Sciences”, de William Stanley Jevons (1835-1882) e Charles Babbage (1791-1871)


O instrumento da linguagem continua aquém dos mistérios da Vida e do Cosmos. No século 19, pensadores históricos buscaram acender nas palavras a luz que poderia iluminar o universo não-lógico que ainda nos espanta nessa segunda década do século 21. Percepções múltiplas sobre o Inexplicável e o Infinito estão gravadas em milhões de páginas que desafiam a capacidade humana de compreender e assimilar os fenômenos fundamentais da existência. É o mundo infinito que a linguagem não alcança

Entretanto, hoje, acelerando um processo selvagem de dispersão mental, restamos reféns de palavras e encadeamentos frívolos e individualistas, ilhados em uma redoma de pensamentos manipulados por uma máquina de informações e sugestões que nos distanciam, cada vez mais, de um aprofundamento e de uma possível redescoberta da essência da linguagem e de sua possível expansão na tradução de pensamentos que versam sobre o incógnito, o invisível e o que não conhecemos.

Palavras ocultas

No livro “Key to the Hebrew-Egyptian mystery: in the source of measures”, publicado em 1875, o pesquisador maçom e estudioso da Cabalá, James Ralston Skinner (1830 – 1893) afirma estar convencido de que existiu uma linguagem antiga desaparecida, e de que restam numerosos vestígios. “A singularidade dessa linguagem era que podia estar contida dentro de outra, por um processo oculto, não sendo percebida senão com a ajuda de certas instruções.”

Skinner, que nasceu nos EUA, observa que “as letras e os signos silábicos possuíam, ao mesmo tempo, os poderes ou as significações dos números, das figuras geométricas, das pinturas ou ideografias, e dos símbolos, cujo objetivo era determinado e especificado por meio de parábolas, sob a forma de narrações completas ou parciais, mas que também podiam ser expostas separadas ou independentemente, e de vários modos, por meio de pinturas, obras de pedra e construções de terra”.

Destaca, ainda, que aquela antiga linguagem estava profundamente infiltrada nos textos hebraicos, de tal forma que se empregando os caracteres escritos, cuja pronúncia forma a linguagem definida, podia-se intencionalmente comunicar uma série de ideais muito diferentes das que se expressam com a leitura de signos fonéticos. Para o pesquisador, realmente existiu na história da raça humana uma linguagem primitiva perfeita que por fatores desconhecidos desapareceu ou se perdeu no tempo.

Palavras insuficientes

Por sua vez, a medium e pensadora russa Helena Petrovna (1831-1891), principal figura da teosofia moderna, reclamava da insuficiência de palavras adequadas na linguagem moderna para a abordagem de determinados temas. Dissertando sobre autoconhecimento e consciência, a estudiosa das religiões e autora da “Doutrina Secreta” (1888) diz textualmente: “Tal é a pobreza da linguagem humana que não dispomos de termos para distinguir o conhecimento em que não pensamos ativamente do conhecimento que não podemos reter na memória.” E reflete: “Mais difícil então será encontrar palavras para descrever os fatos metafísicos e abstratos e distinguir-lhes as diferenças.”

Isso porque as pessoas definem as coisas de acordo com as suas aparências, ponderava Blavatsky. “À Consciência Absoluta chamamos ‘Inconsciência’, porque assim nos parece que deva ser, do mesmo modo que denominamos ‘Trevas’ ao Absoluto, porque este parece de todo impenetrável a nossa compreensão finita.” Contudo, apesar das dificuldades de expressão, a escritora fazia ressalvas ao hebraico e ao sânscrito “onde cada letra tem sua significação oculta e sua razão de ser; onde é uma causa e também o efeito de uma causa precedente”. Ela sugere que a combinação das letras desses alfabetos produzia muitas vezes “efeitos mágicos”. 

Ação da palavra

Alef, a primeira letra do alfabeto hebraico
Ainda sobre a mágica das palavras e sua influência na existência das pessoas, o escritor francês Jean-Baptiste Pitois (1811-1877) escreve: “Pronunciar uma palavra é evocar um pensamento e fazê-lo presente; o poder magnético da palavra humana é o começo de todas as manifestações no Mundo Oculto. Pronunciar um nome é não somente definir um Ser (uma Entidade), mas submetê-lo à influência desse nome e condená-lo, por força da emissão da palavra (Verbum), a sofrer a ação de um ou mais poderes ocultos.”

