linha cinza

linha cinza

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Comunidades Judaicas: Para onde vamos?

Por Sheila Sacks

Parece sina! Depois da tragédia do Holocausto promovida pelo nacionalismo alemão da extrema-direita  representado pelo partido Nazi  ( “Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei” – NSDAP), na tradução “Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães”,  agora é a vez da esquerda radical e raivosa atacar os judeus e o Estado de Israel associando-se a movimentos como o BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) e aderindo a manifestações ditas antissionistas generosamente acolhidas no largo balaio de cacarecos em que se transformou a política de defesa pelos direitos humanos.

Atordoadas, as comunidades judaicas em todo o mundo tentam se equilibrar nessa corda bamba de falsas intenções, lutando para não afundarem na areia movediça das suspeições e das dirigidas cobranças éticas lançadas pelas sociedades onde vivem, ora de forma direta ora sub-repticiamente, em suas atividades sociais e de cidadania.

Caminhando sobre ovos, os judeus têm consciência de que é preciso conciliar, de forma madura e pragmática, mas sem se abster de suas individualidades ou ceder ao patrulhamento ideológico, a defesa das ações de Israel com as opiniões e ações populistas de partidos políticos, das elites culturais, dos sindicatos e da mídia impositiva que atuam em seus países de origem, onde vivem e trabalham. Uma tarefa nada fácil visto que os partidos de esquerda, mais tagarelas e barulhentos frequentemente canalizam as aspirações da grande parcela da população através de uma mídia digital atuante e engajada, encantando principalmente os jovens, os intelectuais e os pretensamente informados em sua busca pela justiça social.

Assim, com esse cabedal de bons propósitos, cabe agora aos partidos de esquerda, principalmente na América Latina, África e países da Europa Ibérica, fomentar os estereótipos da figura histórica do judeu, sempre ligado ao capital, fazendo crer que aquele que também batalha por uma sociedade mais justa é uma exceção nem sempre bem tolerada pela sua própria comunidade.

A insensatez dessas pessoas as faz ignorar as inúmeras organizações humanitárias judaicas que atuam em dezenas de países voltadas para a educação e a salvaguarda dos direitos básicos dos cidadãos e de suas minorias. Doações individuais e de entidades judaicas sustentam  centros culturais, museus, bibliotecas, universidades, hospitais e programas sociais não judaicos nos seis continentes.

A marca do judaísmo contemporâneo tem sido a diversidade de pensamento em se tratando de política e de cultura laica e essa peculiaridade se manifesta nos países em que habitam e no cerne do Estado de Israel através do livre embate de ideias que são a base e o esteio dos sistemas democráticos. Mas essa multiplicidade não pode ser usada por agentes internos e externos para promover a barafunda e desordenar comunidades minoritárias sem peso populacional para enfrentar lobbies populistas que possam gerar um clima de animosidade, constrangimento e de comprometimento social aos seus membros.  

As comunidades judaicas precisam estar atentas a esses tipos de situações aparentemente casuais em se tratando de outros segmentos da sociedade, mas que no âmbito judaico, devido às continuadas rondas preconceituosas, tendem a introduzir a discórdia e a instabilidade em suas relações

A permanência do povo judeu através dos tempos, malgrado as perseguições, matanças e outras abominações praticadas sob a égide de estados legais e com a anuência das sociedades civis, se deve basicamente a uma sólida base moral e religiosa, na qual, nesses dias de espanto e de exposição desmedida, requer igualmente uma alta dose de reflexão e união. Porque o antissemitismo (leia-se antissionismo contemporâneo), em sua retórica de intolerância, não separa o judeu da direita daquele judeu de esquerda. Ao contrário, se apropria dessa pluralidade para direcionar o seu discurso de ódio mais à vontade, acobertado pelas circunstâncias e oportunidades que surgem.


Copa 2018: jogo entre Espanha e Israel teve blindagem diplomática

Menos de 300 pessoas participaram da passeata de protesto contra Israel convocada por organizações pró-palestinas na cidade espanhola de Gijón, nas Astúrias, local do jogo de futebol entre as seleções da Espanha e de Israel, ocorrido na noite do último 24 de março, uma sexta-feira (shabat).

A manifestação aconteceu horas antes da partida pelas eliminatórias da Copa da Rússia, que foi vencida pelo time espanhol por 4 a 1. Carregando bandeiras e cartazes, os manifestantes se deslocaram em direção ao estádio El Molinón, a maioria empunhando cartões vermelhos em alusão ao tema da passeata: “Tarjeta roja a Israel” (Cartão vermelho para Israel).

Amabilidades

Na manhã do jogo, o embaixador de Israel na Espanha, Daniel Kutner, nascido na Argentina, esteve com a prefeita de Gijón, Carmen Moriyón, e disse esperar uma recepção hospitaleira por parte de seus moradores.

Situada no norte da Espanha, Gijón tem 273 mil habitantes e em janeiro de 2016 sua Câmara Municipal aprovou um boicote institucional ao Estado de Israel, revogado quinze dias antes do jogo, com o apoio do partido de Moriyón. Ao indicar Gijón, no final do ano passado, como sede do jogo entre Espanha e Israel na série de classificação para o Mundial de 2018, a Federação espanhola de Futebol afirmou desconhecer a “peculiar” posição política da cidade em relação ao estado judeu.

Em entrevista ao jornal local “Nueva España”, no dia anterior ao jogo, o diplomata israelense lamentou que Gijón seja conhecida como a cidade espanhola que decidiu pelo boicote a Israel. Mas, disse esperar que a partida entre as duas seleções pudesse ser motivo de celebração e não de manifestações políticas.

Por sua vez, o porta-voz da embaixada de Israel em Madri, Hamutal Rogel, minimizou a situação e afirmou que os jogadores estavam felizes em visitar a Espanha e que “a maioria dos israelenses não estava preocupada com a política espanhola e muito menos com a situação dos partidos políticos locais”.

Em relação ao jogo ser realizado no shabat, Rogel disse que prevaleceu o tom laico do evento e que o embaixador estaria presente no estádio. “O jogo foi organizado pela federação espanhola. É um convite da federação. E a Espanha, como país, seu governo e seu parlamento estão contra o BDS (“Boicote, Desinvestimento e Sanções”, movimento palestino contra Israel).

Segundo reportagem do jornalista Diego Torres, do jornal “El País”,  apenas um terço dos 31 mil lugares do estádio foi ocupado o que representou uma das mais fracas lotações dos últimos anos. Ele observou que os torcedores espanhóis presentes no Molinón estavam tranquilos e a empolgação ficou mesmo por conta da pequena torcida judaica, concentrada em um lado das arquibancadas.