E continua: “As coisas são, para cada um de nós, o que a palavra determina quando as nomeamos. A palavra (Verbum) ou a linguagem de cada homem é, sem que disso ele tenha consciência, uma benção ou uma maldição; e é por isso que a nossa atual ignorância acerca das propriedades da matéria nos é tantas vezes fatal. Sim, os nomes (e as palavras) são benéficos ou maléficos: em certo sentido são nocivos ou salutares, conforme as influências ocultas que a Sabedoria suprema associou a seus elementos, isto é, às letras que compõem e aos números que correspondem a estas letras.” 

O texto acima contido no livro “Historie de la Magie, du monde Surnaturel et de la fatalité a travers les Temps et les Peuples ”, foi escrito em 1870. Jean-Baptiste, que também assinava como Paul Christian, foi educado para ser sacerdote, mas optou por se tornou jornalista e escritor, dedicando-se a assuntos esotéricos.

Poder da Palavra

Nessa mesma linha de pensamento, uma obra anterior, datada de 1859, assinada pelo também francês Eliphas Levi (1810-1875), nascido Alphonse Louis Constant, já invocava a existência de um alfabeto oculto e sagrado, composto de ideias absolutas ligadas a signos e números e que realiza, por suas combinações, as matemáticas do pensamento.

Na obra “A Chave dos Grandes Mistérios”, Levi afirma que os hebreus, os egípcios e depois os pitagóricos tinham conhecimento desse alfabeto único. Teólogo e ex-sacerdote católico, Levi se aprofundou na filosofia da Cabalá e no seu principal livro dogmático, o “Zohar”, para formar a base de suas ideias. Segundo ele, proferir um nome seria criar ou chamar um ser. No nome estaria contida a doutrina verbal ou espiritual do próprio ser. “A palavra age sobre as almas e as almas reagem sobre os corpos; pode-se, portanto, assustar, consolar, fazer adoecer, curar, matar e ressuscitar por palavras”, assegura.

Acreditando na força monumental das palavras, Levi também faz um alerta aos leitores: “As palavras mais perigosas são as palavras vãs e proferidas levianamente, porque são abortos voluntários do pensamento. Uma palavra inútil é um crime contra o espírito de inteligência. É um infanticídio intelectual.” Autor de uma dúzia de livros e considerado por seus pares o maior mestre do renascimento mágico do século 19, Levi criou uma série de axiomas ao abordar, em um capítulo próprio, o que designou de “o poder da palavra”. Ele associa todo o esplendor e a força da palavra à verdade e à justiça ao proclamar que “toda palavra de verdade é o começo de um ato de justiça”.

 Mas, para a autora da “Doutrina Secreta”, obra fundamental para o estudo da Teosofia, “a palavra articulada tem um poder que os sábios modernos não só desconhecem, mas nem sequer suspeitam, e por isso neles não acreditam”.  Blavatsky reforça a tese de que “parece ter havido uma linguagem e um sistema de ciência transmitido à primeira humanidade por homens de uma raça mais adiantada, que poderia aparecer como divina aos olhos daquela humanidade infantil”. Um conhecimento primordial assentado em uma teologia ancestral - de símbolos, mitos e signos -  transmitido ao longo dos tempos por uma linhagem de iniciados de variadas crenças e culturas. Teoria que de certa forma se harmoniza com o pensamento do filósofo grego Plotino (204-270 da era comum), autor de “Enéadas”, quando este atesta que “tudo é símbolo, e sábio é quem lê em tudo”.

Nota: No século 20, o filósofo alemão Walter Benjamim (1892-1940) também foi um estudioso da magia da linguagem. Em seu ensaio “Sobre a Linguagem em Geral e sobre a Linguagem Humana”, ele desenvolveu a sua teoria de que a linguagem humana das palavras pode ser compreendida enquanto “tradução” da “muda linguagem da natureza”. É dele a frase: “Ler o que nunca foi escrito."