Liga da amizade

Ainda sobre a Espanha, no fim de março uma delegação de parlamentares israelenses esteve no país para marcar os 30 anos do estabelecimento de laços diplomáticos entre os dois países.  No encontro com o ministro de Relações Exteriores, Alfonso Dastis, os deputados ouviram que o governo espanhol se opõe totalmente ao BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) e que tem adotado uma série de medidas legais contra o movimento. Na ocasião foi criada a “Liga Parlamentaria Hispano-Israeli de Amistad” que busca avançar nas políticas de relações comuns mais amistosas entre Espanha e Israel.

 Atualmente 40 cidades espanholas adotam resoluções a favor do boicote, mas em torno de dez já cancelaram esta decisão, seja voluntariamente ou por ordem judicial.

O BDS na Espanha conta com o apoio escancarado do partido de esquerda “Podemos”, que ocupa cinco das 54 cadeiras no Parlamento Europeu. Fundado em 2014 com a participação de intelectuais, ativistas sociais, sindicalistas e personalidades do meio acadêmico e cultural, o partido que é apontado pela organização pró-Israel ACOM (Acción y Comunicación en Oriente Medio) de ter vínculos com o Chavismo e o Irã, de onde recebe fartos recursos, se tornou um fenômeno nas redes sociais e elegeu, em 2015, 48 deputados, 16 senadores e 134 parlamentares em câmaras municipais.

De acordo com o diretor assistente para a mídia em espanhol da organização American Jewish Committee (AJC), o argentino Patricio Abramzon, na prática o boicote na Espanha se traduz na censura a professores universitários, cientistas, estudantes, atletas, artistas e profissionais israelenses não importando quais sejam as suas posições políticas. “O que começou como um movimento marginal, circunscrito ao meio acadêmico, foi se estendendo a outros setores”, ressalta. Abramzon observa também a perversa similaridade que une posições extremistas e sectárias: “O antissemitismo joga pelas pontas. A clássica judeofobia da extrema direita deixou sua marca trágica na história. Contudo, setores da esquerda radical também têm se transformado nos últimos anos em redutos onde imperam o antissemitismo e o ódio visceral aos judeus.”

Entretanto, o trabalho sistemático de organizações como a ACOM que há 15 anos atua nos meios governamentais, inclusive com ações na Justiça, esta virando o jogo na Espanha e obtendo vitórias expressivas contra o BDS. Seu presidente, Angel Mas, é um ativista empenhado na luta a favor do Estado de Israel e contra o antissemitismo moderno que se apresenta travestido de antissionismo. No artigo “La lucha contra el BDS en España” ( “El Medio”, em 22.04.2016), ele lista os objetivos da instituição, as estratégias adotadas e as ações desenvolvidas nos planos político, diplomático e judicial.


Twitter concentra 63% das postagens antissemitas
Pesquisa realizada pela empresa israelense de vigilância “Vigo Social Intelligence”, a pedido do Congresso Mundial Judaico (World Jewish Congress- WJC) – organização internacional que representa comunidades judaicas de 100 países nos seis continentes –, constatou que em 2016 a cada 83 segundos foi postada uma mensagem de cunho antissemita, uma média de 43,6 mensagens por hora, totalizando mais de 382 mil no decorrer do ano.
Desse universo de milhões de mensagens analisadas em 20 idiomas, mais da metade estavam reunidas no Twitter (63%), em blogs (16%), Facebook, Instagram (11%), YouTube (6%) e fóruns (2%). Foram contabilizadas manifestações retóricas  e de incitação de ódio aos judeus e instituições judaicas, sem incluir as postagens de críticas ao Estado de Israel e suas ações.
Comentando o levantamento, o vice-presidente executivo do WJM, Robert R. Singer, considerou o cenário preocupante. “Sabíamos que o antissemitismo nas redes sociais estava em ascensão, mas os números revelados nesse relatório nos forneceu informações de como a situação é realmente alarmante.”
Em tempo: a definição do que se constitui uma postagem antissemita se baseou nas diretrizes da “International Holocaust Remembrance Alliance” (Aliança Internacional para a Recordação do Holocausto - IHRA), instituição fundada em 1998, por iniciativa da Suécia. Atualmente congrega países da Europa e mais os Estados Unidos, Canadá, Argentina e Israel. Sua missão é difundir a lembrança e a pesquisa sobre o Holocausto em programas educacionais nacionais e internacionais. 

 Fontes:
“La Nueva Espanã”  -  "El España-Israel debería ser motivo de celebración y no de manifestaciones político-esotéricas" (Pablo Tuñón), em 23.03.2017
“La Nueva Espanã” – “Gijón lima asperezas con Israel por la visita de su embajador tras el boicot”, em 24.03.2017
 “El País” – “La política enturbia el España – Israel” (Diego Torres), em 24.03.2017
 “El País” -  “La manifestación contra Israel apenas tiene seguimiento en Gijón” (Diego Torres),  em 25.03.2017
“Aurora” – “España declara su oposición al movimiento anti Israel BDS”, em 02.04.2017
“Iton Gadol” – “AJC: Intenta boicotear al fútbol y verás lo que sucede”, em 25.06.2017
 “Unidos con Israel” - “382.000 mensajes antisemitas publicados en los medios sociales en 2016!”, em 26.03.2017


sexta-feira, 10 de março de 2017

Israel:visões cristalizadas

por Sheila Sacks
Pouco mais de dois meses nos separam do ano anterior e já estamos navegando, nesse início de 2017, rumo ao alto mar de tempos incertos. Acontecimentos se atropelam, comportamentos refluem, prioridades se desorganizam e a humanidade repete caminhos já percorridos atolada em um confuso emaranhado de percepções e sentimentos ilusórios acerca de hipotéticos novos desafios que batem à sua porta. 
Titãs mundiais perseveram nas palavras e gestos teatrais e manipulatórios nos quais a verdade não é um item primordial e, portanto, submerge nos embates ancorados por megainteresses transnacionais. Monopólios econômicos, políticos e doutrinários devidamente dissimulados e blindados perpetuam jogos pirotécnicos, promovendo expectativas de tempos melhores que não se confirmam. Megalíticos e insuperáveis em sua abrangência e poder.
 Nesse ambiente real de cartas marcadas e posições estratificadas – dissociado e dissonante das fantasias midiáticas que alimentam narrativas de liberdade individual e de autossuficiência - sociedades e governos tentam interagir na organização e administração das nações no sentido da preservação de um pacto civilizatório que possa manter o trato formal de boa convivência com seus pares.
Um universo de imposições e ações com frequencia apartado dos valores éticos sociais e dos contornos de conduta de milhares de organizações mundiais criadas para fazer valer o escrito das boas intenções e que na prática são ignoradas e atropeladas por sangrentos conflitos civis, incongruentes incidentes diplomáticos, atos insanos de terrorismo e, notadamente, pela descabida presunção e cega intolerância que conduz as guerras entre países.
Jogo de palavras
No século 21, o estado de Israel é um exemplo de nação cuja situação peculiar permanece ainda pouco compreensível para grande parte da população mundial. Na mídia não faltam artigos tentando explicar, de um lado, as “imprecisões e omissões” dos que atacam o país, e em oposição, as supostas “verdades sobre israelenses e palestinos”. Títulos de dois textos antagônicos publicados pelo jornal “O Globo”, na primeira semana de janeiro, seguidos de uma tréplica, a favor de Israel, onde o termo “verdades”, um tanto pretensioso, é substituído pela palavra “fatos”, que sugere algo mais pé no chão, mais afeto à realidade.
Diferente de temas caros ao maior e mais influente matutino carioca - como o agronegócio que dificilmente é questionado em suas vertentes de desigualdade em seus painéis de opinião - o estado de Israel é um tópico recorrente em suas páginas, com apreciável destaque (similar ao que acontece nos jornais “Folha de São Paulo” e “O Estado de São Paulo”), principalmente quando o país é posto em um patamar negativo sob o prisma internacional ou sofre sanções e restrições.
Imediatamente pipocam na imprensa as naturais manifestações individuais ou de representantes da comunidade judaica brasileira que ao abrirem espaço na mídia para a defesa de Israel automaticamente também escancaram aos seus antagonistas espaços iguais e valiosos para as contestações repetitivas de clichês que esses diálogos pós-verdade produzem: a sensação de que apelos à emoção e a crenças pessoais repercutem de maneira mais eficaz na opinião pública do que a correta apresentação de fatos objetivos. 
No apagar das luzes

O gatilho para o mais recente embate de verborragia foi o longo discurso do secretário de Estado do ex-presidente Barack Obama, John Kerry, em 28 de dezembro do ano passado - a pouco menos de um mês do término dos oitos anos de gestão democrata -, justificando a posição americana de se abster de votar no Conselho de Segurança da ONU sobre as colônias israelenses na Cisjordânia e de tampouco se valer de seu poder de veto sobre a questão (o que foi usado em 2011 em situação semelhante). A resolução aprovada cinco dias antes pelos 14 países-membros exigia que Israel interrompesse de imediato a implantação de assentamentos sob o argumento de que as colônias são um entrave para a paz e “colocam em risco a viabilidade da solução de dois Estados”.
O veterano jornalista Zevi Ghivelder, que foi correspondente em Israel da extinta revista “Manchete”, em artigo crítico à fala de Kerry (“Imprecisões e omissões”, em 1/1/2017), perseverou na indispensável premissa política necessária para o início de qualquer negociação que envolva os dois lados da questão: o reconhecimento, pelos palestinos, do direito de Israel de existir. Uma equação elementar que, de forma vexatória, o governo israelense precisa reprisar, dia após dia, como se fosse um mantra indecifrável e intrincado acima da compreensão dos simples mortais.  
Ghivelder também alerta para um detalhe que faz toda a diferença, já que no âmbito palestino existem hoje dois estados distintos, um na Cisjordânia, sob a administração do Fatah, e a outro na Faixa de Gaza, dominado pelo Hamas. E indaga:  “Com quem, então, negociar?”. Com a agravante de que o grupo extremista na Faixa de Gaza continua armazenando mísseis e construindo túneis para atacar Israel.
Outro ponto lembrado pelo jornalista foi a proibição por Israel de novos assentamentos, logo no início do governo Obama, em 2009. Resultado: durante os dez meses em que isso ocorreu não houve avanço nas negociações de paz entre as partes. Quanto ao retorno às fronteiras de 1967, variante ressuscitada irresponsavelmente, de tempos em tempos, Ghivelder aponta um fato inconteste em matéria de segurança nacional: o afunilamento da faixa territorial israelense resultaria em tragédia porque em questão de minutos o país seria cortado ao meio no caso de uma invasão.
No campo das “omissões”, Guivelder se utiliza de um argumento-padrão bastante usual entre os que apoiam Israel que é o de apontar outras situações geopolíticas complicadas que também mereceriam reprimendas das grandes potências ocidentais. Esse tipo de comparação se constitui em uma armadilha se analisado pela perspectiva ética de que um provável mal não justifica outro. Diante da opinião de Kerry que julga “inaceitável” a presença de Israel no território palestino, o articulista cita a ocupação do Tibete pela China e a presença da Rússia na Crimeia, Chechênia e leste da Ucrânia, situações que têm passado ao largo do censor crítico do ex-secretário americano, segundo o analista.
Mão de obra barata
 Por outro lado, a fala de Kerry agradou ao jornalista Rasheed Abou-Alsamh que escreve regularmente em “O Globo” e é correspondente na América Latina do “Arab News”, da Arábia Saudita. Ele nasceu em Washington, de mãe americana e pai árabe, e tem nacionalidade saudita. Alsamh classificou o discurso de “emocionante” e comparou os palestinos aos latinos explorados nos EUA. “Parece-me que os palestinos são vistos como uma fonte de mão de obra barata pelos israelenses”, avalia o jornalista. Ele destaca que os “palestinos são obrigados a esperar em filas horas a fio, e são humilhados pelos soldados israelenses, somente para entrar em Israel para trabalhar ou voltar para a Cisjordânia”
Culpando a direita e a extrema-direita que comandam Israel pelo impasse que inviabiliza a solução de dois estados, Alsamh afirma que todos os palestinos e árabes querem “um Estado palestino independente na Cisjordânia e em Gaza, com Jerusalém Oriental como a sua capital”. Para o jornalista árabe não é verdade que Israel está rodeada de inimigos como justificam as autoridades israelenses. “Israel já tem acordos de paz com o Egito e a Jordânia. E tem relações camufladas com quase todos os países do Golfo”, afirma Abou-Alsamh, citando a visita de uma delegação não oficial de empresários e acadêmicos sauditas que se encontraram com membros do parlamento (Knesset), em julho de 2016.
Diante dessa visão cor de rosa e simplista de que Israel exagera em sua paranoia de segurança, o jornalista evoca a iniciativa de paz árabe de 2002, em que todos os países árabes reconheceriam o estado de Israel, mas com a condição de que os israelenses se retirassem de todos os assentamentos e de Jerusalém Oriental, e até indenizassem os palestinos que saíram de Israel por vontade própria. Com essas iniciativas, de acordo com o articulista, “os ataques contra israelenses cairiam dramaticamente” (“Verdades sobre israelenses e palestinos”, em 6/1/2017).
A esse respeito, Ghivelder lembra que com a implantação do estado de Israel, em 1948, milhares de judeus tiveram que deixar os países árabes onde viviam há várias gerações. “A rigor, quem vai compensar os 800 mil judeus, homens, mulheres e crianças que foram expulsos dos países árabes naquele mesmo ano?”
Exemplo de Gaza
Em contraponto ao texto de Abou-Alsamh, que lamentavelmente representa uma vertente global majoritária, o presidente da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (Fierj), Herry Rosenberg, se dispôs a esclarecer o que classificou de “inverdades e meias verdades” sobre o conflito entre israelenses e palestinos expressas no artigo do jornalista árabe. Segundo o representante judaico, Gaza foi devolvida integralmente aos palestinos em 2005, sem as colônias judaicas ali existentes, e nem por isso estabeleceu-se a paz. Ao contrário, de Gaza saem os mísseis e os terroristas que provocam danos e mortes (“Os fatos sobre israelenses e palestinos”, em 13/1/2017).
No tocante às barreiras de proteção, Rosenberg lembra que o trânsito era livre “até que os palestinos passaram a aproveitar essa liberdade para enviar dezenas de homens-bomba para explodirem-se em ônibus, restaurantes e universidade de Israel”. E cita a presença de quase dois milhões de árabes vivendo no país com plenos direitos de cidadãos, enquanto palestinos advogam um futuro estado palestino “livre de qualquer judeu”.
Considerando que a Cisjordânia é parte da história bíblica judaica, região originalmente conhecida como Judeia e Samaria, soa como uma intransigência descabida a não permissão aos judeus de continuarem morando nesses locais. Daí a demanda israelense nesse sentido em qualquer negociação de paz, associada à questão da segurança nacional. ”Enquanto os israelenses não estiverem seguros de que um futuro Estado palestino não será usado como plataforma para ataques a Israel, como já acontece em Gaza, não haverá chance de acordo”, prevê o representante da Fierj.
Guardião do povo judeu
Encerrando o singular ciclo opinativo sobre Israel e a temática judaica, o cônsul honorário de Israel no Rio de Janeiro, Osias Wurman, na véspera do Dia Internacional em memória das vítimas do Holocausto (26.01.2017), reforçou a tese de que “se houvesse o Estado de Israel na época (da Alemanha nazista), o genocídio não aconteceria” (“A ONU e o Holocausto”, em 26/1/2017). Ainda que pese a comprovada ignorância de considerável parcela da humanidade acerca do assassinato em massa de seis milhões de judeus.  “Uma pesquisa global realizada em 2014, já mostrava que 46% dos entrevistados nunca tinham ouvido falar de Holocausto!”, alerta Wurman.
O texto também tem como miolo central a Resolução 2.334, de 23 de dezembro de 2016, aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU, que condenou os assentamentos judaicos na Cisjordânia e em Jerusalém Ocidental, alegando que os mesmos se constituíam obstáculos para a paz. Wurman rebate esse argumento observando que entre 1948 e 1967 não havia qualquer colono morando em território pretendido pelos palestinos e ainda assim houve atentados, agressões e incitamentos ao ódio por parte dos palestinos. “Desde 1948, quando foi declarada a independência do Estado de Israel, até 1967, quando Israel defendeu-se do ataque de seus vizinhos, conquistando a Cisjordânia e libertando Jerusalém Oriental da soberania jordaniana, não houve um dia sequer de paz.”
Por fim, a posição oficial do governo israelense é explicitada mais uma vez de maneira peremptória: “Nada que a ONU ou a Unesco propuseram através de resoluções que ignoram as raízes judaicas existentes nas cidade de Jerusalém e nas bíblicas Judeia e Samaria fará com que o sonho de dois estados convivendo lado a lado possa ser concretizado.”
Em resumo, quatro textos de bom calibre que apenas reforçam ideários, posições e propostas já consagradas, de ambos as partes. Agora é imaginar se alguma coisa mudou na cabeça do leitor comum, que não é judeu, em relação a Israel e ao conflito com os palestinos. Ou a finalidade era outra?