Texto atualizado.


quinta-feira, 2 de novembro de 2017

AK-47: os 70 anos de um ícone sinistro

Por Sheila Sacks

No livro “Gomorra”, sobre a máfia napolitana, o jornalista italiano Roberto Saviano reserva um capítulo de 31 páginas para dissertar sobre o fuzil russo Avtomat Kalashnikova, mais conhecido como AK-47. Diz que a arma matou mais do que a bomba atômica de Hiroshima e Nagasaki, do que o vírus HIV, mais do que todos os atentados terroristas e todos os terremotos. Assinala que dezenas de países usaram o fuzil em guerras civis na Argélia, Angola, Bósnia, Burundi, Camboja, Chechênia, Colômbia, Congo, Haiti, Caxemira, Moçambique, Ruanda, Serra Leoa, Somália, Sri Lanka, Sudão e Uganda.

Saviano lembra os dois presidentes que morreram sob o fogo do Kalashnikov: o chileno Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973, no palácio presidencial de “La Moneda”, em Santiago, no golpe militar que instaurou o regime ditatorial do general Augusto Pinochet; e o egípcio Anwar Sadat, em 6 de outubro de 1981, no Cairo, durante uma parada militar, três anos depois de ter assinado dois importantes acordos de paz com Israel, em Camp David. Mortes que se somam a de outros políticos, como a do general italiano Dalla Chiesa, que foi prefeito de Palermo, assassinado em 1982, e a do ditador comunista da Romênia, Nicolae Ceausescu, fuzilado em 1989. “Mortes de excelência” que segundo Saviano garantiram “uma verdadeira publicidade histórica” ao AK-47.

Concebido pelo general Mikhail Kalashnikov, que morreu em 2013, aos 94 anos, e incorporado ao exército soviético em 1947, o AK-47 é o fuzil mais popular da terra e estima-se que 250 mil pessoas são mortas anualmente baleadas pela arma. Para comemorar os 70 anos de sua invenção, foi inaugurada em uma praça de Moscou, em 19 de setembro, a estátua de Kalashnikov empunhando o célebre fuzil que, há décadas, é um dos maiores sucessos russos de exportação.

Símbolo do liberalismo

Com mais de 100 milhões de exemplares espalhados pelo mundo, o AK-47 está na bandeira de Moçambique e na bandeira do grupo fundamentalista islâmico xiita Hezbollah; nos brasões do Timor Leste e do Zimbábue; em centenas de emblemas de grupos políticos e nos vídeos de Osama Bin Laden. “É um símbolo do liberalismo, um ícone absoluto”, abaliza o autor. E explica: “A invenção desta arma permitiu a todos os grupos de poder e de micropoder ter um instrumento militar. Ninguém, depois da AK-47 pode dizer que foi vencido porque não tinha acesso a armas.”

Se na África Ocidental, o fuzil russo pode custar 50 dólares, no Iêmen é possível encontrar um AK-47 usado de segunda e terceira mãos por 6 dólares. É o que afirma Saviano em seu livro. “O kalashnikov permite que todos se tornem soldados, todos, até crianças esquálidas, e transformou em generais das Forças Armadas pessoas que não conseguiriam guiar um rebanho de ovelhas”, ironiza.

O jornalista revela que as drogas sustentam as compras dos AK-47 por grupos armados. Sejam de guerrilheiros, terroristas, paramilitares ou traficantes. “Coca em troca de armas”, enfatiza. Destaca o exemplo do ETA, o grupo separatista basco considerado terrorista pela União Europeia, que enviava cocaína através de seus militantes para receber, em troca, armas da Camorra, a máfia napolitana. Não somente kalashnikov, mas explosivos e lança-mísseis. Conhecido pelo seu histórico de quatro décadas de violência e mortes, resultando em mais de 800 vítimas fatais, o ETA obtinha a cocaína através de seus contatos com grupos guerrilheiros colombianos.

Queda do comunismo ajudou

Com a queda da “cortina de ferro” – expressão usada por Winston Churchill, em 1946, para definir as áreas na Europa sob o domínio da União Soviética – e o fim da chamada “Guerra Fria”, países como Romênia, Polônia e a ex-Iugoslávia ficaram com os seus arsenais abarrotados de armas russas e precisando se reestruturar. O desmantelamento da União Soviética em 1991, precedido pela queda do Muro de Berlim, em 1989, criou um novo cenário político-econômico na Europa e abriu as fronteiras para o mercado ilícito das armas, dirigido principalmente para grupos políticos armados da África, América Latina e do próprio Balcãs, como a Bósnia e a Sérvia.