Um adendo pós-matéria: O cineasta Cacá Diegues que escreve regulamente aos domingos em “O Globo” e já emitiu críticas ácidas ao poder dos judeus em Hollywood, mudou o disco e abordou de maneira simpática a presença dos judeus no emblemático filme “Casablanca” (“Sempre haverá Casablanca”, em 12/3/2017). Isso se deu em face de um livro recém-lançado, escrito por um judeu, que conta os bastidores do filme. Importante:o livro lhe foi ofertado pelo jornalista Zevi Ghivelder. Um tipo de iniciativa que talvez surta mais efeito do que mil argumentos entrincheirados em confortáveis bunkers.



sábado, 25 de fevereiro de 2017

Judeus americanos se encontram com o Papa


Sheila Sacks

Um grupo de representantes da organização judaica americana “Anti-Defamation League” (ADL) esteve com o Papa no Vaticano, em 9 de fevereiro, para reafirmar o seu apoio aos esforços do sumo pontífice em condenar o antissemitismo que cresce na Europa.

No encontro, o papa Francisco expressou a sua gratidão pelo diálogo e as relações estreitas que a instituição mantém com Roma, e disse que a Igreja Católica sente-se particularmente obrigada a lutar contra as tendências antissemitas que são completamente contrárias aos princípios cristãos e a toda visão digna da pessoa humana. O papa também elogiou a ADL no seu trabalho de combater o ódio investindo em educação e promovendo o respeito a todos, principalmente aos mais fracos e necessitados.

O site católico “Zenit” reportou a visita, em 11 de fevereiro, sob o título “Papa Francisco condena antissemitismo e apela a não-violência – Judeus e católicos juntos contra o ódio”. No site da ADL, o encontro foi divulgado no mesmo dia da visita, em 9 de fevereiro: “ADL Leaders and Pope Francis Join to Reaffirm Jewish-Catholic Relations and Denounce Anti-Semitism”.

Catálogo de móveis gera polêmica em Israel

A rede sueca de móveis e utensílios domésticos IKEA reclamou do seu franqueado em Israel pela capa do catálogo de propaganda veiculado no país que exibe uma suposta família apenas integrada por pessoas do sexo masculino.  Na imagem, um homem de quipá, trajando calça preta, camisa branca e talit, folheia um livro, perto de uma estante, enquanto duas crianças brincam no chão da sala. A ausência de presença feminina na foto não agradou a multinacional que através de seu porta-voz garantiu que tal fato não vai se repetir e que o polêmico catálogo deve ser retirado de circulação.

Com móveis muito apreciados pela comunidade ortodoxa de Israel, a franquia está presente em Israel há 16 anos. Reportagem do jornal espanhol “El Pais”, em 16.02.2017, - “Mulheres e meninas desaparecem de catálogo da IKEA em Israel” - relata o imbróglio que irritou a matriz, causando constrangimento à marca e virando piada nas redes sociais.

Sob pressão da marca sueca, o diretor-geral da rede em Israel, em comunicado público, pediu desculpas pela ausência de mulheres na foto e prometeu que “as futuras publicações refletirão a posição da IKEA ao mesmo tempo em que demonstrarão respeito pela comunidade haredi (ultraortodoxa)”.

Encontrada caverna que pode ter abrigado pergaminhos do Mar Morto

Arqueólogos da Universidade Hebraica descobriram uma caverna milenar, do período do Segundo Templo, a oeste de Qumram, perto da costa noroeste do Mar Morto, que possivelmente serviu de esconderijo para os pergaminhos conhecidos como os Rolos do Mar Morto.

A revelação acontece mais de 60 anos depois das escavações que resultaram na descoberta de 11 cavernas com pergaminhos armazenados em frascos ou jarros. Semelhante a caverna 8, onde não foram encontrados pergaminhos, a caverna recém-descoberta (de número 12) apresenta jarros quebrados, fragmentos de envelopes, pedaços de corda e outros itens que demonstram que o local foi saqueado (provavelmente na década de 1950) e seu conteúdo roubado.

Para os especialistas israelenses que participaram da escavação, a descoberta desta 12ª caverna muda a certeza da localização original dos manuscritos bíblicos encontrados, restrita às cavernas 1 a 11, de acordo com as informações passadas pelos beduínos. Israel Hasson, autoridade em antiguidades, diz que o estado de Israel precisa se mobilizar e alocar recursos para essas operações de resgate histórico nas cavernas do deserto da Judeia. “Estamos em uma corrida contra o tempo, enquanto ladrões de antiguidades roubam heranças patrimoniais em todo o mundo para obter ganhos financeiros.”

Fonte: Site da Universidade Hebraica de Jerusalém
Artigo: “Hebrew University Archaeologists Find 12th Dead Sea Scrolls Cave”, publicado em 08.02.2017.

Chilenos pouco sabem sobre judeus e a Shoá

O presidente da comunidade judaica do Chile (CJCH), Shai Agosín, contou que através de uma consulta realizada em 2016, ficou constatado que poucos chilenos conhecem o judaísmo ou sabem alguma coisa sobre os judeus. Isso porque o Holocausto (Shoá), por exemplo, não é um tema que faz parte dos programas educativos das escolas locais.

Com uma comunidade em torno de 15 mil pessoas, os judeus chilenos dispõem de três colégios judaicos, atendendo 1.400 crianças e jovens, diferentes sinagogas e clubes, totalizando 50 instituições. Em contraposição, é no Chile que se concentra a maior comunidade palestina fora do mundo árabe. São 450 a 500 mil palestinos e seus descendentes que começaram a chegar ao país no início do século passado.

Considerando a influência e a participação ativa dessa comunidade na vida chilena, é bem grande a repercussão dos conflitos que ocorrem no Oriente Médio relacionados com Israel. Segundo Agosín, os fatos envolvendo palestinos e israelenses acabam gerando variadas ondas de antissemitismo classificadas pela mídia de antissionismo. E cita um fato recente: o tweet do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu aplaudindo o presidente Trump pelo muro que pretende construir na fronteira com o México para barrar a entrada de imigrantes ilegais.

A declaração, que ganhou a mídia mundial - no Brasil, o fato foi noticiado pelo jornal “Extra” da organização “O Globo” (“México censura Israel por tweet de Netanyahu”, em 29.01.2017)- não só irritou o governo do México que emitiu uma nota de protesto, mas também foi rejeitada pela comunidade judaica daquele país. “Coisas desse tipo são como destampassem um pote que permite sair o pior do antissemitismo”, afirma o representante judaico.

Um ano difícil para os judeus?

Na avaliação de Agosín, 2017 será um ano muito complexo para as comunidades judaicas. Utilizando-se da numerologia, ele considera os acontecimentos que se sucederam tendo o número 7 nas datas são bastante impactantes: 1897, Primeiro Congresso Sionista; 1917, Declaração Balfour; 1947,  o plano de dois estados; 1967, a Guerra dos Seis Dias; 1987, a primeira Intifada.

Fonte: Newsletter “Iton Gadol”, da Argentina, em 21.02.2017

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Israel: quando o terrorismo se reinventa

Por Sheila Sacks
publicado na versão online do "Correio do Brasil"

A série de incêndios florestais que durante seis dias atingiu centros urbanos importantes como Haifa e arredores de Jerusalém reacende a hipótese do envolvimento de ações criminosas nesse episódio que tomou ares de um dos maiores desastres do país, deixando um rastro perverso de danos ambientais, sociais e materiais de enorme envergadura.

Sofrendo com a falta de chuvas e ventos fortes, os incêndios provocaram a retirada de mais de 80 mil pessoas que vivem na cidade litorânea de Haifa, no norte de Israel, que tem 280 mil habitantes, entre judeus e árabes. Em 2010, a cidade já havia enfrentado um incêndio que resultou em 44 mortes. Cidades perto de Jerusalém e comunidades na Cisjordânia também tiveram de ser evacuadas afetadas por focos de incêndios e muita fumaça.

Ao anunciar no domingo, 27 de novembro, que os incêndios estavam sob controle, o porta-voz da polícia Micky Rosenfeld destacou que os aviões continuavam jogando água em áreas como a de Haifa, a terceira maior cidade do país, em um trabalho de prevenção. Cerca de 1,6 mil apartamentos e casas ficaram totalmente danificados sendo que 500 deles inabilitados para moradia. Os estragos na cidade estão estimados em 120 milhões de dólares. Segundo informações da agência France-Presse (AFP), foram destruídas mais de 13 mil hectares de florestas no país e detidas 23 pessoas suspeitas de terem provocado os incêndios.

Nova ameaça

Em reportagem, a agência de notícias espanhola EFE divulgou que autoridades israelenses consideram que muitos dos fogos foram provocados e que o primeiro-ministro israelense, Benjamim Netanyahu, falou sobre uma onda de terrorismo incendiário. Seria um novo tipo de terrorismo que Israel enfrenta, declarou o ministro de segurança pública, Gilad Erdan. Uma situação preocupante não só para Israel, caso as suspeitas se confirmem, mas em relação a qualquer outro país do planeta.

No Brasil - onde as facções criminosas e as milícias interagem com ilícitos pesados, desde a comercialização de drogas, armas e serviços até roubos de cargas e assassinatos, comandando as operações de dentro das cadeias em um arrogante desafio às forças policiais - alguém já parou para pensar se, por exemplo, nossa floresta da Tijuca, no miolo do Rio de Janeiro, uma das maiores florestas urbanas do país, com 4.200 hectares, vir a ser incendiada pela bandidagem? Ou virar alvo de atos de sabotagem de cidadãos indignados ou revoltados pelas centenas de mazelas públicas que são condenados a suportar no seu humilhante dia a dia?

Preconceito na rede

Em um mundo globalizado de ditadura digital, com a mídia informativa jorrando notícias continuadamente e as redes sociais temperando as informações, sempre com muito sal, os fatos acabam sendo engolidos pelas versões. Sejam em relação ao estado de Israel, a outros países, povos, religiões etc. As redes opinam, sugerem, reciclam, distorcem, amplificam e redesenham os ângulos das questões de acordo com o perfil ideológico dos indivíduos e os preconceitos inerentes à formação de cada um. Uma miscelânea que muda o conceito original de massa, que de acordo com o dicionário Aurélio consiste em um “número considerável de pessoas que mantêm entre si uma certa coesão de caráter social, cultural, econômico”.