De acordo com Saviano, a máfia napolitana pagava informalmente a dirigentes comunistas em decadência a manutenção desses depósitos de armas estocadas nos próprios países de origem. Dependendo da conveniência, essas armas eram retiradas e levadas para a Itália para serem negociadas. “Os fuzis vinham empilhados em caminhões militares que ostentavam o símbolo da OTAN ( Organização do Tratado do Atlântico Norte). Eram grandes carretas roubadas das garagens americanas da base da OTAN, em Nápoles, que graças àquela inscrição, podiam rodar tranquilamente pela Itália.”

General Kalashnikov e o fuzil AK-47
Antes, na década de 1980, durante o conflito entre a Argentina e a Inglaterra na Ilha das Malvinas, no Atlântico Sul, a Camorra também entrou no circuito para a venda informal de armas para a defesa argentina. O jornalista afirma que devido ao isolamento econômico do país à época, “ninguém teria lhe vendido oficialmente”. A chamada Guerra das Malvinas durou dois meses e foi um fiasco para a máfia. “Poucos tiros, poucos mortos, pouco consumo.” Ele conta que no mesmo dia que foi decretado o fim do conflito, o serviço secreto inglês interceptou um telefonema intercontinental entre a Argentina e uma localidade em Nápoles. “Aqui a guerra acabou”, falavam da Argentina. “Não se preocupe, haverá outras...”, responderam do outro lado do Atlântico.

Saviano é categórico ao ressaltar o poder de fogo dos clãs da região da Campânia, no sul da Itália, e de sua capital Nápoles e arredores, nas décadas de 1980 e 1990: “As guerras, da América do Sul aos Bálcãs, são feitas com as garras das famílias da Campânia.” Em Nápoles, a Camorra já fez 3.600 mortos nos últimos 30 anos.

Fuzis com a marginalidade

No Brasil, em junho, a polícia civil carioca descobriu no terminal de cargas do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro uma grande leva de armamentos escondidos em aquecedores de piscinas dentro de containers vindos de Miami. Foram apreendidos 45 fuzis AK-47 que iriam abastecer os traficantes nas favelas, no valor de R$ 1,6 milhão. Na ocasião a secretaria de Segurança informou que desde o início de 2017, 250 fuzis já tinham sido retirados das mãos de bandidos. “No Rio de Janeiro, traficante só tira onda de macho por conta disso, de ter o fuzil. A hora que tiver uma pistola, ele vai dar meia volta”, comentou o titular da Segurança, Roberto Sá, repetindo com outras palavras as observações de Saviano acerca da portabilidade do AK-47.

Pelas contas da polícia do Rio de Janeiro, cada fuzil vendido aos traficantes no mercado negro tem um custo de 20 mil reais (em torno de 6,6 mil dólares). Saviano escreve em “Gomorra” que o valor de um AK-47 está diretamente ligado à violação dos direitos humanos. Quanto mais barato o fuzil, pior são as condições de civilidade e cidadania.

Preocupado com a disseminação dessas armas de alta letalidade, contrabandeadas principalmente do Paraguai e da Bolívia, o governo brasileiro sancionou uma lei, em 26 de outubro, que torna crime hediondo, com prisão imediata e sem direito à fiança, o porte ilegal de fuzis e outros armamentos restritos às áreas militares. Somente no estado do Rio de Janeiro, do início do ano até agosto foram apreendidos 347 fuzis, 149 a mais do que em 2016.

Vivendo recluso
                
 Desde a publicação de “Gomorra”, em 2006, Roberto Saviano vive sob escolta policial, devido a ameaças de morte da Camorra. Em sua penúltima obra, “Zero Zero Zero” (2013), que desvenda as rotas e o tráfico de cocaína no mundo, ele registra uma dedicatória especial, logo na primeira página: “Dedico este livro a todos os carebinieri da minha escolta. Às 38 mil horas vividas juntos. E àquelas que ainda viveremos. Onde quer que seja.”

Onze anos depois do seu livro de estreia – que foi transportado para as telas de cinema e depois transformado em série de TV - Saviano passa a maior parte de seu tempo nos Estados Unidos, recluso, ainda que publicando nos meios de comunicação e escrevendo livros, como o recente romance “La Paranza dei Bambini” (O bando dos meninos), de 2016, sobre a deliquência juvenil em Nápoles. Lamenta que “Gomorra”, publicado quando tinha 26 anos, tenha afetado drasticamente a vida de sua família, que teve de sair de Nápoles. “Minha mãe sofreu um infarto e me senti culpado. Vim correndo dos EUA e, em parte, foi porque me senti como se lhe tivesse dado o golpe no coração (...) E meu irmão, a quem amo demais, o mesmo. Ele me diz que está comigo, mas sei que está cansado de aguentar tanto.”