Mas, no mundo virtual, independente de aspectos sociais, culturais e econômicos que podem ser díspares, o preconceito e a intolerância têm o poder nefasto de juntar as pessoas. Muito mais do que separá-las. Percebe-se que inúmeras vezes o fato real que ensejou a notícia perde-se em labirintos de interpretações ou fica em segundo plano, emergindo em contraponto, de forma intencional, um dado correlato posto a serviço da neutralização ou negação do fato real veiculado.


Nos incêndios ocorridos em Israel a maior vítima foi a sua população em todos os seus segmentos. Sabe-se que motivações de qualquer espécie não justificam atos de violência e vandalismo, e que nas proporções que afetaram o país configuram-se reais ações de terrorismo. Logo, existindo culpados, a eles a lei deve ser aplicada.   

domingo, 27 de novembro de 2016

Criminosos comuns aderem à jihad, informa instituto britânico

Por Sheila Sacks
“Quando as portas da prisão se abrem, o verdadeiro dragão sai voando” (Ho Chi Min, líder comunista vietnamita, falecido em 1969)

Prisões europeias estão transformando jovens que assaltam e roubam em futuros terroristas. A doutrina da guerra santa se infiltrou entre as grades e deu sentido aos seus históricos de violência.

publicado no Correio do Brasil

Em mais uma de suas pesquisas focadas no extremismo político, o Centro Internacional de Estudo da Radicalização e Violência Política (ICSR, na sigla em inglês), do King’s College London, divulgou relatório em que aponta a crescente adesão de criminosos comuns e ex-presidiários a grupos religiosos fanáticos como o Estado Islâmico (EI), a rede al-Qaida e a milícia síria Jabhat al-Nusra que pregam a Jihad - guerra santa -  contra aqueles que não estejam alinhados com o ideário de um Islã fundamentalista. Segundo o estudo, a conexão entre o terrorismo e a deliquência tem aumentado na Europa e para isso concorre o próprio sistema prisional que abriga centenas de “jovens revoltados” que acabam se radicalizando de forma mais rápida nas prisões do que quando doutrinados nos centros religiosos ou guetos.

Na apresentação do trabalho, em outubro deste ano, o diretor do ICSR e co-autor da pesquisa, Peter Neumann, observou que jovens detidos por crimes violentos são mais propensos ao extremismo bárbaro. “O Estado Islâmico representa a brutalidade, a força e o poder que esses jovens, frequentemente ex-integrantes de gangues, buscam.” Neumann, nascido na Alemanha, é mestre em Ciência Política, especialista em segurança e terrorismo, professor do King’s College London e autor de vários livros sobre o tema, sendo o mais recente “Radicalized: New Jihadists and the Threat against the West” (“Radicalizados: Novos Jihadistas e a ameaça contra o Ocidente”, em tradução livre).

Recrutamento nas prisões 

Com 52 páginas, o documento “Criminal Pasts, Terrorist Futures: European Jihadists and the New Crime-Terror Nexus” analisa os perfis de 79 extremistas que a partir de 2011 se deslocaram para o exterior para combater no Iraque e na Síria ou participaram de atentados na Europa. Eram originários da Bélgica, Dinamarca, França, Alemanha, Holanda e Reino Unido, alguns com descendência árabe.

O documento elaborado pelo ICSR  descobriu que mais da metade deles, cerca de 57%, tinham antecedentes criminais, tendo passado um período presos antes de aderir ao jihadismo. Desse grupo, 27% dos detidos se radicalizaram na prisão contrariando o senso comum de que são as mesquitas e os centros religiosos os locais dessa prática de aglutinação, conforme o foco e as ações dos serviços de segurança.

Para Newmann a familiaridade de ex-presidiários com armas, drogas e ilícitos em geral – como o acesso a documentos falsos e a circuitos ocultos de financiamento - promove uma funesta interação entre o crime e o terror, agora pretensamente justificados sob  o manto da religião. Se antes eram considerados criminosos comuns, a partir de seu recrutamento pela jihad ganham uma espécie de aval para cometer crimes ainda maiores com a salvaguarda de uma suposta redenção e ascensão ao paraíso.

O relatório reproduz um pôster de um grupo jihadista que estampa o slogan: “Sometimes people with the worst pasts create the best futures” (“Às vezes pessoas com os piores passados criam os melhores futuros”, em tradução livre). A propaganda apresenta um jovem de costas, de botinas e roupa preta, empunhando um fuzil kalashnikov, de fabricação russa, tendo ao fundo uma luz fulgurante. O cartaz foi compartilhado no facebook pelo grupo britânico jihadista Rayat al-Tawheed que alicia para o EI jovens envolvidos com gangues criminosas, prometendo a salvação de suas almas pela jihad. Algo bem diferente de tempos atrás quando os movimentos islâmicos enfatizavam o valor da crença e o fervor religioso absoluto à causa.

Pouco conhecimento teológico

Em entrevista ao “The Independent”, jornal britânico on-line, o professor Newman explica que com o surgimento do EI o perfil dos extremistas islâmicos tem mudado. ”Muitos analistas continuam dizendo que os terroristas são oriundos das classes média e alta, recordando, por exemplo, que Osama Bin Laden era filho de um milionário e o ataque de 11 de setembro foi praticado por estudantes. Mas essas afirmações não refletem a realidade que temos hoje com o Estado Islâmico”.

Na reportagem “Isis recruiting violent criminals and gang members across Europe in dangerous new crime-terror nexus”, veiculada em 10.10.2016, Newman revela que a pesquisa constatou que os atuais extremistas recrutados pelo EI não apresentam um conhecimento teológico profundo da Shaaria (conjunto de leis baseado no Alcorão, o livro sagrado do Islamismo, e na vida do profeta Maomé) e continuam a fumar, beber e a usar drogas até a partida para o local do combate. Diferentes dos terroristas da al-Qaida - indivíduos radicalizados para a violência em função de uma interpretação extremista do Islã - , os novos militantes do terror são pessoas de comportamento violento que encontraram no radicalismo islâmico uma maneira de prosseguir no submundo do crime sob uma pretensa justificativa religiosa. 

A propaganda de recrutamento é bem explícita, analisa Newman. “Basicamente diz que você pode se inscrever para a missão mesmo sem conhecer o verdadeiro Islã. A ideologia do EI enfatiza menos o conhecimento teológico e mais a absoluta obediência a sua própria interpretação da luta jihadista. O estudioso acredita que  em muitos casos é bem mais difícil convencer algum ativista estudantil que passa a apoiar a ideologia jihadista a praticar um ataque com mortes do que um outro com um passado de atos de violência.

O relatório do ICSR cita alguns exemplos de criminosos que aderiram à  jihad. Um deles é Abderrozak Benarabe, nascido na Dinamarca, perigoso traficante de drogas, conhecido como “Big A”, dono de um extenso prontuário criminal em Copenhague e que decidiu se voltar para o jihadismo e lutar na Síria depois que seu irmão foi diagnosticado com câncer. “Não basta apenas rezar, com tanta coisa errada que eu fiz”, justificou. O britânico de descendência síria, Ali Almanasfi, também viajou à Síria e se juntou à milícia Jabhat al-Nusra, em 2013. Envolvido com drogas e roubos, ele passou um longo período na prisão após participar de um violento assalto a um idoso. Ao explicar a um amigo a razão de seu engajamento à  jihad, Almanasfi, que morreu cinco meses depois, aos 22 anos, na cidade síria de Idlib, confessou: “Pelo menos uma vez eu quero fazer alguma coisa boa. Alguma coisa pura.”  

 Sem futuro

Fortalecendo a tese, o antropólogo francês Alain Bertho, professor da Universidade Paris 8, atribui o sucesso do Estado Islâmico entre os jovens desestabilizados ao fato de o grupo terrorista oferecer um sentido ao mundo e às suas vidas. “O Estado Islâmico lhes dá até uma missão”, acentua. Respondendo às perguntas do jornalista Ivan Du Roy, do site alternativo “Basta!”, focado em problemas sociais, econômicos e ambientais, o antropólogo culpa as sociedades em geral de não investirem no futuro dos jovens, na sua educação e nas universidades. “Será que refletimos bem sobre como seria a revolta sem esperança?”, provoca. 

Segundo Bertho, para combater de forma eficaz o Estado Islâmico e sua oferta política de morte e desespero “é preciso refletir sobre a revolta que está na raiz desses crimes”. Ele observa que “uma sociedade que já não consegue se reinventar leva as pessoas a manifestações de desespero e de raiva’, e que “o século 21 abandonou o futuro em nome da gestão do risco e da probabilidade, indiferente à ira das gerações mais jovens”.

Autor do livro “Les enfants du chaos” ( “Os filhos do Caos” ), Bertho acusa a globalização e a crise generalizada da representação política de aumentarem a violência e os motins, provocando uma onda de desilusão, desesperança e “fúria radical” nas novas gerações. “Gerencia-se o cotidiano através de políticos que manipulam o risco e o medo como meios de governo, seja o risco à segurança ou o risco cambial, que falam muito de aquecimento global, mas são incapazes de antecipar a catástrofe anunciada.” De acordo com o antropólogo, essas revoltas radicais encontram-se hoje diante de tamanhos impasses que o Estado Islâmico surge como uma opção de ira, martírio e libertação. 

Fracasso na educação

O estudioso em Ciência das Religiões, professor Paulo Mendes Pinto, da Universidade Lusófona de Lisboa, também credita ao sistema educacional uma forte dose de responsabilidade no crescimento do extremismo na Europa. Ele denuncia o fracasso do modelo educacional europeu como causa da adesão de jovens ocidentais ao radicalismo do Estado Islâmico. "Os jovens, perante os desalentos que a Europa lhes dá - desemprego, falta de valores, corrupção, luta cega por riqueza -, optam por um modelo diferente”, critica o acadêmico, em depoimento à agência de informação Lusa (“O que atrai os jovens ocidentais ao Estado Islâmico?”, em 26.09.2014).

 À frente do Instituto Al-Muhaidib de Estudos Islâmicos, Mendes Pinto é editor da revista “Cadernos de Estudos Sefarditas”, da Universidade de Lisboa e mantém uma coluna sobre religião no jornal “Público”. Em sua opinião, o sistema de ensino que deveria alimentar as ideias de liberdade, fraternidade e igualdade da Revolução Francesa, que ainda continuam válidas, objetivamente não consegue passar esses princípios. “Devemos pensar sobre o que é que a nossa sociedade tem que faz com que, quando pensávamos que vivíamos em regimes onde a liberdade nos tinha vacinado de radicalismos, acontece exatamente o contrário”, alerta o especialista.

Um exemplo dessa falha social pôde ser constatado com a prisão de Khalid Zerkani, em julho de 2015. A justiça belga o condenou a 12 anos de prisão por difundir ideias extremistas entre “jovens ingênuos, frágeis e agitados”. Com 42 anos, ele foi acusado de participação em atividades de organização terrorista e considerado “o arquétipo de um mentor subversivo”.  

Doutrina de ódio

Morador do bairro de Molenbeek, em Bruxelas, Zerkani manteve conexões diretas ou indiretas com os jovens que participaram da série de ataques em Paris (o maior deles à casa de show Bataclan), em 13 de novembro de 2015 - que matou 130 pessoas e feriu 352 -, e nos atentados no metrô e no aeroporto de Bruxelas, em 22 de março de 2016, com 32 mortes e 300 feridos. "Zerkani perverteu toda uma geração de jovens, especialmente no bairro de Molenbeek" (de maioria islâmica), afirmou o promotor belga Bernard Michel que acompanhou o caso. É o que mostra a reportagem “Em Bruxelas, mentor jihadista ensinava ‘islamismo bandido’ a jovens revoltados” (“The New York Times” e “UOL internacional”, em 12.04.2016).

 Segundo as autoridades de segurança da Bélgica, por mais de uma década Zerkani foi um elemento central da rede terrorista que abasteceu com conselhos, dinheiro, armas e explosivos jovens muçulmanos de origem europeia ansiosos para combater na Síria e na Somália ou para causar destruição na Europa. Investigadores citam Abdelhamid Abaaoud, 28 anos, apontado como comandante operacional dos ataques em Paris (morto cinco dias depois pelo polícia francesa) e Najim Laachraoui, 25, um dos homens-bomba suicida nos atentados em Bruxelas e que igualmente esteve envolvido com o massacre na capital francesa.  Abaaoud já tinha sido preso três vezes por assalto e outros delitos e Laachraoui - que chegou a estudar engenharia na Universidade Livre de Bruxelas, mas não concluiu o curso – esteve na Síria, em 2013, nas fileiras do Estado Islâmico lutando contra o regime de Bashar al-Assad.

Outros envolvidos com Zerkani seriam Mohamed Abrini, 31 anos, preso acusado de ter participado dos ataques em Bruxelas e morador do distrito de Molenbeek, e Reda Kriket, um francês de 34 anos, preso em março deste ano pela polícia francesa, suspeito de estar planejando um ataque iminente e “sem precedentes”. Em seu apartamento foi apreendido documentos falsos, produtos químicos e um arsenal de armas e explosivos semelhantes aos usados nos ataques em Paris e Bruxelas.

Com 1,6 bilhão de praticantes (23% da população mundial), o islamismo tem maioria religiosa em 49 nações. A previsão para os próximos 35 anos é que haja um crescimento considerável desse grupo religioso, em virtude de sua maior taxa de fertilidade e de população jovem. Um estudo demográfico realizado pelo “Pew Reseach Center”, de Washington, em 2015, sobre o futuro das religiões (Global Religious Futures) calcula que em 2050 o Islã terá 2,76 bilhões de seguidores (29,7%), aproximando-se dos 2,91 bilhões de cristãos que irão compor os 31,4% da população global.



sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O deserto e o novo mundo - O sonho de liberdade na descoberta da América

por Sheila Sacks

A melhor testemunha é o documento escrito 
(Carl Sandburg, historiador e poeta americano)

Em 2016, o feriado de Columbus Day foi comemorado nos Estados Unidos em 10 de outubro, a segunda segunda-feira do mês. No Brasil e em outros países do continente, a descoberta da América tem data certa, festejada em 12 de outubro, dia em que Cristóvão Colombo, no longínquo ano de 1492, se deparou com o horizonte de uma terra desconhecida.