As confissões foram feitas ao jornalista Daniel Verdú, do “El Pais” (29.08.2017), em um parque na cidade de Bolonha, sob os olhares atentos de cinco carabiniere. Apesar do enorme sucesso internacional – “Gomora” vendeu 10 milhões de exemplares em 40 idiomas - Saviano admite que hoje não teria escrito o livro da mesma maneira. Jurado de morte pela Camorra, ele tem pesadelos e passa por períodos de depressão. “Eu os desafiei, estava convencido de ser invencível.” Mas, em “La Paranza dei Bambini”, Saviano volta ao tema da máfia napolitana, focando em um grupo de adolescentes da Camorra, em Nápoles, que circulava pelas ruas e bairros em motos, atirando com seus fuzis AK-47, amedrontando e controlando seus moradores. Um enredo que desagradou à população e aos empresários da cidade que acusam o jornalista de criminalizar Nápoles e espalhar para o mundo uma imagem negativa do lugar.

Roberto Saviano
Porém, o romance se baseia em fatos reais, a partir de uma investigação desenvolvida pelos promotores antimafia Henry Woodstock e Francesco De Falco e que culminou, em 2015, com a prisão de dezenas de pessoas. Assim sendo, mesmo sob protestos e ameaças, Saviano não tem como excluir o AK-47 de sua literatura. O que lembra uma situação semelhante tendo o Rio de Janeiro como cenário. Desta vez atingindo o premiado cineasta José Padilha. Seus filmes “Tropa de Elite” (2007) e “Tropa de Elite 2 – Agora o inimigo é outro” (2010) que tratam das relações promíscuas entre policiais, traficantes e políticos, e onde não faltam AK-47, o levaram a sair do Brasil, em 2015, depois de se sentir ameaçado. Atualmente, ele vive com a família em Los Angeles e escreve periodicamente para um jornal carioca.

Arma de atentados e guerrilha

O AK-47 também atraiu a atenção de dois jornalistas americanos que se debruçaram sobre o tema: Larry Kahaner, que publicou em 2006 o livro “AK-47, a Arma Que Transformou a Guerra” (na edição em português), e CJ Chivers, ex-correspondente de guerra. Seu livro “The Gun: The AK-47 and the Evolution of War” é de 2010.

Escrevendo para o jornal “The New York Times”, Chivers lembra que o AK-47 é pivô de crimes espetaculares que chamam a atenção do mundo. “A lista remonta a décadas: a morte dos atletas israelenses nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972; a tomada de uma escola em Beslan, Rússia, em 2004; os ataques em Mumbai, Índia, em 2008; o ataque a um shopping center em Nairóbi”, destaca. Ele afirma que a disseminação do fuzil mudou a guerra moderna. “À medida que os governos comunistas repassavam os kalashnikovs para aliados e terceiros, os rifles assumiram um papel inesperado: niveladores de campo de batalha.”

Entre os fatos históricos nos quais o AK-47 teve papel preponderante estão a Guerra do Vietnã, com os guerrilheiros vietcongues utilizando a arma na selva contra os americanos. “Guerrilheiros armados com kalashnikovs lutavam de igual para igual contra soldados de infantaria de uma superpotência”, assinala o jornalista. Por sua vez, nos anos 1980, forças americanas e paquistanesas treinavam combatentes islâmicos a usar o AK-47 na guerra para expulsar as forças soviéticas do Afeganistão.

No campo do terrorismo moderno, coube ao AK-47 inaugurar “a era do terrorismo kalashnikov”. Chievers cita como exemplo o atentado à Vila Olímpica de Munique onde estava a equipe israelense, assistido pelo mundo, ao vivo, pela TV. Alerta que os governos têm feito pouco para deter a proliferação desse tipo de arma, que escapou do controle das autoridades constituídas. “O kalasnikov deixou de ser uma ferramenta do Estado ou da ideologia comunista. Criado para fortalecer estados autoritários, o AK-47 ganhou credibilidade fora da lei, se transformando em símbolo de revolta, contragolpe, crime e jihad”, conclui.