Luis Torres, membro da expedição de Colombo, assim escreveu no diário de bordo acerca do histórico dia: “Sexta-feira, duas horas depois do meio-dia, Hoshana Rabá ( sétimo dia de Sucot), no calendário judaico, vigésimo primeiro dia do mês de Tishrei, no ano de 5235 depois da Criação.”

Torres era um judeu recém converso ( provavelmente de nome Yosef ben Halevi Halvri) e profundo conhecedor do hebraico, aramaico e árabe. Ele assim relata a madrugada da descoberta: “ Eu escutava toda a noite Rodrigo de Triana recitar os Tehilim (Salmos de David)... Nós ficamos acordados toda a noite e com  a primeira luz trêmula da manhã, um de nós avistou a terra. Rodrigo correu para avisar Colombo.”   Para a maioria dos pesquisadores foi Rodrigo de Triana quem gritou “Tierra!Tierra!” ao perceber uma silhueta diferente no horizonte. No calendário cristão era sexta-feira, 12 de outubro.

Coube a Luis Torres ser o primeiro europeu a pisar o novo mundo. Ele foi um dos 39 tripulantes que não voltaram à Espanha com Colombo, permanecendo no assentamento de Natividade, na Ilha de Santo Domingo (São Domingos) onde hoje estão a República Dominicana e o Haiti. Torres deixou as Antilhas em fevereiro de 1494, retornando à Espanha com doze navios de uma frota de dezessete que Colombo trouxera em sua segunda viagem ao novo continente, em dezembro de 1493. Meses depois, em abril de 1494, Colombo teria deixado São Domingos com três caravelas, uma delas a Niña, em direção a Cuba e Jamaica.

Ainda acerca de Luis Torres, um documento escrito por ele, datado de 1523, afirma que sete judeus participaram da expedição de Colombo, e cita Rodrigo de Triana, quem primeiro avistou a terra, Rodrigo Sanchez, imediato da frota e dois médicos de nomes Birena e Marco.  

Judeus financiaram Colombo

Essas informações estão no livro “Columbus then and Now – A Life Reexamined” ( ‘Colombo então e agora – Uma vida revista’, em tradução livre, publicado em 1997 ), de Miles H. Davidson, pesquisador independente que viveu na República Dominicana e estabeleceu um vasto acervo sobre o descobrimento. Ele contesta várias versões disseminadas sobre a viagem de Colombo, inclusive sobre a morte de Luis Torres que teria ocorrida em 1493, em Natividade. Davidson se utiliza de manuscritos dos séculos 16 e 17, de diários, cartas e registros navais da época para analisar cronologicamente os fatos que marcaram a vida do navegador e o papel desempenhado pelos judeus na primeira viagem de Colombo à América.

A obra e o autor são citados no artigo “Sukkot guide for the Perplexed 2016” (‘Guia de Sucot 2016 para os perplexos’, em tradução livre), assinado por Yoram Ettinger, ex-consul de Israel em Houston, no Texas, e chefe do escritório de Imprensa do governo israelense em 1988 e 1989. Publicado na edição online do semanário americano “The Jewish Press” (em 14.10.2016), o texto foi  extraído do livro de Ettinger, “Jewish Holidays Guide for the Perplexed” (‘ Feriados Judaicos - Guia para os perplexos’, em tradução livre), editado em 2014.

Para Ettinger, a Festa dos Tabernáculos ou das Cabanas  “comemora a transição do povo judeu de escravo, no Egito, para a soberania na terra de Israel, da vida nômade no deserto onde viveu em cabanas por 40 anos,  à permanência na terra prometida”. Engloba igualmente o sentido universal da libertação, uma aspiração comum a toda humanidade. Assim, ele enxerga uma “aliança” espiritual entre a descoberta da América e Sucot, pela convergência das datas. A visão de um novo mundo justamente no sétimo dia de Sucot, em Hoshana Rabá -  considerado por nossos sábios como o último dia de “julgamento” divino no qual o destino do ano novo é determinado – se afigura como o prenúncio de um novo tempo de libertação e milagres.

Sobre a chegada ao novo mundo, Davidson conta que Luis Torres escreveu no fim de seu diário de bordo: “Nós desembarcamos na praia de  San Salvador ( Guanahani, para os nativos) e tomamos posse do novo mundo para a Espanha. Cristóvão Colombo sempre acreditou que essa ilha e outras que ele posteriormente avistou  na viagem do descobrimento eram as Índias, perto do Japão ou China.” O pesquisador contesta versões de autores norte-americanos sobre a possível intenção de Colombo de chegar a novos continentes e também o real horário do avistamento, que para alguns biógrafos aconteceu duas horas depois da meia-noite de 12 de outubro.

Quanto aos recursos para a expedição de Colombo, Davidson cita os judeus Abraham Senior, rabino-mor e chefe da coleta de impostos dos reis espanhóis Fernando de Aragão e Isabel de Castela, e Isaac Abravanel, que administrava as receitas da casa real, ambos sob o foco do édito real de expulsão dos judeus da Espanha, expedido em 31 de março de 1492. Segundo o autor, Fernando e Isabel trabalharam para persuadi-los a se converterem e permanecerem na Espanha, como o fizeram Alonso de Cabrera, Luis de Santagel ( escriba da casa real) e Gabriel Sanchez, judeus conversos envolvidos com o financiamento da expedição. Porém, apenas Senior, natural de Segóvia, aceitou a conversão, falecendo no ano seguinte. Abravanel, nascido em Lisboa, partiu para o exílio e ainda viveu mais dezesseis anos em cidades como Nápoles, Messina e Veneza, prestando serviços nas áreas financeira e diplomática à nobreza.

Após a viagem, as duas primeiras cartas enviadas por Colombo narrando o feito do descobrimento e agradecendo o apoio à sua expedição foram dirigidas justamente a Santagel e Sanchez que adiantaram recursos pessoais de alto valor para financiar aquela que foi uma das maiores aventuras do homem em todos os tempos: a descoberta de um novo mundo. Coincidentemente ocorrida no sétimo dia de Sucot, no mês de Tishrei, o sétimo dos doze meses do calendário judaico ( chamado yerach ha’etanim, "o mês dos fortes" ou "o mês dos antigos"), sete meses após o decreto de Alhambra que legalizou o confisco de bens e a expulsão de todos os judeus das terras espanholas que lá viviam há mais de quatrocentos anos.